Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

🌱 Brasil diverso: por que comemos tão pouco da nossa biodiversidade?

Quarta, 2 de setembro de 2026
Brasil diverso: por que comemos tão pouco da nossa biodiversidade?


Quantos sabores brasileiros cabem no nosso prato e quantos nem chegam até nós? Em um país de enorme sociobiodiversidade, ainda comemos a partir de um repertório relativamente pequeno. Hoje, vamos olhar para o caminho entre território, feira, cozinha e mesa.



Do território ao prato: por que comemos tão pouco da sociobiodiversidade brasileira?

Quando pensamos em biodiversidade brasileira, é fácil imaginar florestas, rios e paisagens. Mas ela também está na comida: nos frutos do Cerrado, nas raízes cultivadas em diferentes territórios, nas folhas, sementes e preparações que atravessam gerações. Ainda assim, boa parte do que comemos todos os dias vem de um repertório bastante reduzido.

E isso não acontece simplesmente porque “esquecemos” outros sabores. O que chega à nossa mesa é resultado de um sistema agroalimentar inteiro: produção, transporte, distribuição, preço, publicidade, políticas públicas e disponibilidade nos locais onde compramos. Quando poucas cadeias concentram terra, créditos, logística e espaço nas prateleiras, também ajudam a definir quais alimentos ficam mais visíveis e quais quase desaparecem do nosso cotidiano.

Muita biodiversidade, mas pouca diversidade no prato

Nós defendemos que olhar para a alimentação é também olhar para os caminhos que o alimento percorre. Em nosso conteúdo sobre sistemas agroalimentares, mostramos um dado que ajuda a dimensionar essa homogeneização das dietas: no mundo, 75% das calorias de origem vegetal vêm de apenas seis culturas de alimentos.

Esse cenário contrasta com a riqueza brasileira. No Cerrado, por exemplo, encontramos pequi, baru, cagaita, araticum, buriti, mangaba e diferentes tipos de caju nativo. O cajuzinho-do-cerrado, pequeno e aromático, pode ser consumido in natura e usado em sucos e doces.

Em outros biomas, encontramos muitos outros ingredientes, variedades e modos de preparo ligados à história de povos, comunidades e territórios.

Quando esses alimentos deixam de circular, não perdemos apenas opções para variar o cardápio. Perdemos também conhecimentos culinários, sementes, formas de cultivo, memórias e relações com o território.

Quem decide o que chega até nós?

É comum transformar alimentação em uma lista de decisões individuais: compre isso, evite aquilo, experimente determinado alimento. Mas a diversidade no prato depende também da diversidade disponível perto de nós e de condições para que ela seja produzida, distribuída, acessada e comprada.

Por isso, valorizar a sociobiodiversidade brasileira não significa trocar tudo o que já comemos por alimentos raros ou difíceis de encontrar. A ideia é justamente ampliar possibilidades. Podemos observar o que é produzido na nossa região, conhecer alimentos da época, conversar com feirantes, experimentar uma variedade diferente de feijão, uma fruta que nunca compramos ou uma folha que faz parte da culinária local.

Feiras orgânicas e agroecológicas, agricultura familiar, bancos de sementes crioulas, hortas comunitárias e circuitos curtos de comercialização ajudam a preservar nossa biodiversidade viva. Eles aproximam quem produz de quem consome e podem fortalecer culturas alimentares que o modelo dominante tende a apagar.

Diversificar também é preservar

Um prato mais diverso começa muito antes da cozinha. Ele depende de territórios protegidos, de agricultoras e agricultores com condições de produzir, de sementes preservadas, de políticas públicas e de pontos de varejo que não sejam organizados apenas pela lógica da escala e do lucro.

Por isso, quando falamos em alimentação adequada e saudável, falamos também de biodiversidade, cultura alimentar, justiça e direito de escolha de verdade.

No nosso Dicas e Direitos sobre sistemas agroalimentares, mostramos com mais detalhes como essa rede funciona e quais caminhos já fortalecem uma comida mais saudável, sustentável e justa.

E, se queremos que essa transformação vá além das escolhas individuais, podemos fortalecer quem trabalha para mudar as regras do jogo.

Imagem Guia Alimentar para a População Brasileira
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Para ter mais diversidade no prato, precisamos abrir espaço para ela no campo e no mercado.

