“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Milícias, Faria Lima e governos: a zona cinza

Quinta 8 de outubro de 2026

Milícias, Faria Lima e governos: a zona cinza

Como o declínio dos serviços públicos abriu, na Itália e no Brasil, caminho para o controle do crime sobre os territórios. Por que o rentismo quase sempre abre as portas aos recursos ilícitos. Qual o papel de políticos como Flávio na trama

OutrasPalavras                    Crise Brasileira

Matéria originalmente postada no OUTRASPALAVRAS em 07/10/2026 às 18:39


A leitura dominante do crime organizado cai numa armadilha liberal e moralista: trata narcotráfico e milícias como desvios, anomalias do mercado, invasores que corrompem um Estado originalmente sadio. Essa leitura oculta o dado fundamental. O crime organizado territorial, em suas formas consolidadas, é fração do capital e tecnologia de gestão urbana e política.

Para situar a milicianização brasileira às vésperas de 2027, o paralelo com a Itália do fim do século XX é útil, desde que preciso. A lição italiana não é a de um político que entregou o Estado à máfia, mas a de um sistema político em colapso que normalizou uma contiguidade já existente entre capital legal e capital violento.

O fio condutor desta leitura é a obra de Roberto Saviano. Em Gomorra, os camorristas não chamam sua organização de máfia, mas de Sistema: o crime não é exceção à ordem econômica, é um de seus modos de funcionamento. A lógica do empresário criminoso e o pensamento dos chefões, escreve Saviano, coincidem com o neoliberalismo mais radical.