Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Reportagem —Fazenda palco de “dia do fogo” em 2022 é hoje a que tem mais queimadas no Brasil

Quinta, 12 de setembro de 2024


REPORTAGEM
Fazenda palco de “dia do fogo” em 2022 é hoje a que tem mais queimadas no Brasil

Fazenda Bauru, no Mato Grosso, é recordista de focos de incêndio; políticos condenados por corrupção compraram terreno

12 de setembro de 2024

 ESPECIAL CLIMA DAS ELEIÇÕES
SOCIOAMBIENTAL
Amazônia Clima das Eleições Eleições 2024 meio ambiente Pantanal queimadas

Quase na divisa de Mato Grosso com Amazonas, uma fazenda pegou fogo. Muito. Muito mais que as que estão ao seu redor. Na realidade, mais que qualquer outra propriedade privada rural em todo o Brasil.

Segundo levantamento inédito da Agência Pública, a fazenda Bauru, no município de Colniza (MT), foi a que teve mais focos de incêndio registrados em todo o ano de 2024. Foram 608 detectados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) desde o início do ano. A segunda fazenda que mais teve incêndios no mesmo período registrou 290 – menos da metade da Bauru.

Focos de incêndio (em vermelho) na área da fazenda Bauru ao longo deste ano

A maioria dos incêndios na fazenda aconteceu em julho. Houve dias em que a fazenda teve mais de 50 focos ativos. Mas o problema não cessou. Agora, em setembro, parte da fazenda aparece com alerta de incêndio grave no sistema de mapas do Google.

As queimadas na fazenda Bauru colocaram a propriedade no radar do Batalhão de Emergências Ambientais do Corpo de Bombeiros. Em agosto deste ano, foi divulgada uma lista de áreas com incêndios que estavam sendo monitoradas: a Bauru estava entre elas. A reportagem questionou a corporação sobre as ações neste ano e se alguém foi detido por incêndios criminosos, mas os bombeiros não responderam até a publicação.

Alerta de incêndio na área da fazenda em 10 de setembro de 2024

A fazenda Bauru tem um histórico envolvendo incêndios criminosos. Em 2022, uma operação policial descobriu um plano para fazer um novo “Dia do Fogo” no local. Segundo a investigação, que envolveu diversos órgãos do Executivo e Judiciário do estado e de municípios, um grupo criminoso estava se organizando para provocar queimadas coordenadas em vários pontos de Colniza. A Operação Jomeri prendeu uma pessoa por porte de arma ilegal e apreendeu material artesanal para atear fogo.

O “Dia do Fogo” original foi uma ação de fazendeiros na região de Novo Progresso (PA), em 2019, que combinaram por WhatsApp de realizar queimadas em protesto a políticas ambientais de preservação da floresta. Na época, incêndios também atingiram o estado de Mato Grosso, na região da BR-163. Os responsáveis permanecem impunes até hoje.

POR QUE ISSO IMPORTA?

A quantidade de queimadas em 2024 tem afetado a saúde de brasileiros em diversos estados e contribuído para a devastação de biomas como o Pantanal e a Amazônia.

Colniza, onde está a fazenda Bauru, é o município com mais focos de calor em Mato Grosso, que é o estado com mais focos neste ano.
A reportagem da Pública também encontrou uma série de áreas embargadas por desmatamento irregular na área da Bauru em 2022, a partir de decisões da Secretaria de Meio Ambiente do estado.

Antes, em 2019, a empresa responsável pela fazenda Bauru foi multada em R$ 4 milhões pelo Ibama por destruir mais de 540 hectares de vegetação com uso de fogo, sem autorização da autoridade competente. No ano anterior, a propriedade já tinha sido multada em mais de R$ 13 milhões pela destruição de 2,6 mil hectares de floresta de forma irregular.

Município onde está a fazenda é o recordista em incêndios no estado

As queimadas na fazenda Bauru ajudam a explicar como Colniza se tornou o município com maior número de focos de calor em Mato Grosso em 2024, com 2.171 registros. A baixa qualidade de ar aumentou a procura por atendimento médico nas unidades de saúde em setembro, sobretudo crianças e idosos, segundo relatou o G1.

