O que a gente não vê também adoeceA gente costuma associar risco ao que é visível. Um alimento estragado, um cheiro forte, uma aparência suspeita, um símbolo de alerta. Mas e quando o perigo não tem cor, cheiro ou aviso? A recente série sobre o acidente com Césio-137, retratada em produções como Emergência Radioativa, reacende uma memória importante: nem sempre o que contamina é perceptível aos olhos. No caso do desastre em Goiânia, o brilho azul encantava, mas escondia um risco profundo. Hoje, em outro contexto, essa reflexão também atravessa o nosso sistema agroalimentar. No nosso dia a dia, existem exposições que passam despercebidas, mas que fazem parte da rotina alimentar de milhões de pessoas. Agrotóxicos, microplásticos, aditivos e outras substâncias presentes em produtos alimentícios ultraprocessados são exemplos de riscos invisíveis que levantam um debate urgente sobre saúde e direito à informação. Contaminações que não aparecem, mas existemNo Brasil, o uso intensivo de agrotóxicos é uma realidade. Esses resíduos podem estar presentes nos alimentos e não são eliminados pelos processos comuns de higienização, o que reforça a importância de olhar para as formas de produção dos alimentos. Nós, inclusive, já denunciamos essa situação há anos por meio da investigação “Tem veneno nesse pacote”, que revela a presença dessas substâncias em produtos amplamente consumidos no país. Além disso, estudos recentes apontam a presença de microplásticos em alimentos e bebidas, resultado da degradação de embalagens e do uso excessivo de plástico no cotidiano. Eles são pequenas partículas que entram no nosso corpo sem que a gente perceba, acumulando uma preocupação que ainda está sendo investigada pela ciência. Outro ponto importante são os aditivos alimentares presentes em produtos ultraprocessados, como corantes, conservantes e aromatizantes. Embora autorizados para uso, o consumo frequente desses produtos levanta alertas sobre possíveis impactos na saúde, especialmente quando fazem parte da alimentação cotidiana. Isso reforça a importância de priorizar alimentos in natura e minimamente processados sempre que possível. E não para por aí. Casos recentes, como a suspensão da venda de fórmulas infantis contaminadas por toxinas, mostram como até produtos destinados a públicos mais vulneráveis podem apresentar riscos. Situações como essa reforçam a importância da vigilância sanitária e da transparência das empresas. Não é sobre escolha individual, é sobre sistemaDiante desse cenário, é comum cair na armadilha de achar que tudo depende da escolha individual. Mas a verdade é que não dá para colocar toda a responsabilidade no prato de quem consome. Como falamos aqui sobre sistemas alimentares, o que chega até a nossa mesa é resultado de decisões que envolvem produção, distribuição, regulação e acesso, ou seja, é um tema coletivo e estrutural. Nós defendemos que o acesso à informação clara e à comida de verdade é um direito. Isso inclui políticas públicas que regulem o uso de substâncias nocivas, que incentivem práticas agrícolas mais sustentáveis e que garantam segurança alimentar e nutricional para toda a população. Também passa por questionar subsídios e incentivos que favorecem modelos de produção que impactam a saúde coletiva. Afinal, o que está em jogo não é só o que comemos, mas como esse alimento chega até a gente. O caminho possível: comida de verdade e escolhas coletivasSe por um lado existem riscos invisíveis, por outro também existem caminhos possíveis e já em curso. A agroecologia, os movimentos de agricultura familiar e iniciativas como o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) mostram que é possível produzir alimentos de forma mais saudável, respeitando o meio ambiente e as pessoas. Cozinhar mais, reduzir o uso de embalagens e priorizar alimentos in natura são formas de se reconectar com a comida e reduzir a exposição a esses riscos. Não se trata de perfeição, mas de movimento. E para facilitar esse caminho, a gente pode começar por algo simples: conhecer quem produz o que a gente come. O Mapa de Feiras Orgânicas do Idec é um ótimo ponto de partida para encontrar alimentos frescos e produtores locais perto da gente. Porque, no fim, cuidar da saúde também passa por enxergar o que antes parecia invisível e transformar isso em ação coletiva. |