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quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

O novo ano e o horizonte desafiador

Quinta, 16 de janeiro de 2025

Roberto Amaral*

Os sonhos e as esperanças se desmancham no ar quando estamos apenas vencendo os primeiros 30 dias de 2025, promessa de projeção do ano que passou. Se parco é o inventário do que temos por comemorar, extensa é a pauta do que devemos temer, habitantes de nação dependente, de uma dependência geopolítica e ideológica inserida na periferia do capitalismo. Somos uma província no Sul Global para onde foram designados os subdesenvolvidos de ontem, após a repaginação do mundo determinada pelo fim da Guerra Fria, proclamando a vitória da globalização e dos EUA.

Não há como, neste novo mundo que já nasce velho, ignorar nossa brasileiríssima tragédia histórico-geográfica, mas diante dela nos incumbe, como povo, sociedade e Estado, saber enfrentar os desafios que já nos chegam correndo com botas de sete léguas. Ou deciframos a esfinge ou seremos devorados.

Para bem compreender os tempos presentes, construção de tempos passados (compreender para nele intervir), o primeiro passo é a análise do cenário internacional, que nos lembra os piores momentos do século passado, o qual, entre outras catástrofes humanitárias, nos legou duas guerras mundiais. Mais uma lição da História: é mediante guerras de toda ordem que se desenvolvem e se resolvem as disputas de hegemonia, e é este o conflito de nossos dias, anunciante de embates ainda mais graves no amanhã que podemos divisar sem o recurso das lentes do tempo.

Se “lá fora” são maus os presságios, na província continental os tempos de hoje cobram engenho e arte. E, sem dúvida, alguma audácia e coragem, predicado dos vencedores.

O mundo, sob a égide do capitalismo, parece haver optado pela regressão, e nela investe com dedicação suicida. Faz décadas, a contar primacialmente do fim da Guerra Fria, tornada desnecessária com o suicídio da URSS e o fracasso das experiências de capitalismo de Estado do Leste europeu, a classe trabalhadora, onde a ideologia neoliberal se fez política de Estado — ou seja, praticamente em todo o mundo — vem sofrendo seguidas derrotas nos planos econômico, social, político e cultural, acumulando recuos políticos e revezes estratégicos que não podem ser reduzidas, tão-só, às consequências anunciadas pelas novas relações de produção, mais e mais condicionadas pela preeminência do capital sobre o trabalho.

Fruto das contradições inerentes ao desenvolvimento do capitalismo financeiro monopolista, soma-se (e aí não se trata de crise) o acirramento das chamadas guerras comerciais, o aumento do número de confrontos militares, o expansionismo terrorista do sionismo, a naturalização do genocídio, a falência dos organismos internacionais, a começar pelo fracasso da ONU. Tudo em meio a uma crise ambiental cumulativa que parece sem solução. Desta tragédia já somos testemunha e vítima, e sabemos aonde pode levar o negacionismo.

Este é o nosso mundo de complexa fragilidade física e política que mais e mais se assemelha à casca de noz a que se referia Stephen Hawking. Desta nave somos passageiros sem acesso à cabine de comando. Mas tudo o que nela ocorre nos diz respeito diretamente, pois intervém diretamente em nosso destino, como planeta e humanidade.

Os cordéis da globalização — fenômeno econômico, político, militar e ideológico — estão sob a égide do maior concerto de poder jamais conhecido desde a longa era romana, que a paranoia do 3º Reich intentou refazer, ao preço conhecido. Os EUA caminham para o apogeu de seu declínio, em plena crise política, social e ética, que se vem acentuando nas últimas décadas, ao tempo em que acirra a disputa pela recuperação da hegemonia global, o que pode nos levar à terceira guerra mundial. Dela, se não sabemos qual será o primeiro passo, e não sabemos mesmo se esse primeiro passo já não terá sido dado, temos certo como será o último capítulo, que talvez ninguém possa registrar.

É sob tais condicionantes que forcejamos por construir nossa história, indecisos ainda sobre o que somos e o que queremos ser, carentes, ainda, de um projeto de país.

Se razões objetivas nos dizem que conseguimos em 2022, mesmo a duras penas, deter as maiores ameaças conhecidas pelo processo político-social desde 1964 — a possibilidade de reeleição do capitão meliante —, não é racional supor que esmagamos a peçonha. Aos candidatos a doutor Pangloss a realidade traz à tona a composição do Congresso eleito com Lula, as maquinações de dezembro de 2022, a intentona de 8 de janeiro de 2023 e as eleições de 2024, bem como as resistências militares, as pressões e chantagens do grande capital, e um cenário internacional desconfortável sob todos os aspectos.... enfim, o concerto de adversidades desafiando um governo impedido de afirmar-se.

A consagração de Donald Trump, um dado a mais no entrecho, é inquestionável testemunho, agora reiterado, da identificação da sociedade estadunidense com o discurso e o programa neofascista, desenvolvido em plano internacional. Criminoso condenado pelo Tribunal de Nova York, denunciado por fraude e conspiração, mitômano contumaz, o republicano retornará no próximo dia 20 à presidência dos EUA, um país e uma sociedade visceralmente beligerantes, e assim assumirá o comando da maior força militar jamais conhecida, prometendo a exasperação da velha política do Big Stick, que foi e é a essência do imperialismo norte-americano. Sua eleição, na voragem de votação consagradora, não deve ser vista como raio em céu azul. Também não se trata, o presidente reeleito, de um estranho no ninho do establishment. Trump é personagem fortemente identificado com o que se costuma chamar de americano médio. Os reais valores americanos estão em seu discurso, que por isso mesmo foi referendado.