O histórico de Colniza não é bom há muitos anos. Em 2015, o município liderou o ranking dos que mais desmatam na Amazônia. A cidade respondeu sozinha por 19% do desmatamento registrado no estado entre agosto e dezembro daquele ano.

quinta-feira, 21 de março de 2024

60 anos do golpe militar: Estudo aponta 1.654 camponeses mortos e desaparecidos na ditadura

 Quinta, 21 de março de 2024

Pesquisa inédita do colaborador da UnB e ex-preso político Gilney Viana contabilizou vítimas da ditadura de 1964 a 1988

21 de março de 2024

Por Rubens Valente

Um estudo inédito realizado pelo pesquisador colaborador da Universidade de Brasília (UnB) e ex-preso político Gilney Viana, 78, aponta que 1.654 camponeses foram mortos ou desapareceram do golpe de 1964 até a promulgação da Constituição, em 1988. Viana considera o governo de José Sarney (1985-1989) um “regime de exceção, como [consideram] as leis da justiça de transição, período este que herdou parte da política repressiva da ditadura, com maior gravidade sobre os camponeses”.

É um número bastante superior às conclusões do relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que funcionou de 2012 a 2014 e investigou crimes cometidos de 1964 a 1988. No documento final, a comissão reconheceu apenas 41 camponeses do total de 434 mortos e desaparecidos, deixando para um anexo temático as informações sobre a violência contra camponeses e povos indígenas. No estudo, Viana escreveu que a CNV “diminuiu seu papel histórico ao reconhecer apenas 434 mortos e desaparecidos, apesar de conhecer a existência de milhares de mortos e desaparecidos forçados” e que ela “reproduziu a exclusão e a discriminação da classe dominante contra os camponeses e os indígenas”.

Viana viveu intensamente os anos de chumbo da ditadura. Como militante da luta armada na Ação Libertadora Nacional (ALN), foi preso e torturado pelos agentes da repressão do DOI-Codi do Rio de Janeiro. Ficou preso por nove anos e dez meses, período em que participou de uma greve de fome que durou 32 dias contra o projeto de anistia parcial da ditadura.

Após ter deixado a prisão, no começo dos anos 1980, mudou-se para Mato Grosso, onde se formou em medicina e ajudou a fundar o PT estadual – já havia ajudado a fundar o PT em Belo Horizonte. Em Cuiabá, elegeu-se deputado federal. Durante seu mandato, presidiu a antiga Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias na Câmara dos Deputados. Em Mato Grosso, conheceu de perto a questão camponesa ao acompanhar diversos movimentos de luta pela terra. Integrou duas vezes o Diretório Nacional do PT (de 1984 a 1990 e de 1993 a 1995) e foi secretário de Desenvolvimento Sustentável do Ministério do Meio Ambiente no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006).

Em agosto de 2012, certos de que o tema dos camponeses mortos e desaparecidos não tinha recebido a devida atenção na justiça de transição, diversos movimentos sociais, acadêmicos e pesquisadores criaram a Comissão Camponesa da Verdade (CCV), que passou a investigar o assunto com mais profundidade e da qual Viana é membro desde o começo. Em 2015, a CCV concluiu que 1.196 camponeses foram mortos ou desapareceram de 1964 a 1985.

Casa caíçara queimada por jagunços em Trindade (RJ), 1978. Viana aponta negligência da justiça sobre violência contra camponeses na ditadura

O estudo de Viana, intitulado “A resistência camponesa à ditadura militar”, tem mais de 400 páginas, ainda não foi publicado e recorre a conclusões da CCV, a dezenas de estudos anteriores, a estatísticas, a artigos e a levantamentos próprios para apontar o impressionante número de pelo menos 16.578 camponeses vítimas de algum tipo de “repressão política” no período 1964-1988 em variadas formas, do assassinato à prisão, de agressões físicas a tentativas de homicídio. Desse total, segundo Viana, ao menos 7.512 ocorreram apenas durante os quatro primeiros anos do governo Sarney (1985-1988). “Os números são revisados constantemente e só tendem a aumentar”, disse Viana.

Do total das vítimas, cerca de 8 mil foram identificadas nominalmente e outras 8.153 “não [foram] identificadas nominalmente, mas indicadas por fontes confiáveis a partir de acontecimentos verificáveis”.

