“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
Mostrando postagens com marcador A morte e os crimes do major Curió. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A morte e os crimes do major Curió. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

NO BERÇO DO MST —O dia em que o Major Curió foi derrotado por agricultores sem-terra durante a ditadura militar

Sexta, 19 de agosto de 2022
Encruzilhada Natalino: major Curió foi derrotado ao tentar acabar com o acampamento que constitui um dos berços do que hoje é o MST - Foto: Arquivo MST

Morte do major tem muito a ensinar sobre o que está acontecendo hoje no Brasil e vai ser decidido nas eleições

Jacques Távora Alfonsin*
Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) | 19 de Agosto de 2022

É costume consagrado e respeitoso o de nada se dizer do mal que pessoas já falecidas praticaram, já que elas não podem mais se defender. No caso do major Curió, porém, falecido no dia 17 deste agosto, é lícito abrir-se uma exceção, por três razões principais.

A primeira, pela simples e necessária fidelidade devida à história do Brasil, que as Comissões da Verdade revelaram sobre o que ele fez de muito ruim, colocando os seus serviços a toda a sorte de atrocidades que as Forças Armadas do país praticaram desde o golpe de Estado de 1964, por elas executado.


A segunda, pelo exemplo a ser seguido por qualquer brasileira ou brasileiro, pelo brio, a coragem, a determinação das vítimas que resistiram, algumas até ao sacrifício da própria vida, ao poder da atuação violenta e repressora que esse cidadão colocou em prática contra os seus próprios conterrâneos.

A terceira, pela extraordinária urgência com que, nos dias de hoje, a democracia, o Estado de direito e a cidadania estão correndo o risco de serem outra vez sacrificadas pelo ressurgimento da mesma inspiração “bélica”, armada, odienta, que motivou o golpe anterior, dividindo o povo, mesmo a custa das mesmas mentiras. O major Curió encarnou essa inspiração, do tipo que monopoliza o que entende por bem, para poder demonizar quem quer que ouse contrariá-la, como o mal.

Dois anos atrás, Curió foi recebido no Palácio do Planalto: admiração recíproca / Reprodução/Facebook do senador Chico Rodrigues.

No que se refere à primeira razão, a Agência Estado publicou, no dia seguinte ao da morte de Curió, um resumo da sua biografia truculenta, o número dos guerrilheiros do Araguaia assassinados a mando dele, a maneira como agiu enganando, manipulando gente ingênua que lhe servisse de informante, o modo como isolava regiões, mantinha vigilância rigorosa sobre movimentação de pessoas, infiltrava subordinados entre os grupos que considerava suspeitos de oposição ao regime militar da época, para sumariamente decidir o que fazer com eles. Como agente do Centro de Inteligência do Exército (CIE), agiu em vários pontos do país, mandando e desmandando com autoridade que se auto impunha, mas sempre em nome da segurança nacional, e contra os “comunistas”. Construiu fama suficiente para se eleger deputado federal, em grande parte pela liderança que exerceu sobre o grande garimpo de Serra Pelada na Amazônia. Até uma cidade, hoje, leva seu nome, por isso.