Quarta, 28 de outubro de 2026
Massacre do Alemão e da Penha: câmeras policiais não registraram nenhuma das 123 mortes
28/10/2026 Mariana Rosetti
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Relatório da Human Rights Watch analisou 4.400 horas de imagens e identificou 278 episódios de obstrução de câmeras; gravações de agentes do Bope foram interrompidas no momento mais letal da operação

Corpos de vítimas do Massacre do Alemão e da Penha foram colocados em uma rua, cercados por moradores | Foto: Eusébio Gomes/TV Brasil
Da
Resumo
Nenhuma das 123 mortes da Operação Contenção aparece nas 4.400 horas de gravações de câmeras corporais analisadas pela Human Rights Watch (HRW), um ano após a ação policial mais letal da história do Rio de Janeiro.
Investigação identificou 278 episódios de obstrução de câmeras corporais, sendo 146 com suspeita de manipulação intencional. No Bope, policiais que utilizavam os equipamentos tiveram gravações interrompidas no momento mais crítico da ação.
Nenhum policial foi denunciado pelo uso ilegal da força durante a operação, apesar dos indícios de violência identificados pela HRW. Até a publicação do relatório, 19 agentes haviam sido denunciados por outros crimes, incluindo furto, invasão de domicílio e manipulação de câmeras.
Nenhuma das mortes, seja de civis ou militares, durante o Massacre do Alemão e da Penha, aparece nas 4.400 horas de imagens captadas por 532 câmeras corporais da Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ). É o que revela a investigação Uma estratégia de morte, da Human Rights Watch (HRW), obtida antecipadamente pela Ponte e publicada nesta quarta-feira (28/10), um ano após a operação que deixou pelo menos 123 mortos.
O número de vítimas inclui duas pessoas que, segundo a HRM, foram mortas nas primeiras horas da manhã, enquanto fugiam da operação que estava prestes a começar. As outras 121 mortes ocorreram durante a ação policial — número que costuma ser mencionado no balanço do massacre.
A HRW analisou imagens das Câmeras Operacionais Portáteis (COPs) de 527 PMs, obtidas com a Defensoria Pública do Rio de Janeiro (DPRJ). A Polícia Civil, que também teve policiais atuando no massacre, não disponibilizou as imagens das câmeras de seus agentes.
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A pesquisa encontrou evidências de que policiais, sobretudo da linha de frente da operação, manipularam e obstruíram COPs durante prisões, tiroteios ou abordagens. Imagens captaram “policiais agredindo detidos e evidências que sugerem uso excessivo da força e que pessoas foram mortas intencionalmente”, aponta a investigação.
Entre os 2.500 agentes de segurança que estiveram no Complexo da Penha naquele dia, somente 23% estavam equipados com COPs. Sob a justificativa de cumprir 100 mandados de prisão e 145 de busca e apreensão contra membros do crime organizado, a ação entrou para a história brasileira como a maior chacina policial do século XXI.
De acordo com a HRW, cerca de 85% das vítimas fatais não policiais eram negras e nenhuma delas constava nos mandados de prisão citados na principal investigação que motivou a operação.
Investigação aponta suspeita de operação de vingança
Localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro, o Complexo da Penha possui uma geografia única. No topo, cortado pela Serra da Misericórdia, conecta-se com o Complexo do Alemão pela mata da Vacaria. Essa intersecção entre as comunidades é, também, uma conhecida rota de fuga.
Naquele dia 28, comandantes estabeleceram o “Muro do Bope”: posicionaram policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) na Vacaria, com a missão de impedir que suspeitos fugissem pela Serra da Misericórdia e acessassem o Alemão.

Imagem de satélite com marcações táticas indica posições de batalhões, a rota de fuga e a área de atuação policial nos complexos do Alemão e da Penha | Foto: Human Rights Watch (HRW)/Reprodução
Próximo das 12h, o Comandante do Bope ordenou que parte dos agentes deixasse o posto para auxiliar um policial civil ferido numa parte mais baixa do morro. Nesse ínterim, 14 policiais foram baleados.
O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) suspeita que, “depois que a polícia sofreu baixas, a operação se transformou em uma operação vingança — uma operação letal para vingar a morte de um companheiro —, algo comum no Rio e em outros lugares do Brasil”, apontou o levantamento.
Pelo menos 305 policiais da linha de frente tinham COPs: 175 no Batalhão de Polícia de Choque, 57 em batalhões não especializados da Polícia Militar, 24 no Batalhão de Ações com Cães e 49 no Bope. Contudo, 55% das gravações terminam ou apresentam lacuna significativa por volta das 12h.
As interrupções foram particularmente frequentes entre os policiais posicionados na mata da Vacaria, região que concentrou a maior letalidade da operação. Segundo a HRW, todas as filmagens utilizáveis dos policiais do Bope terminaram às 12h11.

