Lisa fundou ao lado da parceira Vic Fonseca o projeto Quebra com as Negonas, que oferece aulas abertas de pagodão baiano na capital paulista | Crédito: Arquivo Pessoal
Brasil de Fato
17 de fevereiro de 2026
Dançarina e pesquisadora baiana celebra a disseminação do pagodão pelo país, o papel da internet e a potência dos corpos periféricos
“O baiano nasce e o baiano tem o molho.” A frase, que virou hit na voz de Wagner Moura e ecoa do Carnaval de Salvador às premiações internacionais, é mais do que um bordão: é a síntese de uma cultura que há décadas pulsa nas periferias da Bahia e, agora, conquista o Brasil e o mundo.
“O pagodão nasce nas favelas, nasce nas periferias, nasce de uma batida que a gente escuta e de uma dança que a gente imita. É muito natural a gente crescer na Bahia ouvindo pagodão”, conta a dançarina e pesquisadora Lisa Gouveia ao BdF Entrevista da Rádio Brasil de Fato. O que era parte da vida cotidiana — as rodas de dança, os encontros de família, os concursos entre comunidades — tornou-se também ofício e objeto de estudo.
Gouveia explica que o pagodão tem suas raízes no samba de roda e nas tradições de terreiro, com a inserção de instrumentos percussivos que remetem à ancestralidade. “Márcio Victor foi um dos que colocou instrumentos de terreiro dentro do pagodão. Ele é um ancestral vivo, a gente tem que homenagear”, afirma.
O ritmo se desdobra em vertentes como a swingueira, mais voltada para a dança, e o groove arrastado, que nasce da denúncia social. “O groove arrastado vem de uma expressão popular de protesto. Edcity, um dos precursores, fala sobre a comunidade, sobre ser filho de preto, sobre respeito. Não é só o balanço da música, é o balanço do que se ouve. Ele mexe no quadril, mas mexe também no peito.”
A dança como linguagem e resistência
Para Lisa, a dança é indissociável do pagodão. “A pulsação do pagodão mexe com a gente. Eu escuto e já começo a mexer a cabeça. Na Bahia, a música pulsa em qualquer lugar — num som mecânico, num balde, num instrumento. As crianças já crescem ouvindo e dançando. Eu lembro do meu primo, com um ano de idade, que dançava uma música sem nunca ter visto ninguém ensinar. É algo da pulsação.”
A pesquisadora destaca o papel da internet na disseminação do ritmo, com coreografias que viralizam e levam o pagodão para além das fronteiras nacionais. “Recentemente, um coreano veio para a Bahia porque fazia vídeos dançando pagodão. A dança tem uma força enorme de espalhar essa cultura.”
Lisa celebra a ascensão de artistas como Canália, natural de Camaçari, que com sua “batedeira” — movimento que mistura capoeira, dança e malemolência — conquistou o país. “O Canália é um cara que traz o pagodão na sua pura essência. Ele traz duplo sentido, mas também sustenta uma performance corporal incrível. Ele roda o palco, dá pirueta, faz batedeira e canta ao mesmo tempo. É muito difícil.”
Ela também lembra que movimentos como o “naip”, hoje associados a novas gerações, já existiam em dançarinos como Marquinhos Price, do Parangolé. “A gente nasce e as coisas já existem. O que a gente faz é colocar nomenclatura. A dança do pagodão vem de uma dança negra e periférica, que vem do samba de roda, que vem do lundu, que vem dos escravizados. A gente tem que entender essa história.”
Lisa enfrentou resistência ao escolher o pagodão como caminho profissional. “Sofri preconceito de pessoas mais velhas, inclusive artistas de nome, que diziam: ‘Você tem que fazer dança clássica, dança moderna’. E eu posso fazer dança clássica e moderna usando o pagodão também. O pagodão pode ser um instrumento educacional.”
Ela ressalta que, embora algumas letras sejam explícitas, o ritmo é múltiplo e pode ser trabalhado de forma lúdica. “O pagodão não é só baixaria. Ele tem baixaria, sim, a gente não vai descartar, mas ele também tem denúncia, tem brincadeira, tem música infantil. A gente precisa ter cuidado com o espaço onde ele é expressado, mas não pode criminalizar o ritmo.”
Quebra com as Negonas: levando o pagodão para São Paulo
Há dois anos radicada em São Paulo (SP), Lisa fundou ao lado da parceira Vic Fonseca o projeto Quebra com as Negonas, que oferece aulas abertas de pagodão baiano na capital paulista. O projeto nasceu da necessidade de espaço para o ritmo, que ainda é pouco difundido fora da Bahia.
“Começamos alugando um espaço, divulgando no boca a boca. Na primeira edição, havia sete pessoas. Depois dobrou. Na terceira, três. Mas a gente não desistiu. Hoje somos um grupo de estudos, já demos aula na São Paulo Escola de Dança, no Centro de Referência da Dança Muntu, e em breve estaremos no Sesc”, comemora.
O público é variado: há baianos na diáspora, dançarinos profissionais e pessoas que nunca tinham dançado. “A maioria não é dançarina. São pessoas que queriam perder a vergonha. A gente acredita que o iniciante pode fazer tudo. Uma batedeira não surge de uma aula de dança, surge de uma música, de uma movimentação. ‘Ah, a aula é fácil?’ Não, a aula não é fácil. Mas você é capaz de fazer.”
No Carnaval, o Quebra com as Negonas estará no Sesc Pompeia, com programação gratuita. “É só chegar, dançar e sentir o molho.”
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
Editado por: Maria Teresa Cruz

