Sexta, 23 de janeiro de 2026
Crime de Ódio
No mês de combate à intolerância religiosa, terreiro no DF é apedrejado
Ataque ocorreu enquanto o espaço se preparava para iniciar ritualísticas
Brasil de Fato — Brasília (DF)
Luiza Melo
Terreiro atacado é localizado no Gama (DF)
| Crédito: Foto: Divulgação/Tenda Espírita Pai Benedito
O que deveria ser um momento de fé, silêncio e preparação espiritual transformou-se em cenário de medo e violência no último sábado (17). A Tenda Espírita Pai Benedito do Congo, terreiro localizado na cidade do Gama, no Distrito Federal, foi alvo de um ataque enquanto membros da casa realizavam a maceração de ervas e cantigas rituais. Pedras e tijolos foram arremessados contra o telhado da instituição.
De acordo com relatos da dirigente da casa, Lindaura de Melo, os integrantes começaram a chegar e se preparar para as liturgias religiosas, quando foram surpreendidos por um “estrondo ensurdecedor”. Segundo os depoimentos, o impacto foi tão forte que assustou não apenas quem estava dentro do terreiro, mas também moradores da vizinhança.
“Vimos pedras enormes e pedaços de tijolo, que indica que foi [jogado] inteiro e ao se deparar com o telhado ficou em vários pedaços”, relatou Lindaura. De acordo com os membros da casa que presenciaram a situação, a espessura das telhas evitou que os projéteis atingissem diretamente os fiéis que circulavam pelo local, o que poderia ter resultado em ferimentos graves.
Durante o episódio, os integrantes do terreiro chegaram a avistar mais duas pedras sendo arremessadas a partir de um imóvel vizinho. O ataque só cessou após um dos filhos da casa gritar, alertando que os agressores haviam sido percebidos.
A sacerdotisa do terreiro chegou a registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil. O autor dos disparos ainda não foi identificado formalmente. “Foi um momento desesperador, assustador e de nervosismo. Mas não ficamos calados, iniciamos hoje o que é correto. A mãe da casa junto com o advogado registrou ocorrência na Decrin [Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa, ou por Orientação Sexual, ou Contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência]. Vamos aguardar a perícia e tudo dando certo. Os responsáveis serão muito responsabilizados, cobrirão os danos que causaram e eu tenho fé que vão pagar na justiça”, afirmou Anísio Baba Ifa Shinan (Anisio Pereira), um dos integrantes do terreiro.
Intolerância religiosa
Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o canal de denúncias do órgão, Disque 100, registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026.
Entre as religiões explicitamente identificadas, as tradições de matriz africana concentram os maiores números de denúncias entre janeiro de 2025 e janeiro deste ano. A Umbanda reúne 228 registros, seguida pelo Candomblé (161) e por ocorrências classificadas como Umbanda e Candomblé (47), além de outras religiosidades afro-brasileiras (40).
A intolerância religiosa é crime no Brasil desde 2023. De acordo com a Lei nº 14.532, injúria religiosa pode levar a penas de 2 a 5 anos de reclusão. Além disso, o Código Penal, em seu artigo 208, prevê detenção para quem impedir ou perturbar cerimônia religiosa.
Como denunciar
O Disque 100 funciona 24 horas por dia, de forma gratuita, incluindo sábados, domingos e feriados, e permite o registro de denúncias relacionada a violações de direitos humanos, da qual seja vítima ou tenha conhecimento, de maneira identificada ou anônima, sendo um dos principais instrumentos do Governo do Brasil para o acolhimento de denúncias de violações de direitos humanos e para o fortalecimento das ações de prevenção, proteção e responsabilização em todo o território nacional.
Para entrar em contato com a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH), basta discar 100 do telefone fixo ou celular. O canal também pode ser acessado por meio do WhatsApp (61) 99611-0100; Telegram (digitar “direitoshumanosbrasil” na busca do aplicativo); e pelo site do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, disponível também para videochamadas em Língua Brasileira de Sinais (Libras).
No Distrito Federal as denúncias podem ser realizadas na Decrin:
Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual ou Contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência (Decrin)
End: Departamento de Polícia Especializada (DPE) — Complexo da Polícia Civil, ao lado do Parque da Cidade
Informações: (61) 3207-4242 – E-Mail: decrin_saaei@pcdf.df.gov.br
Polícia Civil do DF: Disque 197
Ouvidoria DF: Disque 162
-----------------------
Matéria postada originalmente no Brasil de Fato de 22 de janeiro de 2026
