Domingo,
13 de dezembro de 2015
Da
Tribuna da Internet
Cid
Benjamin
Leio que, finalmente, começaram a ser julgadas figuras
envolvidas no superesquema de corrupção na prefeitura de Santo André, esquema
esse que, provavelmente, está vinculado ao assassinato do prefeito Celso Daniel.
O esquema é barra pesada. Como jornalista, tive a oportunidade de apurar muita
coisa sobre esse esquema, ainda que nem tudo pudesse ter sido publicado, por
exigência das fontes que, por medo de morrer, fidelidade partidária ou razões
profissionais, me contaram muitas coisas em confiança.
O início das condenações de envolvidos no esquema da
corrupção justifica a reprodução aqui do capítulo do meu livro de memórias,
“Gracias a la vida”, em que trato do assunto. É preciso lembrar que o livro foi
publicado em outubro de 2013, muito tempo, portanto, antes de outras histórias
escabrosas terem vindo à tona.
Ainda no Jornal do Brasil tive uma experiência que selou
definitivamente meu afastamento do PT: a cobertura do assassinato do prefeito
de Santo André, Celso Daniel, no início de 2002.
Antes dele, no dia 10 de setembro de 2001, outro prefeito petista, Antônio da
Costa Santos, o Toninho, fora assassinado em Campinas. Por isso, quando o corpo
de Celso Daniel apareceu com sete balas e marcas de tortura numa estrada de
terra em Juquitiba (SP), houve a suspeita de que estivesse começando uma
sucessão de atentados efetuados pela extrema-direita.
ORIGENS PETISTAS
O então diretor de redação do Jornal do Brasil, Augusto
Nunes, me pediu para investigar pessoalmente aquilo. Ele sabia das minhas
origens petistas e imaginava que talvez eu conseguisse apurar mais do que os
repórteres dos demais jornais.
Entrei em contato com militantes do PT em São Paulo. Como
era natural, achava que poderia haver ligação entre os assassinatos de Toninho
e Celso Daniel. Logo me dei conta de que não. Muitos petistas não quiseram se
estender sobre o caso Celso Daniel, mas demonstravam claro constrangimento. De
um deles, ouvi: “Não tem nada a ver com a direita. É um negócio chato, mas não
dá pra falar”.
Vi, depois, que o “negócio” não era só chato. Era coisa
pior. Segundo denúncia oferecida pelo Ministério Público, aceita pela Justiça,
havia um poderoso esquema de corrupção na prefeitura de Santo André. Até mesmo
dirigentes petistas que, posteriormente, tentaram me convencer da versão de que
o sequestro de Celso Daniel fora um crime comum, cometido ocasionalmente por
bandidos, admitiam em off a existência desse esquema.
