A derrota do sionismo em três tempos
Primeiro tempo: a derrota moral
A derrota moral não significa que o sionismo tenha perdido sua capacidade de mobilização. Internamente, o governo israelense e suas instituições continuam dispondo de amplo apoio social, e o discurso da segurança permanece poderoso. A derrota ocorre em outro lugar: na capacidade de Israel de definir sozinho o significado moral de suas próprias ações. Durante muito tempo, a acusação de que Israel estaria sendo julgado por padrões diferentes daqueles aplicados aos demais Estados funcionou como mecanismo de defesa. Gaza, porém, deslocou o problema. A invocação permanente da excepcionalidade judaica e da memória da perseguição não funcionam como autorização moral para suspender princípios que deveriam ser universais.
Quando a denúncia da violência contra os palestinos se torna impossível de ser neutralizada por seus próprios termos, aciona-se uma acusação particularmente poderosa: o antissemitismo. A acusação de antissemitismo é deslocada de sua função de nomear uma forma de ódio contra judeus para funcionar como dispositivo de imunização política do Estado de Israel. Nesse deslocamento, crítica ao Estado de Israel, denúncia da ocupação, oposição ao sionismo e defesa dos direitos palestinos passam a ser indistintamente tratados como manifestações de ódio aos judeus.
Segundo tempo: a israelização do mundo
Durante muito tempo, a defesa do sionismo podia ser apresentada como expressão de uma posição política judaica. O que estamos vendo agora é algo diferente: uma aliança global em defesa de Israel que ultrapassa largamente as comunidades judaicas. Governos e movimentos de extrema direita, líderes nacionalistas, setores fundamentalistas cristãos e grupos políticos que possuem, eles próprios, histórias profundamente problemáticas em relação aos judeus passaram a se apresentar como defensores incondicionais de Israel. O paradoxo é extraordinário: o sionismo que reivindicava falar em nome da segurança judaica tornou-se uma linguagem apropriada por forças políticas que não têm qualquer compromisso com uma concepção universal de igualdade e, em alguns casos, possuem vínculos históricos com o próprio antissemitismo.
O sionismo deixou de precisar dos judeus para existir como força política global. Tende a transformar-se em um significante vazio do próprio significado que deveria constituir sua identidade. Sua defesa tornou-se parte de uma coalizão muito mais ampla, na qual Israel funciona como símbolo de uma política de fronteiras fechadas, militarização, controle territorial, combate à imigração e produção de populações consideradas ameaçadoras. Enfim, uma condensação da expressão contemporânea do colonialismo.
Há poucos dias, assistimos a um espetáculo dantesco desse processo de israelização do mundo. A exemplo dos sionistas israelenses, que impediam a entrada de caminhões com ajuda humanitária em Gaza, espanhóis fizeram barreiras humanas para impedir que alimentos e medicamentos fossem entregues às pessoas imigrantes em Ceuta.
É nesse sentido que a israelização do mundo se torna possível. Israel deixa de ser apenas “o Estado dos judeus” e passa a ser apresentado como modelo para aqueles que desejam construir Estados fortificados contra seus próprios “inimigos”. Ou seja, o sionismo desloca-se radicalmente da ideia de um “identidade Judaica”. Como efeito dessas transformações, um novo significado foi acrescido à palavra “sionista”. Tornou-se sinônimo de nazista, fascista e extrema direita. Não é raro escutarmos a referência, por exemplo, ao presidente da Argentina: “Ele é um sionista!”, uma expressão-síntese para se referir a sujeitos que não veem a preservação da vida humana como um valor ético universal.
Terceiro tempo: a “fuga” judaica do sionismo
Quando um judeu se manifesta publicamente contra o sionismo, como vimos nas manifestações de centenas de milhares de judeus nas ruas do mundo denunciando o genocídio em Gaza, ele rompe com uma identificação que durante décadas foi apresentada como natural: judaismo e sionismo apresentava-se como termos intercambiáveis. Os judeus antissionistas que encontro nos eventos de lançamento do meu livro O dispositivo sionista e seus descontentes (livro dedicado a analisar os percurssos biográficos de pessoas judiais que rompem com o sionismo) colocam essa questão de maneira incontornável. Eles não apenas dizem “Israel não fala por mim”, anunciam algo mais radical: “o sionismo não é o nome da minha identidade judaica”.
É por isso que os depoimentos dos colaboradores da pesquisa (que resultaram no livro O dispositivo sionista e seus descontentes) sobre expulsão de suas famílias, rompimento com comunidades, perda de empregos, acusações de traição e isolamento social possuem uma dimensão que ultrapassa a experiência individual. Eles revelam uma disputa pelo direito de definir o que significa ser judeu. Não apenas a perda de sua autoridade moral diante do mundo, mas também a perda do monopólio sobre a definição do que é ser judeu retiram do sionismo o fundamento de sustentação.
O que sobrou ao sionismo? Poder militar, controle territorial, apoio de governos de extrema direita, capacidade tecnológica, redes internacionais e uma poderosa estrutura de repressão discursiva. Mas aquilo que começa a faltar é justamente o que durante décadas sustentou sua legitimidade: a capacidade de se apresentar como única tradução possível da segurança judaica, como representante de todos os judeus e como sujeito moral excepcional diante do mundo.
Aos que ainda insistem no oximoro “sionismo de esquerda”, resta a vergonha. O orgulho está ao lado daqueles que, a plenos pulmões, assumem o sionismo como a expressão mais cristalina de suas necrovisões.
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