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(Millôr Fernandes)

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Morre Dona Zilda, mãe de Osasco e mulher negra referência na luta contra a violência de Estado

Domingo, 25 de outubro de 2026

Da Ponte Jornalismo

Morre Dona Zilda, mãe de Osasco e mulher negra referência na luta contra a violência de Estado

Postagem originalmente realizada no site da  PONTE em 24/10/2026

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Zilda Maria de Paula morreu nesta sexta-feira (23/10), aos 74 anos. Fundadora da Associação 13 de Agosto, ela teve o único filho, Fernando Luiz de Paula, morto na Chacina de Osasco e Barueri, em 2015. Em vida, recebeu o Prêmio Marielle Franco.

Dona Zilda foi homenageada em 2024 com o Prêmio Marielle Franco | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Resumo

Morreu nesta sexta-feira (23/10), aos 74 anos, Zilda Maria de Paulo, conhecida como Dona Zilda, uma das principais referências na luta contra a violência de Estado em São Paulo.

Dona Zilda perdeu seu único filho, Fernando Luiz de Paula, na Chacina de Osasco e Barueri, em 2015, quando 17 pessoas foram assassinadas.

Fundadora da Associação 13 de Agosto, Dona Zilda recebeu, em 2024, o Prêmio Marielle Franco de Direitos Humanos, concedido pela Câmara Municipal de São Paulo.

Morreu nesta sexta-feira (23/10), aos 74 anos, Zilda Maria de Paula. Ela foi fundadora da Associação 13 de Agosto, um movimento que reúne mães e outros familiares das vítimas da chacina policial de Osasco e Barueri, que deixou, em 2015, 17 vítimas fatais. Dona Zilda, como era conhecida, teve seu único filho, Fernando Luiz de Paula, assassinado na ocasião, aos 34 anos.

Zilda estava com a saúde debilitada e faleceu internada no Hospital Municipal Parque Imperial, em Barueri, onde recebia cuidados. O corpo dela é velado neste sábado (24/10), desde as 10h, no Velório Municipal de Barueri. O desejo dela era ser sepultada junto do filho, também na cidade.

“Obrigado por lutar a nossa luta, dona Zilda! Vá em paz, guerreira!”, divulgou o Movimento Independente Mães de Maio, ao qual as mães de Osasco e Barueri se juntaram em luta nos últimos 11 anos.

“Honraremos a luta iniciada por Zilda em busca de verdade e memória de seus filhos e registrando que nunca haverá perdão nem esquecimento da covardia promovida pelos agentes do Estado profissionais da violência. Sua luta seguirá”, escreveu o Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de Monitoramento (LASInTec), grupo de pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que produziu o podcast “O Luto e a Luta”, sobre a história de Dona Zilda e da chacina.

Dona Zilda, das Mães de Osasco, segura bandeira durante ato em 2025 | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Doméstica desde criança, teve no filho um parceiro de vida

Natural da cidade de São Paulo, Dona Zilda nasceu em 9 de outubro de 1952. Adotada, viveu a infância com a mãe, o pai e um irmão no bairro de Perdizes, na zona oeste da cidade. Na adolescência, mudou-se para a Brasilândia, na zona norte. Ainda criança, aos oito anos, passou a trabalhar com faxinas.

Em 1975, foi contratada para trabalhar no Butantã, na zona oeste de São Paulo, onde foi empregada doméstica com carteira de trabalho assinada até a sua aposentadoria. O nascimento de Fernando veio após muito sacrifício. Antes de se tornar mãe, aos 27 anos de idade, Dona Zilda sofreu quatro abortos.

Casada durante 11 anos, se separou quando Fernando tinha apenas três anos, um dos motivos que a levaram a morar por um tempo com a família para a qual trabalhava. Já em 1985, foi morar em Osasco, no bairro Jardim Munhoz Júnior, uma comunidade na divisa com Barueri. Ali, viveu com o único filho.

Fernando foi morto a tiros na noite de 13 de agosto de 2015, no caso que ficou conhecido como a Chacina de Osasco e Barueri. O episódio teve 17 pessoas executadas a sangue frio e outras sete sobreviventes, baleadas nas ruas e em pequenos comércios das duas cidades por agentes de segurança pública que formavam ilegalmente uma milícia de “bicos” de segurança privada. Os assassinos queriam vingar, com uma matança indiscriminada, as mortes de um policial militar e de um guarda civil.

“Aqui nunca mais foi a mesma coisa. No Ano-Novo, eu fazia festa em casa, vinha todo o pessoal. Era aquela folia, os meninos se vestiam de branco, davam uma volta, entendeu? Até hoje encontro os colegas do Fernando, eles vêm me lembrar disso. Ninguém esqueceu. Eu falo que as lágrimas param, mas não secam”, disse Dona Zilda ao receber a Ponte em casa no ano passado, nos dez anos da chacina.

Embora tenha sido cogitada a participação de até 15 assassinos na chacina, dada a dinâmica do ocorrido, apenas dois matadores foram condenados pela Justiça, que encerrou o caso na esfera criminal. Ainda assim, Dona Zilda se manteve ativa na luta por memória, verdade e justiça contra a violência de Estado.


Liderança feminina e referência na defesa dos direitos humanos

Ao longo da última década, ela organizou, junto de outras mães, um ato em memória dos filhos a cada ano, na data em que a chacina se deu. A mobilização sempre era iniciada na casa dela, onde preparava uma feijoada para acolher os manifestantes que se juntavam à sua dor.

“Você imagina eu ficar sozinha. Para mim, isso aqui é uma mansão, sabe? Então, eu procuro me envolver com esse pessoal. Só que a realidade quando entro no meu portão é que falta tudo”, afirmou ainda Dona Zilda à Ponte no ano passado, quando fez um último ato em memória das vítimas.

Em entrevista à Ponte em 2021, Dona Zilda disse que não se via como líder, nem como ativista. “Agora estão falando que eu sou uma ativista. Pois hoje eu sei como é que se vira uma.”

Ainda assim, ela foi reconhecida ainda em vida por ser referência na luta pelos direitos humanos. Em 2024, recebeu o primeiro Prêmio Marielle Franco de Direitos Humanos, concedido pela Câmara Municipal de São Paulo, ocasião em que foi aplaudida de pé. A honraria a reconheceu como liderança feminina e figura fundamental no combate ao racismo e a todas as formas de violência e discriminação.

Dona Zilda dividiu os últimos anos de vida com Neguinho, Magrinho e Pim, três cachorros vira-lata que haviam sido adotados por Fernando. Além dos cães, ela dividia a casa com uma coleção de itens que relembravam o filho, como fotografias e CDs. Foi com ele que a mãe aprendeu a gostar de Racionais MC’s e de Zeca Pagodinho — só recentemente ela voltou a ouvir o sambista, o que antes a deixava ansiosa.

Ainda na última vez em que falou com a Ponte, Zilda disse que, às vezes, se sentia cansada, mas que seguia combativa por entender que precisava acolher outras mães de vítimas de uma violência policial que persiste. “Enquanto a gente tiver força e luta, vamos levantar a bandeira, porque [os denunciados] já foram julgados. Eu acho que esses meninos [as vítimas] nos juntaram. Eu fico com um pouco de ansiedade. A gente quer que dê tudo certo, porque é nós por nós mesmo, e acabou.”

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