Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sexta-feira, 21 de abril de 2023

O Brasil e a disputa pela hegemonia global

Sexta, 21 de abril de 2023

Roberto Amaral*

O ponto de partida de qualquer análise da chamada “guerra da Ucrânia” é a irrecusável evidência de que a antiga república soviética foi invadida pela potência vizinha e quase irmã e  permanece  há mais de um ano sob cerco militar. Sua  integridade, de país reconhecido como soberano pela comunidade internacional,  é ameaçada por anexações anunciadas ou efetivadas pelas tropas do Kremlin, que não pode ser apresentado como herdeiro da utopia socialista frustrada no solo russo, embora devam ser reconhecidos seus esforços na resistência ao imperialismo.   Não se conhecem  dados confiáveis sobre o número de vítimas de ambos os lados da fronteira, e ainda é cedo para  o inventário da destruição no território ucraniano.
 
Como em todo conflito, a grande dificuldade é encontrar o caminho de volta para casa. O  que se se anunciou como uma Blitzkrieg não tem, hoje,  prazo para acabar, e todas as possibilidades de desfecho devem estar abertas.  No plano estritamente militar, dizem os observadores que o conflito caminha para um beco sem saída, enquanto fracassa a busca de alternativa pela via da negociação, para a qual a diplomacia presidencial brasileira intenta colaborar, para o incômodo da imprensa nativa. Ao velho complexo de vira-lata, de que falava Nelson Rodrigues, soma-se a dependência ideológica que fez de nossas chamadas elites canais reprodutores dos interesses da grande potência do Norte e adjacências.

Esta  guerra é tudo isso, mas não é apenas isso, pois é principalmente o vestibular de um trânsito de eras (e eis a questão central), o que é percebido pela diplomacia brasileira restaurada.  Vivemos  o perigoso desdobramento da disputa da hegemonia planetária exercida pelos EUA, em franco embate com a emergência chinesa como potência econômica e militar em pleno desenvolvimento  capitalista, pondo em questão o  sonho americano da unipolaridade que lhe caíra no colo  com o suicídio da URSS anunciado no apagar das luzes de 1991. A  guerra comercial e tecnológica contra Beijing, aprofundada a partir de Trump, teve sua natureza alterada ao se  expressar em conflito armado,  ainda quando, como é o caso presente, os principais contendores estejam aparentemente fora da arena, pois ainda lutam por intermédio de terceiros. Uma vez mais, lembrando Clausewitz, a guerra (clássica)  é mera continuação da política, no caso concreto uma trágica necessidade determinada pelo  fracasso político da guerra diplomática, comercial e tecnológica  liderada pelos EUA na até aqui frustrada expectativa de conter o novo “eixo do mal”: a frente eurasiana levada à  China, à Rússia e ao Irã pelas contingências  históricas. O conflito em curso,  em sua modalidade militar, consiste numa guerra terceirizada, que pode ser apenas um “freio de arrumação”,  um teste de forças antes da perspectiva de um embate maior,  que o andar da carruagem pode fazer inevitável. Mas igualmente pode ser seu prelúdio, e neste caso a imaginação do epílogo fica fácil.