Em entrevista à Agência Pública, Viana ressalta a importância histórica dos mecanismos encarregados da justiça de transição como a CNV, mas faz uma “avaliação crítica”, pois a comissão “limitou-se em conhecer os casos de graves violações dos direitos dos povos indígenas, camponeses e religiosos e, ao mesmo tempo, não reconhecê-los, formal e integralmente, como vítimas dessas graves e sistemáticas violações de direitos humanos”.

A seguir, trechos da entrevista concedida em seu apartamento em Brasília.

Ex-preso político e membro da CNV, Gilney Viana vivenciou intensamente os anos de repressão

Por que você decidiu estender seu levantamento até 1988?

Porque de 85 a 88 a ditadura não nomeou mais os chefes militares como ditadores, mas admitiu que se nomeasse um civil, o José Sarney. E todas as leis e a historiografia consideram que o período de exceção vai até a constitucionalização. E estabelecem como marco da constitucionalização a promulgação da Constituição Federal de 88. É um governo civil-militar, o do Sarney. Do total de mortos e desaparecidos citados no meu levantamento, a maioria foi assassinada no período João Figueiredo [1979-1985] e no período Sarney [1985-1989]. Em 1964, por óbvio, foi a grande onda repressiva, o grande impacto, com muitas prisões, ela foi ampla. Mas não foi tão letal. Toda morte é relevante, mas eu estou falando de quantitativos aqui. Em relação aos presos e aos perseguidos, na ditadura, nesse primeiro momento, a morte era seletiva.

Uma parte dessas mortes e desaparecimentos de camponeses foi financiada por fazendeiros, executada por milícias, polícias estaduais. Qual o papel e a responsabilidade da ditadura nessas mortes?

Por que você tem mais mortes de camponeses no período Figueiredo e no período [Sarney] quando já existia abertura? Inclusive já tinha havido anistia. Por uma razão muito simples. Muito simples, não. Ela é complexa, mas você pode sintetizar. É que o projeto de democratização, o projeto de estado democrático previsto no acordo [de poder] da anistia, não incluía os camponeses nem indígenas. Não incluía você resolver os direitos sociais e políticos desses grupos.

Criada em 2012, a Comissão Camponesa da Verdade promoveu encontro entre camponeses e indígenas

Em que sentido não incluiu?

 Não incluiu em todos os sentidos. Na verdade, você tem que olhar que quando se fez esse acordo – que não é um acordo só da anistia, é o acordo do poder, foi feito lá em cima –, já em 1982, se tinha pactuado com as novas e velhas oligarquias estaduais que já era um outro padrão de pessoas [vítimas], não era uma continuidade. Mas todas elas eram baseadas fundamentalmente em grandes propriedades de terra, de grandes latifundiários. Ou, então, já era do novo agronegócio, que eles começaram a mesclar em função do que o [José] Martins fala, que é a modernização conservadora no campo. Ou seja, você conserva o latifúndio, não faz reforma agrária. Você melhora tecnicamente as forças produtivas, como dizem os marxistas, e moderniza do ponto de vista capitalista, mas não moderniza as relações sociais nem as relações de direitos. Por isso que eles resistiram à sindicalização dos trabalhadores rurais. Eles resistiam a que os camponeses fizessem manifestações e resistiam a que os camponeses lutassem pela terra. Então surge uma elite agroexportadora, agroindustrial, que foi fundamental para estabelecer o poder nos estados. Então o que aconteceu? Quando o Exército retira o DOI-Codi, vamos dizer assim, desmonta o DOI-Codi, ele chama esse pessoal do DOI-Codi para o CIE, o Centro de Informações do Exército, mas não desmonta o CIE, não.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Ataques com uso da Justiça crescem enquanto agressões a jornalistas caem no pós-Bolsonaro

Quarta, 31 de janeiro de 2024


Por Fernanda Diniz

NOTA

Ataques com uso da Justiça crescem enquanto agressões a jornalistas caem no pós-Bolsonaro

31 de janeiro de 2024
Por Fernanda Diniz

O Relatório Anual de Violência Contra Jornalistas e a Liberdade de Imprensa no Brasil da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) revelou uma redução considerável nos casos de violência direta contra os profissionais do ramo em 2023, mas mostrou um maior uso da Justiça para cercear o trabalho da imprensa. Os dados revelam que houve 181 agressões de tipos diversos contra profissionais de imprensa. Dentre elas, ações judiciais tendo jornalistas como alvo aumentaram 92,31% no ano passado. Nesse cenário, a censura é um dos casos mais preocupantes, universo que inclui a Agência Pública.

