Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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domingo, 31 de maio de 2026

Quem lutará pela transformação do Brasil?



Domingo, 31 de maio de 2026

Quem lutará pela transformação do Brasil?


Depois de passar do sertão à fábrica e à luta por direitos, país mergulhou na era do trabalho fragmentado e dos conflitos sem projeto. Rendeu-se à agroexportação e ao algoritmo. Como encontrar, neste caos, um novo sujeito social das mudanças?

 
Do OUTRASPALAVRAS                      Crise Brasileira

Comemoração de 1 de maio, em São Bernardo do Campo, na década de 1980 Foto: SMABC

Título original:
Do sertão ao algoritmo: a mutação dos conflitos no Brasil

O Brasil atravessou, em pouco mais de um século, três formas históricas de conflito social. Cada uma delas correspondeu a uma etapa distinta do capitalismo brasileiro. No país agrário da República Velha, prevaleceram guerras camponesas, messianismos e rebeliões regionais. No Brasil urbano-industrial desenvolvimentista, ganharam força o sindicalismo, as greves gerais, os movimentos de massa e as guerrilhas ideológicas. Já na sociedade de serviços hiperconectada da Era Digital, o Brasil neoliberal produziu algo novo representado pelo conflito fragmentado, financeirizado e emocionalmente mobilizado por algoritmos e redes sociais.

Da mesma forma, a violência mudou de forma, acompanhando as alterações na trajetória do capitalismo. Na República Velha, o conflito vinha do abandono. O sertão rebelava-se contra um país que praticamente não existia fora das oligarquias exportadoras. A Guerra de Canudos não foi apenas uma rebelião religiosa, mas a explosão de um Brasil excluído da modernização oligárquica. O mesmo ocorreu na Guerra do Contestado, no cangaço e nas revoltas tenentistas. Aquele Brasil ainda era territorialmente fraturado. O Estado era pequeno, regionalizado e incapaz de integrar a maioria da população. O conflito tinha cheiro de terra, fome e abandono.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Pochmann: Além da regressão e ressentimento



Quinta, 30 de abril de 2026

Pochmann: Além da regressão e ressentimento

Num país que se reprimarizou por décadas, até a ascensão social marcada por desigualdade refluiu. Sobrou a frustração dos empobrecidos e atomizados, ainda que em conexão. Reconstruir a coletividade crítica e transformadora: eis o desafio

OUTRASPALAVRAS                            Crise Brasileira

Matéria publicada originalmente no OUTRASPALAVRAS em29/04/2026 às 19:20 - Atualizado 30/04/2026 às 15:38
Crédito: Reprodução/A Terra é Redonda

Por Márcio Pochmann

Título Original:

Ressentimento como último vínculo: novo sujeito coletivo e mutação política na era digital

Há um equívoco na afirmação de que o Brasil vive hoje uma crise de engajamento sociopolítico. O que caracteriza o presente não é a apatia, mas uma nova forma de mobilização que se apresenta contínua, intensa e, ao mesmo tempo, incapaz de produzir transformação estrutural. Trata-se de uma mobilização politicamente estéril, marcada pelo ressentimento como afeto dominante e como base do novo sujeito coletivo que emerge da sociedade de serviços hiperconectada da era digital.

A tese é desconfortável, mas necessária, pois o sujeito coletivo não desapareceu. Ele se degradou e se reconfigurou negativamente, tornando-se expressão convergente de frustrações estruturais. Entre os anos de 1930 e 1980, o capitalismo industrial no Brasil organizou não apenas a produção, mas também as expectativas sociais. Mesmo de forma desigual, a promessa de mobilidade ascendente funcionava como eixo de integração. O conflito existia, mas era mediado por sindicatos, partidos e movimentos sociais. Havia antagonismo, mas também horizonte de transformação superior.