Sexta, 19 de abril de 2024

Reforma agrária "na lei ou na marra" era o lema das Ligas Camponesas lideradas por Francisco Julião no Nordeste - Memorial da Democracia
Brasil de Fato relembra as principais forças políticas que lutavam pela distribuição de terras no país antes da ditadura
Pedro Stropasolas
Brasil de Fato | São Paulo (SP) | 19 de abril de 2024
A luta dos trabalhadores rurais por terra e melhores condições de trabalho foi brutalmente interrompida pelo golpe militar de 1964.
Do dia em que o exército tomou o país à força até a promulgação da Constituição de 1988, 1.654 camponeses foram mortos ou desapareceram no meio rural brasileiro. O dado é de uma pesquisa divulgada recentemente pelo ex-preso político e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) Gilney Viana.
Toda essa estrutura repressiva tentava conter uma ideia que se alastrava pelo país, principalmente entre 1959 e 1964, no protagonismo de sindicatos, movimentos populares e setores da igreja católica: a reforma agrária.
Nesta reportagem, o Brasil de Fato relembra como o golpe de 1964 interrompeu o avanço da distribuição de terras no país a partir de três perspectivas: a atuação das ligas camponesas no Nordeste; o surgimento do sindicalismo rural; e a experiência histórica do Movimento dos Agricultores Sem Terra (Master) no sul do Brasil.
Concentração fundiária: da colônia a ditadura
Um dos traços do campo brasileiro, a concentração fundiária, é uma chaga que se acentua no regime militar mas tem raízes profundas no período escravista. A distribuição de terras era uma das bandeiras de parte do movimento abolicionista, no final do século 19.
Após o fim da ditadura Estado Novo, o panorama do meio rural brasileiro mantinha o controle absoluto dos trabalhadores no interior das propriedades rurais, a mando de grandes latifundiários. Com a Constituição liberal de 1946, o país vivia uma democracia tímida, que não comportava, por exemplo, o voto dos analfabetos. Isso impedia muitos camponeses de elegerem seus representantes.
É neste contexto que a defesa da reforma agrária começa a surgir com mais força e por influência do Partido Comunista Brasileiro. Em 1954, a partir do PCB, é criada a União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (Ultab), que ganhou protagonismo produzindo jornais e promovendo greves, cursos de formação, e denunciando abusos de latifundiários contra os camponeses.
Na época, os interesses estadunidenses na América Latina prosperavam por meio de uma relação com alguns ditadores, como Fulgencio Batista, em Cuba; Alfredo Stroessner, no Paraguai; e o General Anastácio Somoza Garcia, na Nicarágua. No Brasil, os Estados Unidos prestavam mais atenção no Nordeste, onde as Ligas Camponesas mobilizaram multidões de camponeses em resposta à extrema desigualdade.
