Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)

domingo, 5 de julho de 2026

Gigante continua adormecido ignorando sua força e grandeza

Domingo, 5 de julho de 2026

Do PÁTRIA LATINA
PAPO DO DIA — Domingo, 5 de julho de 2026

Gigante continua adormecido ignorando sua força e grandeza

Foto: Reprodução da internet

Pedro Augusto Pinho*

A “Canção do Subdesenvolvido”, composta em 1961 por Carlos Lyra e Chico de Assis para o Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional de Estudantes (UNE), assim começa:

“O Brasil é uma terra de amores

Atapetada de flores

Onde a brisa fala amores

Em lindas tardes de abril

Correi pras bandas do sul

Debaixo de um céu de anil

Encontrareis um gigante deitado

Santa Cruz. hoje o Brasil.

Mas um dia o gigante despertou

Deixou de ser gigante adormecido

E dele um anão se levantou

Era um país subdesenvolvido”

Passados 65 anos, o povo brasileiro ainda não tomou consciência de ser um anão, ou seja, ignorante de sua força, de suas riquezas, da prioridade de promover a vida digna para todos os que aqui nascem.

A competente e arguta jornalista da GloboNews, Flávia Oliveira, ao analisar o salvamento de um homem, após oito dias soterrado nos escombros de um prédio demolido pelos terremotos que abalaram o território venezuelano, chamou a atenção para a falta de uma sociedade civil organizada, aqui e lá, para administrar os recursos voluntários num evento trágico, como o terremoto na Venezuela.

Aqui, no Brasil, as ocorrências nas cidades de Mariana (Minas Gerais), em 5/11/2015, com rompimento da Barragem de Fundão, controlada pela empresa privada Samarco, e em Sobradinho (Distrito Federal), em outubro de 2015 e abril de 2019, os deslizamentos de terra no Morro do Sansão e desmoronamentos em áreas da Vila Basevi e Fercal.

E Flávia Oliveira atribuiu aos governos autoritários, repressivos, esta ausência. Como aqui nos 21 anos de governos militares.

A invasão neoliberal no Brasil, que coincidiu com o fim dos governos militares, causou enorme confusão, propositadamente provocada por políticos, pelos veículos de comunicação de massa e pelo interesse das finanças apátridas. Naqueles anos 1980, os aparelhos celulares ainda tinham funcionamento restrito, eram poucos e não havia as comunicações virtuais, nem redes de convivialidade. E a palavra de ordem era “redemocratização”, como se o objetivo final do Brasil fosse tão somente construir uma democracia. Mas o que seria esta democracia?

Neste século XXI, o país que mais tem se destacado é a República Popular da China (China) que cresceu economicamente 515%, enquanto os Estados Unidos da América (EUA) cresceu 70% e o Brasil, 65%. Mas não foi o crescimento econômico o motor deste sucesso, nas palavras do dirigente Xi Jinping: “o povo chinês, dependendo da sua própria laboriosidade, coragem e sabedoria, criou um belo lar onde todas as etnias convivem harmoniosamente e cultivou uma excelente cultura com uma longa história, que se mostra, a cada dia, mais dinâmica. Nosso povo ama a vida e deseja ter melhor educação, trabalhos mais estáveis, melhores serviços médicos e de saúde, rendas mais satisfatórias, melhor seguridade social, condições habitacionais mais cômodas e um ambiente mais bonito. Nosso povo espera ainda que seus filhos possam crescer, trabalhar e viver melhor. A aspiração do povo por uma vida feliz é o objetivo de nossa luta” (Discurso em 15 de novembro de 2012).

E para isso, afirma ainda Xi Jinping, é indispensável “continuar emancipando a mente”.

EMANCIPAR A MENTE

A China tem uma longa história, que começa há mais de 2000 anos antes da Era Cristã. E passa a ter desde 500 a.C. o pensamento de Confúcio, que no dizer da sinóloga francesa Anne Cheng, “modela um ideal de homem”. O ensino em Confúcio é, por natureza, engajado, centrado num ideal prático, “basta constatar o número de parágrafos consagrados à arte de governar” (Anne Cheng, comentários na Introdução de sua tradução de “Os Analectos” para o francês, 1981).

É longa, tem início em Portugal, a opção do poder pela ignorância da população. Os indígenas brasileiros foram extirpados, ou morriam ou se recolhiam a áreas sem interesse para os colonizadores. A riqueza de suas relações com a natureza sempre foi menosprezada. E o que dizer dos africanos que para aqui vieram, contrariando seus interesses, para serem escravos.

A primeira manifestação de se ter uma educação patrocinada pelo Estado no Brasil ocorreu na República e durou um ano e meio. Deveu-se ao militar Benjamin Constant Botelho de Magalhães e foi denominado Ministério da Instrução Pública, Correio e Telégrafos (19/4/1890-30/10/1891).

Levou quase 40 anos para que Getúlio Dornelles Vargas, onze dias após ser investido na presidência do Governo Provisório da Revolução Nacionalista de Outubro de 1930, constituísse o Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública (Decreto nº 19.402 em 14 de novembro de 1930).

Como se constata o Poder Público no Brasil não se interessava no que Confúcio entendia ser fundamental para distinguir o homem entre os demais seres vivos. O primeiro pensamento de Os Analectos (Livro I, item 1) diz: “Estudar uma regra de vida para aplicá-la na ocasião aprazada: não é isso fonte de grande prazer? Partilhá-la com um amigo que vem de longe: não é a maior alegria? Não se ofender, quando os outros falham em reconhecer suas habilidades?”. E no item 2: “O homem de bem trabalha na raiz, pois quando estão estabelecidas, o Caminho brotará”. O “Caminho” é a fonte do ensino (a tradição) e o seu encontro com a realidade, o equilíbrio.