A realidade da violência atual difere um pouco do processo de descredibilização da imprensa junto aos ataques fomentado pelos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (e pelo próprio), na época de seu mandato, quando eram comuns ataques constantes pela então maior autoridade do país.

A violência, no entanto, vai além dos ataques cibernéticos ou agressões físicas e inclui a tentativa frequente de calar as vozes da imprensa. O uso do judiciário, na tentativa de intimidar jornalistas e evitar reportagens que citem políticos ou autoridades governamentais, parte inclusive de políticos.

sábado, 14 de outubro de 2023

Parlamentares gastam R$ 127 mil de verba pública para ir a eventos bolsonaristas na Europa

Sábado, 14 de outubro de 2023
Reprodução

Eventos são do grupo Yes Brazil USA, que cuidou da agenda do ex-presidente em Orlando após eleição

13 de outubro de 2023
Por Laura Scofield*



Em setembro e outubro deste ano, o grupo dos seminários e palestras Veritas Liberat, realizados com o apoio do grupo Yes Brazil USA em cidades europeias, estão sendo parcialmente pagos pelo contribuinte brasileiro.

Apuração da Agência Pública revela que deputados e senadores gastaram mais de R$ 127 mil reais de dinheiro público para ir a eventos bolsonaristas, onde a disseminação de desinformação é comum – em uma delas, o general Pazuello questionou a apuração dos votos nas eleições presidenciais. Segundo organizadores, os eventos servem para aproximar parlamentares brasileiros de congressistas conservadores de outros países. 

O último seminário Veritas Liberat nos países europeus ocorrerá amanhã (14), em Madrid, capital espanhola. O evento terá entre seus convidados o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a deputada federal Bia Kicis (PL-SP) e a deputada estadual de Santa Catarina, Ana Campagnolo (PL-SC). Este ano ainda ocorreram outros quatro seminários promovidos pelo Yes Brazil USA e pelo Institutum Veritas Liberat. Em setembro, os eventos foram realizados nas cidades italianas de Novara e Roma, e em Zurique, na Suíça. No último dia 10 de outubro houve ainda um evento em Lisboa.

Além deles, o Coronel Alberto Feitosa (PL-PE), da Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco (Alepe), também participou dos eventos.

Flávio Bolsonaro gastou mais de R$ 11 mil em passagens para a Espanha e R$ 9 mil em diárias no país. Ele viajou em 11 de outubro e volta ao Brasil no dia 16. O senador foi autorizado a viajar com dinheiro público pelo presidente da Casa, senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), como determina o regimento do Senado para viagens em missão oficial. 

O deputado federal e ex-ministro da Saúde de Bolsonaro, General Pazuello (PL-RJ) gastou mais de R$ 27 mil com passagens e diárias, pagas pela Câmara dos Deputados. Pazuello compareceu aos seminários nas cidades de Roma e Novara, na Itália, e Zurique, na Suíça, entre os dias 20 e 26 de setembro. 

Em sua fala em Zurique, em 24 de setembro, Pazuello questionou a apuração dos votos feita pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e afirmou que “é importantíssimo o voto impresso”, rejeitado pela Câmara dos Deputados em 2021. “A Constituição é clara: o voto é secreto, mas a apuração é pública. Será que a apuração está sendo pública? Será que estamos cumprindo a Constituição no que prescreve a apuração pública dos votos? A contabilização e apuração pública?”, perguntou. 

De acordo com o TSE, o resultado de cada urna é impresso e colado nas seções eleitorais. “Ele pode ser facilmente confrontado, por qualquer eleitor, com os dados divulgados pelo TSE na internet, após a conclusão da totalização”, explica o tribunal. 

Participante de uma das edições do seminário Veritas Liberat.

Pazuello dividiu a mesa com os deputados estaduais Ana Campagnolo e Coronel Alberto Feitosa, que também pagaram suas idas com dinheiro público. Feitosa gastou R$ 14,8 mil em diárias entre 20 e 25 de setembro, quando compareceu aos congressos na Itália e Suíça. 

