Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sábado, 9 de maio de 2026

Estranhos tempos mórbidos

Sábado, 9 de maio de 2026

Estranhos tempos mórbidos
 
     Roberto Amaral*

O Brasil tem um enorme passado pela frente.
– Millôr Fernandes

Com Antonio Gramsci aprendemos que “a crise [política] consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer; neste interregno, verifica-se uma grande variedade de sintomas mórbidos”. Trazendo a formulação do autor de Cadernos do cárcere para os tempos de hoje, talvez seja permitida a ousadia de afirmar que, em nosso caso, o novo não pode nascer (ou é impedido de nascer) porque o velho permanece vivo, prometendo uma história regressiva. Este velho, hoje, é o neofascismo revisitado — novas palavras, novos meios — mas sempre regressivo, anistórico, autoritário.

São os estranhos tempos mórbidos, estes nossos.

A história presente — um presente mirando o caos, sem ensejar a visão de futuro imediato — pode ser vista como “ponto morto” (tempo sem promessa de avanço ou recuo) e já foi descrita como “intervalo histórico”. Nada obstante as tensões, sua característica não é, quase nunca, a mobilização social. Trata-se de tempo de espera, indefinido, sem caráter. Está aberto a soluções regressivas (por sinal, é este, hoje, o cenário dominante na América do Sul), que podem construir a ruptura democrática ou a continuidade autoritária, jamais a revolução, projeto que comoveu as grandes massas no século passado.