“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quarta-feira, 8 de outubro de 2025

8 de outubro, Dia do Nordestino. E olha aqui, não troco meu "Oxente" pelo "talkei" de ninguém!

Quarta, 8 de outubro de 2025


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Patativa do Assaré
Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas não esmorece e procura vencer.
Da terra querida, que a linda cabocla
De riso na boca zomba no sofrer
Não nego meu sangue, não nego meu nome
Olho para a fome, pergunto o que há?
Eu sou brasileiro, filho do Nordeste,
Sou cabra da Peste, sou do Ceará. (Patativa do Assaré)




Sertão, argúem te cantô,
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tô,
Pruquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero
E vejo qui os teus mistéro
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta,
Qui o poeta canta, canta,
E inda fica o qui cantá.

domingo, 8 de outubro de 2023

Nordestino, com muito orgulho. E também "não troco meu 'oxente' pelo 'ok' de ninguém"

Domingo, 8 de outubro de 2023

Não troco o meu “oxente” pelo “ok” de ninguém
(Ariano Suassuna)

Por Taciano
É comemorado hoje, 8 de outubro, o Dia do Nordestino. A data é uma homenagem ao nascimento do poeta Catulo da Paixão Cearense, autor da música Luar do Sertão.

Como nordestino, filho da ainda hoje pequena Itiúba, na região sisaleira do interior da Bahia, com a área urbana localizada num vale entre serras, pude admirar as noites de luar. Na minha época de criança a energia elétrica na cidade vinha de um potente motor Caterpillar a óleo e importado da Inglaterra. Para a alegria da criançada, em especial minha, o motor freqüentemente passava dias, e até meses, sem funcionar. Era a grande oportunidade de ver a lua cheia nascer por detrás das serras e desaparecer do outro lado da cidade, escondendo-se na Serra do Cruzeiro. Em noites sem lua cheia admirava os bilhões e bilhões de estrelas do céu. Na realidade, diariamente após às 22 horas o motor, por economia ou sei lá se era porque não suportaria ficar 24 horas por dia ligado, era desligado e, para mim, a cidade ficava ainda mais bonita.

E não há, creio, música que toca mais o coração deste nordestino do interior —apesar de ter arribado para a beira da praia (Salvador) e depois para Brasília— do que “Luar do Sertão”, um verdadeiro hino.



Música 'Luar do Sertão', autoria de Catulo da Paixão Cearense, cantada pelo Mestre Lua, o Nordestino Arretado, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião


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Obs.: Postagem originalmente postada aqui mesmo no Blog Gama Livre em 8 de outubro de 2020

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Repente é reconhecido como patrimônio cultural do Brasil

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Nordestino, com muito orgulho. E também "não troco meu 'oxente' pelo 'ok' de ninguém"

 Sexta, 8 de outubro de 2021

Não troco o meu “oxente” pelo “ok” de ninguém  (Ariano Suassuna)

Por Taciano
É comemorado hoje, 8 de outubro, o Dia do Nordestino. A data é uma homenagem ao nascimento do poeta Catulo da Paixão Cearense, autor da música Luar do Sertão.

Como nordestino, filho da ainda hoje pequena Itiúba, na região sisaleira do interior da Bahia, com a área urbana localizada num vale entre serras, pude admirar as noites de luar. Na minha época de criança a energia elétrica na cidade vinha de um potente motor Caterpillar a óleo e importado da Inglaterra. Para a alegria da criançada, em especial minha, o motor freqüentemente passava dias, e até meses, sem funcionar. Era a grande oportunidade de ver a lua cheia nascer por detrás das serras e desaparecer do outro lado da cidade, escondendo-se na Serra do Cruzeiro. Em noites sem lua cheia admirava os bilhões e bilhões de estrelas do céu. Na realidade, diariamente após às 22 horas o motor, por economia ou sei lá se era porque não suportaria ficar 24 horas por dia ligado, era desligado e, para mim, a cidade ficava ainda mais bonita.

E não há, creio, música que toca mais o coração deste nordestino do interior —apesar de ter arribado para a beira da praia (Salvador) e depois para Brasília— do que “Luar do Sertão”, um verdadeiro hino.



Música 'Luar do Sertão', autoria de Catulo da Paixão Cearense, cantada pelo Mestre Lua, o Nordestino Arretado, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião


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Obs.: Postagem originalmente postado aqui mesmo no Blog Gama Livre em 8 de outubro de 2020

8 de outubro, Dia do Nordestino. E olha aqui, seu moço, não troco meu "Oxente" pelo "talkei" de ninguém!

 Sexta, 8 de outubro de 2021




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Patativa do Assaré
Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas não esmorece e procura vencer.
Da terra querida, que a linda cabocla
De riso na boca zomba no sofrer
Não nego meu sangue, não nego meu nome
Olho para a fome, pergunto o que há?
Eu sou brasileiro, filho do Nordeste,
Sou cabra da Peste, sou do Ceará. (Patativa do Assaré)




Sertão, argúem te cantô,
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tô,
Pruquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero
E vejo qui os teus mistéro
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta,
Qui o poeta canta, canta,
E inda fica o qui cantá.