Nós pesquisamos e defendemos políticas que fortaleçam a agricultura familiar, a agroecologia e a sociobiodiversidade, para que essa riqueza possa chegar à mesa de mais pessoas.

Ao se associar, você fortalece esse trabalho por um sistema alimentar mais diverso, saudável e sustentável.







PARTICIPE
Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) busca responsáveis por crianças

O Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens)/USP está recrutando pessoas responsáveis por crianças de seis meses a cinco anos para validar uma ferramenta de monitoramento do consumo de ultraprocessados na infância. A participação é voluntária e inclui uma entrevista on-line. Nutricionistas e estudantes de nutrição não podem participar. Jornal da USP

ALIMENTAÇÃO E DIREITOS
Sociedade civil transforma políticas de saúde

Mobilização social também vira política pública. Reportagem mostra como iniciativas da sociedade civil têm impulsionado mudanças na saúde, incluindo a restrição à oferta, venda e publicidade de ultraprocessados nas escolas. A experiência do Rio de Janeiro, iniciada em 2023, já inspira propostas em outros municípios e no Congresso Nacional. Folha de S.Paulo

POLÍTICAS PÚBLICAS
São Paulo segue sem plano contra a fome

Desde 2023, São Paulo está sem um Plano Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional em vigor. Além disso, apenas 79 dos 645 municípios paulistas aderiram ao Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN). Representantes da sociedade civil ouvidos pela reportagem também apontam o enfraquecimento dos espaços de participação social no estado. O Joio & O Trigo




Fernanda Marrocos

Pesquisadora e supervisora do eixo de incidência da Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis. Fernanda é nutricionista, mestre em Nutrição em Saúde Pública pela UNIFESP e doutora em Saúde Global e Sustentabilidade, pela Faculdade de Saúde Pública da USP. É membro do Observatório Brasileiro de Conflitos de Interesse (ObservaCoI) e da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável.

Embora o Brasil seja um dos países mais biodiversos do mundo, seu sistema agroalimentar depende fortemente de um número reduzido de espécies. Entre as mais de 351 espécies associadas às aquisições de alimentos no Brasil em 2017–2018, a maior participação no total adquirido (em kg/pessoa/ano) concentrou-se principalmente em cinco espécies: bovinos, arroz, trigo, cana-de-açúcar e aves. Precisamos mudar esse cenário, valorizando a sociobiodiversidade brasileira e promovendo o consumo de alimentos in natura e minimamente processados, sobretudo aqueles de origem vegetal.



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A jabuticaba não gosta de esperar

Pequena, de casca escura e polpa clara, a jabuticaba é um daqueles sabores muito ligados à biodiversidade brasileira. Além de ser deliciosa in natura, pode aparecer em geleias, molhos, sucos e outras preparações. Setembro é um ótimo momento para encontrá-la com mais facilidade.

Como a jabuticaba amadurece e perde qualidade rapidamente depois de colhida, vale consumi-la logo após a compra. Para conservá-la por mais tempo, podemos mantê-la refrigerada e higienizá-la apenas antes do consumo. Se a ideia for aproveitar a safra por mais tempo, a polpa também pode ser congelada em pequenas porções.

Abóbora: aproveitamento que vai longe

A abóbora paulista é uma das opções da época e cabe em preparações bem diferentes: sopas, purês, refogados, assados, recheios e até receitas doces. Seu sabor suave também permite combinar temperos, ervas e outros ingredientes de acordo com os costumes de cada cozinha.

Depois de cortada, o ideal é mantê-la refrigerada em recipiente bem fechado. Também podemos cozinhar ou assar a abóbora e congelar em porções para facilitar outras refeições. E as sementes não precisam ir para o lixo: depois de limpas, podem ser assadas e aproveitadas em diferentes preparações.






Aproveite a temporada da jabuticaba para preparar uma geleia caseira cheia de sabor. Com poucos ingredientes, ela combina com pães, bolos, crepes e até queijos.





Uma forma crocante e diferente de colocar o jiló na mesa. Cortado em fatias finas, empanado com polvilho azedo e frito, ele vira um petisco sequinho e cheio de sabor.







Couve-flor, azeite e páprica se transformam em um acompanhamento simples, dourado e cheio de sabor. Uma receita prática para variar o preparo desse vegetal e aproveitar melhor o que está na época.




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