Na cidade italiana de Novara, Feitosa reproduziu a fake news que afirmava que a sigla “CPX”, usada por Lula em um boné, era ligada a uma facção criminosa. Na verdade, o termo significa “complexo” e se refere a grupos de favelas, como o Complexo do Alemão – onde o presidente estava em campanha quando usou o boné. 

No ano passado, a Pública mostrou que a campanha de Bolsonaro tentou ligar o atual presidente ao crime organizado usando desinformação como estratégia política. 

Já Campagnolo viajou para a Suíça no dia 20 de setembro acompanhada de seu assessor, Douglas Pereira Lopes. Os dois gastaram mais de R$ 36 mil com diárias e passagens. No relatório de viagem, descreveram o seminário como um “evento oficial” onde haveria “reunião/visita com lideranças/entidades”. Voltaram ao Brasil em 26 de setembro, e no dia 5 do mês seguinte, a deputada foi novamente à Europa para comparecer aos seminários de Lisboa e Madrid. A segunda ida de Campagnolo custou ao todo mais de R$ 28 mil aos cofres do estado de Santa Catarina. No total, Campagnolo gastou R$ 65 mil para comparecer aos eventos. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

TRE desaprova prestação de contas de Rosângela Moro, eleita deputada federal

Sexta, 9 de dezembro de 2022
                                                                                                        Reprodução

TRE desaprova prestação de contas de Rosângela Moro, eleita deputada federal

"Inconsistências graves" representam mais de 30% dos gastos de campanha, diz parecer da área técnica

Thiago Domenici
9 de dezembro de 2022

Entre falhas está evento sem registro oficial revelado pela Pública

Rejeição das contas não impede a diplomação dos eleitos

A área técnica do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo deu um parecer desaprovando as contas de campanha eleitoral da deputada federal Rosângela Wolff Moro (União Brasil), esposa do senador Sérgio Moro (União Brasil), que também teve suas contas de campanha contestadas recentemente. Rosângela foi eleita com 217 mil votos.

O relatório, assinado nesta quinta-feira (8), afirma que a sua campanha não esclareceu gastos eleitorais irregulares com recursos do Fundo Partidário que somam R$ 854 mil reais, gastos eleitorais irregulares pagos com recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha que somam de R$ 1089.018,01. Também houve recursos de origem não identificada no valor de R$6.845 e sobras de campanha no valor de R$ 17,582.

O parecer do TRE obtido com exclusividade pela Agência Pública tem 22 páginas e informa que já havia sido solicitado à campanha de Rosângela a apresentação “de esclarecimentos e provas complementares”, o que foi feito mas não convenceu o TRE sobre a transparência das contas.

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Documento confirma que governo Bolsonaro omitiu da COP a taxa de desmatamento na Amazônia

Quarta, 30 de novembro de 2022

Por 
Rubens Valente
30 de novembro de 2022

COLUNA
Documento confirma que governo Bolsonaro omitiu da COP a taxa de desmatamento na Amazônia

Dado da área total desmatada no período 2021-2022 é equivalente à da Jamaica

A data da nota técnica do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que comunica a taxa anual do desmatamento na Amazônia Legal – divulgada nesta quarta-feira (30) em seu site na internet — confirma que o governo de Jair Bolsonaro já tinha em mãos o número, mas o omitiu durante as reuniões da COP27, a conferência mundial do clima, realizada no Egito neste ano.

A nota do INPE, obtida pela Agência Pública, foi redigida no dia 3 de novembro, enquanto a COP27 começou no dia 6. Depois de redigidas pela área técnica do INPE, as notas anuais são passadas à direção do INPE, que as envia imediatamente ao seu órgão superior, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. Tradicionalmente, o governo brasileiro divulgava publicamente a taxa antes ou durante as COPs, num gesto de transparência para a comunidade internacional. Isso mudou com a chegada de Bolsonaro à Presidência. Em 2021, na COP realizada em Glasgow, na Escócia, a taxa também já era conhecida pelo governo Bolsonaro, mas foi escondida na conferência.

sábado, 12 de novembro de 2022

REPORTAGEM —Terras indígenas respondem por um terço das urnas em que Lula teve 100% dos votos