(De EU E O SERTÃO - Cante lá que eu canto Cá - Filosofia de um trovador nordestino - Ed.Vozes, Petrópolis, 1982)
Patativa do Assaré
CANTE LÁ QUE EU CANTO CÁ

Poeta, cantô da rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua,
Que eu canto o sertão que é meu.
Se aí você teve estudo,
Aqui, Deus me ensinou tudo,
Sem de livro precisa
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá, que eu canto cá.
Você teve inducação,
Aprendeu munta ciença,
Mas das coisa do sertão
Não tem boa esperiença.
Nunca fez uma boa paioça,
Nunca trabaiou na roça,
Não pode conhece bem,
Pois nesta penosa vida,
Só quem provou da comida
Sabe o gosto que ela tem.
Pra gente cantá o sertão,
Precisa nele mora,
Te armoço de fejão
E a janta de mucunzá,
Vive pobre, sem dinhêro,
Trabaiando o dia intero,
Socado dentro do mato,
De apragata currelepe,
Pisando inriba do estrepe,
Brocando a unha-de-gato.
Você é munto ditoso,
Sabe lê, sabe escreve,
Pois vá cantando o seu gozo,
Que eu canto meu padece.
Inquanto a felicidade
Você canta na cidade,
Cá no sertão eu infrento
A fome, a dô e a misera.
Pra sê poeta divera,
Precisa tê sofrimento.
Sua rima, inda que seja
Bordada de prata e de oro,
Para a gente sertaneja
É perdido este tesôro.
Com o seu verso bem feito,
Não canta o sertão dereito
Porque você não conhece
Nossa vida aperreada.
E a dô só é bem cantada,
Cantada por quem padece.

Só canta o sertão dereito,
Com tudo quanto ele tem,
Quem sempre correu estreito,
Sem proteção de ninguém,
Coberto de precisão
Suportando a privação
Com paciença de Jó,
Puxando o cabo da inxada,
Na quebrada e na chapada,
Moiadinho de suó.
Amigo, não tenha quêxa,
Veja que eu tenho razão
Em lhe dize que não mexa
Nas coisa do meu sertão.
Pois, se não sabe o colega
De quá manêra se pega
Num ferro pra trabaiá,
Por favô, não mexa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá que eu canto cá.
Repare que a minha vida
É deferente da sua.
A sua rima pulida
Nasceu no salão da rua.
Já eu sou bem deferente,
Meu verso é como a simente
Que nasce inriba do chão;
Não tenho estudo nem arte,
A minha rima faz parte
Das obra da criação.
Mas porém, eu não invejo
O grande tesôro seu,
Os livro do seu colejo,
Onde você aprendeu.
Pra gente aqui sê poeta
E fazê rima compreta,
Não precisa professô;
Basta vê no mês de maio,
Um poema em cada gaio
E um verso em cada fulô
Seu verso é uma mistura
É um ta sarapaté,
Que quem tem pôca leitura,
Lê, mais não sabe o que é.
Tem tanta coisa incantada,
Tanta deusa, tanta fada,
Tanto mistéro e condão
E ôtros negoço impossive.
Eu canto as coisa visive
Do meu querido sertão.
Canto as fulô e os abróio
Com toda coisas daqui:
Pra toda parte que eu óio
Vejo um verso se buli.
Se as vez andando no vale
Atrás de cura meus males
Quero repará pra serra,
Assim que eu óio pra cima,
Vejo um diluve de rima
Caindo inriba da terra.

Mas tudo é rima rastêra
De fruita de jatobá,
De fôia de gamelêra
E fulô de trapiá,
De canto de passarinho
E da poêra do caminho,
Quando a ventania vem,
Pois você já tá ciente:
Nossa vida é deferente
E nosso verso também.
Repare que deferença
Iziste na vida nossa:
Inquanto eu tô na sentença,
Trabaiando em minha roça
Você lá no seu descanso,
Fuma o seu cigarro manso,
Bem perfumado e sadio;
Já eu, aqui tive a sorte
De fumá cigarro forte
Feito de paia de mio.
Você, vaidoso e facêro,
Toda vez que qué fumá,
Tira do bôrso um isquêro
Do mais bonito meta.
Eu que não posso com isso,
Puxo por meu artifiço
Arranjado por aqui,
Feito de chifre de gado,
Cheio de argodão queimado,
Boa pedra e bom fuzí.
Sua vida é divertida
E a minha é grande pena.
Só numa parte de vida
Nóis dois samo bem iguá
É no dereito sagrado,
Por Jesus abençoado
Pra consolá nosso pranto,
Conheço e não me confundo
Da coisa mio do mundo
Nóis goza do mesmo tanto.
Eu não posso lhe inveja
Nem você invejá eu
O que Deus lhe deu por lá,
Aqui Deus também me deu.
Pois minha boa muié,
Me estima com munta fé,
Me abraça, beja e qué bem
E ninguém pode negá
Que das coisa naturá
Tem ela o que a sua tem.
Aqui findo esta verdade.
Toda cheia de razão:
Fique na sua cidade
Que eu fico no meu sertão.
Já lhe mostrei um ispeio,
Já lhe dei grande conseio
Que você deve toma.
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá que eu canto cá.

(De Cante lá que eu canto Cá - Filosofia de um trovador nordestino - Ed.Vozes, Petrópolis, 1982)Patativa do Assaré


Há dor que mata a pessoa
Sem dó nem piedade.
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade. (Patativa do Assaré)