As iniciativas de Benjamin Constant, de Getúlio Vargas e de Leonel Brizola, os grandes dirigentes que se voltaram para educação, tão logo perderam o poder foram destruídas. O ensino no Brasil sempre foi para doutrinação, nunca para emancipação da mente. Daí prevalecer o religioso e o privado, rentista. Vejamos o antigo Estado da Guanabara que chegou a ter 500 Centros Integrados de Educação Pública, os CIEPs, e hoje nenhum é mais a escola de tempo integral, quando ainda exista como edificação.

Embora a China louve Mao Tse Tung, falecido em 1976, por tê-la libertado da submissão colonial, os governantes do século XXI (Hu Jintao e Xi Jinping) institucionalizaram a China com padrões confucianos, ou seja, colocando a formação cidadã como fundamento da educação popular.

Se o brasileiro não tivesse, nas expressões do jornalista, escritor, cronista, dramaturgo, o pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980) “complexo de vira-lata” (sensação crônica de inferioridade perante o mundo) e “complexo de Narciso às avessas” (alguém que sente vergonha e desprezo por sua própria identidade, cultura e imagem) poderia usar a imensa riqueza natural de seu território para construir uma potência no Ocidente. Mas temos esta subserviência histórica.

Veja que a China, entre muitos outros países, adota o que em 1932 já era proposto por intelectuais brasileiros, de diversas ideologias e credos políticos, o “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”.

É muito importante conhecer este Manifesto, divulgado em 19 de março de 1932, redigido pelo mineiro Fernando de Azevedo (1894-1974), proposto pelo baiano Anísio Teixeira (1900-1971), assinado por um alagoano, um paranaense, um capixaba, dois paraenses, três mineiros, três baianos, seis paulistas e nove cariocas e de sua total atualidade quase um século depois.

O Manifesto pedia a educação para todos. Assim a educação deveria ser grátis e pública, logo estatal. A escola privada, por ser paga, já estaria selecionando ao invés de universalizar os educandos. A escola deveria ser laica, pois tinha por objetivo desenvolver o pensamento crítico e a cidadania. Na época prevaleciam as escolas católicas, fruto do descaso pela educação dos governos desde Tomé de Souza, que trouxe para isso jesuítas com ele em 1549. A laicidade era vista como a transformação do Brasil em país comunista.

Cabe dizer que a “ameaça comunista” sempre foi usada no Brasil para manter a exploração do povo por uma minoria que nem mesmo é religiosa, apenas egoísta. Também a escola onde estudariam juntos meninos e meninas era vista como um incentivo a práticas imorais. O machismo, ainda hoje forte no Brasil, exigia diferenças educacionais para manter a mulher subordinada ao homem.

Getúlio Vargas, como Lula da Silva, não enfrentou esta questão como um processo de independência nacional, que não é apenas econômica mas, fundamentalmente, cultural, de formação cidadã, crítica. Senão qualquer avanço estará sempre, como já ocorreu em diversos momentos da vida nacional, sujeito a retrocessos.

O “Manifesto” de março de 1932, não era somente educacional, o que já seria um enorme passo para formação do Brasil, era um verdadeiro projeto de Estado Nacional Soberano. Faltava apenas dar-lhe a institucionalidade adequada e necessária.

CONSIDERAÇÕES PARA NOVA INSTITUCIONALIZAÇÃO 

A tripartição do poder foi um modo das aristocracias e da plutocracia reservarem-se sempre um espaço de gestão do Estado. Se não conquistassem o executivo, teriam o legislativo, ou, a garantia do judiciário, cujo preenchimento não acolheria o interesse dos desvalidos, dos pobres, "daqueles tão pobres que pareceriam negros". E o voto? Pergunte o caro leitor a uma pessoa na rua, um transeunte qualquer, qual a função de um senador? Muito provavelmente esta pessoa ficará gaguejando e, na melhor hipótese dirá: fazer leis, o que é restritivo a quem compete a escolha dos membros da mais alta corte de justiça do País.

Também a atual institucionalização do poder, num sistema liberal financeiro, é fortemente influenciada pelo capital; vence o dinheiro, a capacidade de uso das redes digitais, não a qualidade de uma proposta.

Paralelamente à formação cidadã, é indispensável proporcionar a prática da cidadania. E ela exige uma institucionalidade adequada.

Embora o modelo chinês seja bom para a China, ele dá algumas ideias que são, pode-se dizer, universais, como: você sabe melhor o que lhe está por perto, aquilo que aflige o seu cotidiano.

Então haverá na base da institucionalidade um poder de solucionar as questões que a todos está próxima: educação, saúde, habitação, transporte, infraestrutura e meio ambiente. Os “bairros” ou “distritos” terão uma gestão que obriga a participação de todos para eleger uma Assembleia Governativa. E esta Assembleia escolherá o “Prefeito”, os “Secretários” e como se organizará a Prefeitura para executar sua missão. Certamente o caso do Estado do Rio de Janeiro não seria possível num sistema participativo, mas é absolutamente natural onde democracia é apenas um voto a cada quatro anos. Os habitantes do “Bairro” ou “Distrito” são os membros permanentes da Assembleia Governativa, onde têm voz e voto.

E desta Assembléia Governativa sairão os membros da Assembleia Estadual e desta os membros da Assembleia Regional ou da Nacional.

Como está colocado, esta é uma sugestão a ser discutida pelo maior número possível de pessoas, com a ideia de um país que tem um governo escolhido com a participação de todos, único responsável pelos destinos do País. Não como ocorre neste momento que a decisão de um Ministro do Supremo Tribunal Federal ou do presidente do Senado pode influenciar, decisivamente, a escolha do próximo presidente do Brasil.

* Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado, membro do Conselho Editorial do Pátria Latina.