Segunda, 7 de setembro de 2026
DA ITÁLIA DO PINÓQUIO AO BRASIL DO BOLSONARO
Em 1963, entrava, após aprovado em rigoroso exame vestibular, na Faculdade Nacional de Direito, da Universidade do Brasil (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro). Ainda era um tempo de sonhos. O golpe tramado e executado por Washington, com colaboração de maus brasileiros (como exemplo os formadores e condutores do Instituto Brasileiro de Ação Democrática – IBAD, e do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais – IPES) vinha se construindo desde antes das eleições de 1962 e explodiria em março de 1964.
O IBAD, que funcionou como repassador de recursos da Agência Central de Inteligência (CIA), dos Estados Unidos da América (EUA), inclusive financiando candidatos pró-estadunidenses nas eleições de 1962, pelo braço político Ação Democrática Popular (ADEP), foi fundado em maio de 1959, por Ivan Hasslocher, publicitário carioca que, após o golpe, fugiu do Brasil e passou seus últimos anos entre suas residências de Londres e de Houston (Texas), onde faleceu em 2000. Certa vez ele disse que havia ganho “muito dinheiro” com o golpe contra o Brasil.
O IPES formou o complexo empresarial-militar. Foi, e ainda é, o sonho da direita. Teve início na sua luta contra Getúlio Vargas, ainda nos primeiros momentos de seu governo, em novembro de 1930, quando o Estadista, após sua posse (3/11) deu os primeiros passos para tornar realidade nossa independência, com a criação do Ministério da Educação e Saúde Pública, (14/11) e a libertação dos escravos, com o Ministério do Trabalho, da Indústria e do Comércio e o início da legislação trabalhista (26/11).
Ainda nestes prolegômenos são necessárias algumas informações que auxiliem a compreender como um mentiroso compulsivo se mantém, em 2026, candidato à presidência do País.
Iniciemos pelo título deste artigo. No romance de Carlo Collodi (1826-1890), “Storia de un burattino” (1881), o boneco de madeira, Pinóquio, também vê crescer seu nariz sempre que mente? Não, apenas ocorre quando Pinóquio está na casa da Fada, chamada de “menina de cabelos azuis”, e mente sobre as moedas de ouro que perdeu. É no clássico desenho animado de Walt Disney, que toda vez que mente o nariz de Pinóquio cresce.
O que desejava mostrar Carlo Collodi, pseudônimo de Carlo Lorenzini, neste romance? Um momento particularmente difícil que passava a Itália no seu processo de unificação, onde a miséria e a fome eram as mais presentes companheiras da população, e a Justiça prendia a vítima no lugar do malfeitor. Mais ou menos o que leva o atual presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) a exigir daquele colegiado a elaboração do Código de Conduta. E, assim, procurar recuperar a confiança do povo brasileiro em sua Justiça.
Prossigamos com o IPES. Este foi fundado no Rio de Janeiro, mas com fortes articulações com São Paulo, em 29 de novembro de 1961, no contexto da crise política gerada com a renúncia do presidente Jânio Quadros, 25 de agosto de 1961, e a posse do vice-presidente João Goulart (Jango), 7 de setembro. A posse de Jango não foi fácil. Foi vetada pelos ministros da Guerra, Marinha e Aeronáutica em nome da segurança acusando Jango de ter “conexões históricas com os comunistas”. Colocaram-se a favor da posse de Jango, o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, o comandante do 3º Exército, general José Machado Lopes e os governadores conservadores: Carvalho Pinto (São Paulo), Juraci Magalhães (Bahia), Ney Braga (Paraná) e Mauro Borges (Goiás).
Faziam parte do IPES os empresários Augusto Trajano de Azevedo Antunes, da Caemi Mineração, e Antônio Gallotti, da Light S.A., além do militar Golbery do Couto e Silva. Este Instituto produzia mídias de todas as espécies; de um panfleto impresso a ser distribuído nas ruas das cidades, a filmes, livros e cursos de formação e divulgação política. Paralelamente, promoviam-se reuniões entre empresários, destes com militares, e deste conjunto empresarial-militar até na Escola Superior de Guerra (ESG). Procurava-se transmitir a imagem da estreita relação da cúpula civil do Rio-São Paulo, com a cúpula intelectual militar. Eram então considerados distantes os “militares dos quarteis”.
Estas distâncias explicam os desencontram e as defecções ocorridas entre militares nos meses de março a maio de 1964, quando volta a imperar a hierarquia e, efetivamente, Humberto de Alencar Castelo Branco (1899-1969) a se assenhorear do comando. Veja-se que, após o Ato Institucional nº 1, redigido por Francisco Campos e assinado pelo “Comando Supremo da Revolução”, em 9 de abril, o 2º Ato Institucional só foi emitido em 27 de outubro de 1965. E, à medida que o tempo passava, os processos e procedimentos voltavam às rotinas, o arcabouço institucional de Francisco Campos se dissolvendo, e os golpistas a emitirem, em 13 de dezembro de 1968, já tendo sofrido um golpe dentro do golpe, o Ato Institucional nº 5, como que reforçando o AI nº 1 e reiniciando o golpe.
Mas o mundo também havia mudado, como não se haviam dado conta em 1964, nem em 1968, mas se verificou após o falecimento de Artur da Costa e Silva (17/12/1970). Havia sido criada a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) em Bagdá, no Iraque, em 14 de setembro de 1960, reunindo além do Iraque, a Arábia Saudita, o Irã, o Kuwait e a Venezuela. Mas sua primeira atuação ocorreu em 1973, no contexto da Guerra do Yom Kippur, quando Israel aumenta sua ocupação territorial e é possível aos membros árabes da OPEP decretarem um embargo e fixarem os preços dos barris de petróleo unilateralmente, fazendo seus valores aumentarem em até quatro vezes.
Ridendo castigat mores
Como escolheríamos um mentiroso, hoje, em plena campanha eleitoral? Como um palhaço, alguém sem noção, incapaz de ter um desempenho minimamente aceitável para qualquer dos cargos eletivos em disputa. O que se dirá então do mais alto cargo executivo do Brasil!
Mas não é o que as mídias monopolistas querem demonstrar. Talvez para receberem incentivos em publicidade, talvez por algum acerto por trás das cortinas, talvez, ainda, por uma atávica subserviência colonial aos EUA, herdada dos golpes de 1964, 1968, 1979 e da farsa da “redemocratização”, com as eleições que se seguiram.
Hoje vemo-nos no fundo do poço.
Temos dois grupos disputando a presidência, exceto o provável vencedor, que será reeleito: das direitas e das esquerdas.
Nas direitas há pessoas presas ao passado, que não são capazes de ver as necessidades da população mais pobre, de renda inferior a dois salários mínimos, e que chegam a 70% da população acima de 18 anos. Mas exigem como solução universal o corte de gastos, o teto de despesa como fosse possível ressuscitar mortos e se produzir do nada.
Nas esquerdas, existe muito idealismo mas pouca realidade. Falta constituir grupos destes bem intencionados em que se encontram muitos bem preparados, para agirem em comunidades, nos movimentos dos sem terra, na instrução e nas assistências de toda ordem, junto aos canais formais da administração pública.
E temos um candidato, cujo pai foi senão o pior, dos piores presidentes do Brasil, que alienou a soberania brasileira às finanças internacionais, deixando-nos ainda mais pobre do que quando se elegeu. E este, não podendo enfrentar os fatos, se torna o Pinóquio das eleições de 2026.
*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