Sábado, 12 de novembro de 2022
                           Divulgação OEA



Rafael Oliveira
12 de novembro de 2022

Lideranças apontam política anti-indígena de Bolsonaro como principal justificativa para o resultado dessas seções




A política indígena do governo de Jair Bolsonaro (PL) rendeu frutos eleitorais – só que para seu adversário. Em 48 urnas localizadas em territórios indígenas, espalhadas por 11 estados, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi unanimidade. Esse número de seções eleitorais representa cerca de ⅓ das 143 urnas em que o candidato do PT recebeu 100% dos votos válidos, de acordo com levantamento da Agência Pública.

As urnas unânimes viraram notícia na última semana por conta de notícias falsas disseminadas pela rede de desinformação bolsonarista, que apontavam as seções eleitorais com zero votos para Bolsonaro como “prova” de que a eleição foi fraudada. Em alguns casos, o resultado eleitoral de uma seção em que o candidato do PL passou em branco era distorcido e apontado como se representasse toda uma cidade, o que não ocorreu em nenhum local do país. A narrativa falsa foi reforçada por uma live do jornalista argentino Fernando Cerimedo, que é ligado ao deputado federal e filho do presidente Eduardo Bolsonaro (PL). O vídeo, em que ele mencionava um “dossiê” sobre as fraudes, foi retirado do ar pelo YouTube.

A Pública ouviu lideranças de algumas das comunidades que deram 100% dos votos válidos para Lula. Eles citam justamente a política anti-indígena do atual presidente como principal justificativa para o resultado eleitoral dessas seções.

No “coração do agro”, indígenas dizem não a Bolsonaro

Somadas, as cidades de Confresa e de Porto Alegre do Norte, ambas no Mato Grosso, deram 67,5% dos votos válidos para Jair Bolsonaro (PL), candidato derrotado nas eleições de 2022. Foram 14.547 os eleitores que escolheram o número do presidente não reeleito. Nenhum desses votos, porém, saiu das duas urnas localizadas no interior da Terra Indígena (TI) Urubu Branco, que ocupa cerca de 168 mil hectares das duas cidades e da vizinha Santa Terezinha.

Uma das seções, localizada em Confresa, foi alvo de ao menos duas fake news disseminadas por redes bolsonaristas. Em uma, um suposto eleitor afirmava em áudio ter viajado 1.600 km para votar em Bolsonaro, justamente na seção 28, localizada na Escola Estadual Tapi’Itawa, na Urubu Branco. Na outra, um apoiador do atual presidente questionava como era possível o candidato do PL não ter recebido nenhum voto em uma urna do Mato Grosso, “coração do agro”, estado onde ele venceu com cerca de 65% dos votos válidos.

Mas não há fraude: nas duas seções, uma em Confresa e a outra em Porto Alegre do Norte, Lula recebeu 383 e 55 votos, respectivamente, por decisão conjunta da comunidade, de acordo com o cacique Elber Ware’i Tapirapé. “Nós assistimos o presidente Jair Messias Bolsonaro durante a sua campanha, durante a sua gestão, falar sobre os povos indígenas. E a gente percebeu muito bem que ele não tinha interesse de lutar na questão indígena, principalmente na questão territorial. Ele deixou bem claro que não haveria, no governo dele, um centímetro de demarcação indígena e, durante quatro anos, ele não demarcou nenhum território indígena”, diz o cacique.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Bolsonaro mentiu de novo, os Yanomami não têm o canibalismo como prática

Sexta, 7 de outubro de 2022




Rubens Valente

@rubensvalente

6 de de outubro 

Bolsonaro mentiu de novo,  os Yanomami não têm o canibalismo como prática

Yanomami Junior Hekurari desmente Bolsonaro: "Coloca aí na sua matéria: ‘Presidente candidato mentiroso’.”

O vídeo que viralizou nas redes sociais nesta semana no qual Jair Bolsonaro aparece dizendo a um jornalista que quase “comeu um índio” que teria sido “cozido” pelos indígenas contém mentiras e desinformações sobre o povo Yanomami, de Roraima. O yanomami Junior Hekurari, presidente do Condisi (Conselho do Distrito Sanitário Indígena) Yanomami, disse que ficou indignado quando assistiu à gravação.