Gráfico detalha a linha do tempo das filmagens das câmeras corporais do BOPE, destacando interrupções e falta de registros após o meio-dia | Foto: Human Rights Watch (HRW)Reprodução
César Muñoz, diretor da Human Rights Watch (HRW) no Brasil, explica que as COPs cumprem dois objetivos: oferecer segurança jurídica aos policiais que atuam de maneira adequada, inclusive em situações de legítima defesa, e coibir desvios de conduta, permitindo a punição dos agentes envolvidos.
A adoção desses equipamentos no Brasil tem demonstrado impactos positivos na redução da letalidade policial e das mortes de agentes, explica. No entanto, para funcionar, “você tem que ter as câmeras gravando nos momentos mais importantes, quando tem uma prisão ou confronto”. Por isso, ao avaliar o uso do equipamento no Massacre do Alemão e da Penha, “o resultado foi um fracasso”, define Muñoz.
COPs foram obstruídas em momentos-chave da operação
Além das gravações interrompidas sistematicamente, a HRW identificou 278 casos de obstruções às câmeras de 132 policiais militares que estavam na linha de frente da operação naquele dia. Segundo os pesquisadores, essas práticas ocorreram em momentos relevantes, como prisões, incursões e tiroteios.
Em 132 casos, não foi possível determinar a intenção dos policiais com a prática, ainda que ela indicasse a possibilidade de violação de protocolos. Foram 35 situações de COPs removidas do uniforme durante a investida policial e 97 em que os equipamentos foram deixados nos veículos.

Gráfico quantifica os episódios de suspeita de manipulação intencional, câmeras deixadas em veículos e equipamentos removidos por batalhões da PM | Foto: Human Rights Watch (HRW)/Reprodução
Já em 146 casos, o policial removeu a câmera ou encobriu a lente sob “suspeita de manipulação intencional”, aponta a análise. Um sargento do BOPE, por exemplo, foi flagrado cobrindo a lente da câmera por quase quatro horas, período em que é possível ouvir mais de 60 tiros.
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Em outra ação, depois que uma notificação de bateria fraca apitou, um policial do 22º Batalhão de Polícia Militar cobriu a lente do equipamento por nove minutos, “durante os quais mais de 40 tiros foram disparados”, diz o relatório.
Outros dois policiais, por volta das 15h30, “perseguiram e detiveram um homem descalço, vestido com roupas comuns”, diz o relatório. O que possuía COP foi gravado dizendo: “Deita ou vai morrer, porra”. Seu parceiro dá uma joelhada no peito do abordado. Na sequência, segundo o relatório, o policial retira a própria COP e parece colocá-la no bolso. Quando a imagem retorna, após quase 30 minutos, ele já está em uma delegacia.

Dezenas de corpos foram trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, após o Massacre do Alemão e da Penha | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
HRW pede investigação aprofundada sobre manipulação de COPs
Para o diretor César Muñoz, os achados da investigação não buscam dizer que as câmeras corporais são ineficazes. Pelo contrário, expõem que policiais encontraram formas de contornar os regulamentos e descumprir os protocolos internos. Desse modo, a intenção da investigação é reparar essas fragilidades.
Em um dos registros obtidos pela HRW, um agente afirma: “Eles [os suspeitos] se salvaram porque a câmera está gravando, não podia matar”, lembra Muñoz. “Provavelmente, nesse momento, essa câmera salvou uma vida ou mais de uma vida”, argumenta.
Diante das evidências reunidas, Muñoz defende uma investigação aprofundada sobre a possível manipulação dos equipamentos, tanto para identificar a responsabilidade individual dos agentes quanto para avaliar o funcionamento do programa como um todo.
“A Human Rights Watch enviou as principais conclusões do nosso relatório para a Polícia Militar do Rio faz duas semanas. […] Eles não responderam”, finaliza o diretor. Para ele, cabe ao Ministério Público atuar nas esferas penal e civil para garantir o uso adequado dos equipamentos no Rio de Janeiro.
Projeção política da barbárie
Um ano depois da operação letal, 19 agentes tinham sido denunciados por crimes como invasão de domicílio, furto e manipulação de câmeras corporais, mas nenhum por ações diretamente relacionadas às mortes, segundo a HRW.
A ausência de responsabilização também alcança os postos superiores: “Os comandantes que tomaram as decisões sobre a operação e os comandantes de unidades específicas envolvidas na operação não foram responsabilizados”, aponta a organização.
Na alta cúpula, a não responsabilização foi acompanhada de projeção política. Nas eleições de 2026, pelo menos três nomes envolvidos no Massacre do Alemão e da Penha se elegeram: o ex-secretário de Polícia Civil, Felipe Curi (PP), como deputado federal; e o ex-secretário da PM, coronel Marcelo Menezes (PL), e o delegado Bernardo Leal (PP), como deputados estaduais.
Cláudio Castro, governador à época, ao ser questionado pelo STF sobre o massacre, disse que a incursão policial “observou os princípios da legalidade, necessidade, proporcionalidade, moderação e conveniência”. Em entrevista coletiva à época, afirmou que “de vítima, ontem, lá, só tivemos os policiais”.
A narrativa do ex-governador contrasta com o que moradores disseram à Ponte sobre o massacre. À reportagem, eles relataram horas de tiroteios, famílias em busca de parentes e dezenas de corpos deixados na mata, cuja retirada ficou a cargo dos próprios moradores.
Castro era o nome apoiado pela família Bolsonaro para disputar o Senado e chegou a renunciar ao governo do Rio para tentar concorrer. Contudo, em março, o Tribunal Superior Eleitoral declarou o ex-governador inelegível até 2030 por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.
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