“Nós, Yanomami do Surucucu, não somos canibais, nunca tivemos isso. Não tem um relato [sobre isso]. Nem relatos ancestrais nem atuais. Esse presidente não tem respeito com o ser humano. Ele inventa da cabeça, porque não tem preocupação com o Brasil. No Sucurucu tem pelotão do Exército e tem parceria boa com os Yanomami. Isso de ‘comer indígena’, isso não existe.”

Hekurari disse ter conhecimento de que um grupo indígena Yanomami, já localizado na Venezuela e conhecido como Xamathari, pratica o ritual fúnebre de cremar o corpo, o que pode durar dias ou semanas, triturar e pulverizar os ossos e, por fim, misturar as cinzas, já bastante pulverizadas e em pequenas quantidades, como se fosse sal ou pimenta, a um caldo de banana, que somente então é consumido pelos familiares do morto. Mas esse ritual não prevê o consumo da carne humana e só ocorre eventualmente, “com algumas pessoas, geralmente pessoas muito importantes na comunidade”. Nos rituais fúnebres realizados na região de Surucucu, de acordo com Hekurari, as cinzas são enterradas, e não consumidas com a banana.

A antropóloga Alcida Rita Ramos, doutora em Antropologia pela Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), que participou do processo de demarcação da Terra Indígena Yanomami e é professora emérita da UnB (Universidade de Brasília), no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 viveu mais de dois anos nas comunidades Yanomami. Ela explicou à Agência Pública — em um pequeno texto que intitulou “Canibais são os outros” — o passo a passo do ritual funerário Yanomami.

“Com pequenas variações regionais dentro da Terra Indígena Yanomami, o ritual funerário de um parente começa com pranto coletivo, seguido da cremação do cadáver, momento em que os componentes imateriais da pessoa se libertam do corpo físico. O pranto acompanha esse processo e se repete todas as tardinhas por dias ou semanas. Os ossos carbonizados são recolhidos, triturados e cuidadosamente guardados em cabaças seladas com cera. Algum tempo depois, começam os preparativos para a grande cerimônia em homenagem ao morto. Congregando várias comunidades vizinhas e até mesmo distantes, anfitriões e convidados desempenham as diversas fases da cerimônia que dura mais de uma semana, incluindo cantos, danças, sessões xamanísticas e o que chamamos de diálogos cerimoniais. No último dia, o mais solene, os ossos do morto são pulverizados, adicionados a mingau de banana e ingeridos pelos parentes mais próximos.”

Alcida Ramos faz um paralelo entre o ritual Yanomami e a comunhão nas missas da Igreja Católica. “Todas as semanas milhares e milhares de fiéis católicos ingerem grandes quantidades de hóstias, bolachas de pão sacralizadas para representar o corpo de Jesus Cristo. É um ritual de incorporação de quem está morto, não importa há quanto tempo. Quem ousaria chamar essa prática de canibalismo? Em que ela difere do rito funerário Yanomami? […] Assim como a hóstia cristã incorpora a memória do Cristo entre os vivos e os torna mais cristãos, também as cinzas do parente Yanomami transmitem a sua essência aos vivos e os tornam mais fortes. É a manifestação máxima de solidariedade humana, capaz de superar a própria morte quando une um morto aos seus parentes vivos. Ao mesmo tempo, a incorporação material do morto libera seus componentes imateriais para seguirem o seu próprio destino pós-morte, desprendendo-o definitivamente do mundo dos vivos.”

A professora disse que “a sutileza, o respeito e a grandeza dos ritos mortuários dos Yanomami contrastam cruamente com as tolices perversas e constrangedoras que circulam nas redes sociais, escancarando a palermice e a má-fé que ninguém merece ver, muito menos os povos indígenas e o Brasil como país pluriétnico que é”.

O vídeo que viralizou nesta semana nas redes sociais foi gravado em 2016 e foi extraído de um vídeo mais longo postado naquele mesmo ano pelo próprio Bolsonaro em seu canal no YouTube. Trata-se, segundo Bolsonaro, de uma entrevista ao jornal “The New York Times”.


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No vídeo, Bolsonaro aparece se gabando de ter coragem de quase ter “comido um índio”. Segundo ele, o fato se passou em Surucucu. Embora Bolsonaro não explique, trata-se de uma das principais comunidades da Terra Indígena Yanomami. Equipada com uma boa pista de pouso asfaltada, a comunidade costuma receber comitivas de autoridades vindas de Brasília, o que parece ter sido o caso relatado por Bolsonaro.

Ele diz que em certo ponto da visita notou uma movimentação de indígenas carregando bananas e um indígena “palitando os dentes” e, por isso, ele quis saber o que estava acontecendo. “O que aconteceu? [Alguém respondeu] ‘Morreu um índio e ele tão cozinhando.’ Eles cozinham o índio, é a cultura deles. O corpo”, disse Bolsonaro.

O jornalista manifestou descrença: “Mas não é para comer…”. “É pra comer”, reiterou Bolsonaro. Ele explica como seria: “Cozinha por dois, três dias, e come com banana. E daí eu queria ver o índio sendo cozinhado. Daí o cara: ‘Se for, tem que comer’. Aí falei ‘Eu como’. Daí a comitiva, ninguém quis ir. ‘Vamo comigo lá’. Ninguém quis ir. Daí como a comitiva não quis ir, que tinha que comer o índio, eu, não queriam me levar sozinho lá. Aí não fui. Senão eu comeria o índio sem problema nenhum. É a cultura deles. E eu me submeti àquilo, talquei?”.

Para Junior Hekurari, que vive em Surucucu, toda a história contada por Bolsonaro no vídeo “é mentira”. “É sem cabeça, eu fiquei muito chateado. Coloca aí na sua matéria: ‘Presidente candidato mentiroso’.” Nossa cobertura eleitoral é financiada por leitores como você. Ajude doando mensalmente ou faça um pix para contato@apublica.org.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Bolsonaristas queriam se aproximar do STF no 7 de setembro, mas ouviram não

Sexta, 2 de setembro de 2022
Cerimônia comemorativa do 7 de Setembro, no Palácio da Alvorada, criou clima de tensão.  Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil


STF terá 70% a mais de agentes de segurança e equipe do batalhão de choque da PM dentro do tribunal

Por Rubens Valente
2 de setembro de 2022

Os eventos do 7 de setembro do ano passado em Brasília têm sido lembrados como uma advertência para os responsáveis pela segurança dos principais prédios da Esplanada dos Ministérios e da Praça dos Três Poderes em Brasília. A facilidade com que caminhões de ruralistas aliados de Jair Bolsonaro conseguiram, na noite de 6 de setembro de 2021, romper o frágil bloqueio feito pela Polícia Militar nas vias de acesso à Esplanada ficou como uma demonstração do que não deve ser feito na próxima semana, quando uma nova manifestação de tom golpista vem sendo convocada por Bolsonaro e seus apoiadores.

Imagens de vídeo da época mostram que após o rompimento tranquilo da primeira faixa de proibição, no início da Esplanada, por muito pouco os veículos não conseguiram avançar até a frente do STF (Supremo Tribunal Federal), o que deixaria o prédio inteiramente ao alcance de ataques.

O que separou os veículos do prédio do STF, a uma distância de menos de um quilômetro, foi apenas uma outra tênue barreira da PM feita por policiais e barreiras de plástico. Somente por uma decisão sensata de alguns manifestantes é que os caminhões acabaram parados na própria Esplanada — dando início, aliás, a um longo acampamento cuja ordem de desmontagem também gerou desgaste para os órgãos de segurança do DF.

Um comentário recorrente entre os órgãos envolvidos na segurança deste 7 de Setembro é que as brechas de 2021 não podem se repetir e que neste ano o rigor no controle do tráfego de veículos e pessoas deverá ser muito maior, de acordo com dois participantes dessas conversas que falaram à Agência Pública sob a condição de não ter os nomes publicados. Em reunião nesta quinta-feira (1), de acordo com essas fontes, representantes dos manifestantes novamente pediram autorização para se posicionar, na tarde do dia 7, na frente de prédios públicos como o STF (Supremo Tribunal Federal) e o Congresso Nacional, mas receberam uma sonora negativa da SSP (Secretaria de Segurança Pública) do DF. Foi reiterada a decisão de bloquear os manifestantes perto do Itamaraty e de proibir a entrada de caminhões na Esplanada.