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quinta-feira, 28 de agosto de 2025

SOBERANIA POPULAR —‘Corredores agroecológicos criam sistemas produtivos justos, sustentáveis e com soberania no campo’, defende pesquisadora

Quinta, 28 de agosto de 2025

Engenheira agrônoma fala de modelo que une produção de alimento, proteção ambiental e fortalecimento de vínculos sociais

Pequenos exibem sementes para plantio em horta no Recife - Wagner Ramos / Prefeitura do Recife



Brasil de Fato
—Recife (PE) — Wallison Rodrigues — 28.agosto

Em tempos de crise climática, insegurança alimentar e esgotamento dos recursos naturais, iniciativas que conciliam produção agrícola, preservação ambiental e fortalecimento dos territórios camponeses ganham cada vez mais relevância. É nesse contexto que surgem os “corredores agroecológicos” — sistemas produtivos baseados na diversidade de culturas, no uso de sementes crioulas e na cooperação entre os saberes populares e científicos.

Nesta entrevista, conversamos com Ana Cláudia de Lima Silva, engenheira agrônoma com doutorado em Agricultura. Com uma trajetória dedicada à agroecologia e ao trabalho com comunidades camponesas, Lima e Silva é professora de Extensão Rural e Agroecologia da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Ela explica o que são os corredores agroecológicos, os desafios para o seu estabelecimento e o papel estratégico que cumprem na disputa por outro modelo de agricultura para o Brasil.

Wallisson Rodríguez: O que são corredores agroecológicos e qual a importância deles para territórios camponeses e para o meio ambiente?

Ana Cláudia de Lima Silva: Os corredores agroecológicos são colocados como uma alternativa aos roçados tradicionalmente manejados com base em monocultivos e em uma única variedade genética. Caracterizam-se como faixas intercaladas de plantas no mesmo tempo e espaço, compondo uma paisagem de policultivo que combina espécies de acordo com o interesse dos/as agricultores/as, produzindo alimento para as pessoas e para o solo.

Esses arranjos podem ser diversos. Mas a ideia central é a combinação de plantas com diferentes hábitos de crescimento, funções e usos, como adubadoras verdes, gramíneas, leguminosas, aromáticas, oleaginosas, tubérculos, entre outras. As plantas exercem funções que vão além da produção de alimentos e sementes: atuam de forma integrada e sinérgica no sistema.

Por exemplo, o girassol atrai polinizadores, como abelhas e mariposas; o gergelim pode ajudar no controle de formigas e servir de hospedeiro para a mosca-branca, protegendo em consórcio o feijão. As leguminosas contribuem com a fixação de nitrogênio; as gramíneas, com a produção de biomassa orgânica. Além disso, os corredores promovem o resgate e a introdução de sementes crioulas, fortalecendo a soberania alimentar e a autonomia camponesa.
A engenheira agrônoma Ana Cláudia Lima e Silva é professora na UFRPE | Wallisson Rodríguez / MCP

O diálogo com as comunidades é essencial. Não há uma combinação única de plantas — há princípios, não regras. Espaçamento, materiais disponíveis e a experiência dos agricultores são fatores importantes no processo de implantação. Para o meio ambiente, os corredores contribuem com a diversificação da paisagem agrícola, aumentam a fertilidade do solo, promovem a ciclagem de nutrientes, o acúmulo de carbono e o crescimento de microrganismos benéficos.

WR: Qual é a diferença entre os corredores agroecológicos e os sistemas agroflorestais (SAFs)?

ACLS: A principal diferença é a ausência do estrato arbóreo nos corredores agroecológicos. No entanto, eles podem ser conduzidos dentro de SAFs, dependendo da idade das árvores e da necessidade de luz das espécies cultivadas. A concepção dos corredores dialoga com os princípios dos SAFs — cultivo em faixas, diversidade de espécies, recomposição de matéria orgânica — mas sem o manejo intensivo de podas.

Os corredores foram pensados para áreas de roçado, onde havia predominância de cultivos únicos. Assim, tornaram-se uma estratégia de transição agroecológica para comunidades com pouca familiaridade com o policultivo. Eles também podem anteceder a implantação de um SAF e funcionar de forma complementar ou como alternativa de roçados voltados para cultivos anuais, sempre promovendo a diversificação dos sistemas.

WR: Por que os corredores são chamados de “escola a céu aberto” de práticas agroecológicas?

ACLS: Os corredores agroecológicos promovem princípios básicos da agroecologia, como a diversificação da paisagem e a valorização da diversidade genética — tanto entre espécies quanto dentro de uma mesma espécie. Estimulam o resgate de cultivos tradicionais do território.

Mutirão em horta comunitária no bairro do Ibura, Recife | Wagner Ramos / Prefeitura do Recife

Durante sua condução, ocorrem práticas de manejo do solo, como o uso de matéria orgânica e adubação verde. Isso melhora a qualidade do solo, reduz a dependência de insumos externos e favorece a sanidade vegetal. As interações entre plantas — como o uso de espécies atrativas e repelentes — contribuem para o controle de pragas e doenças.

Além disso, os corredores são espaços de aprendizado coletivo. São implantados em mutirões, com rodas de conversa para tomada de decisões. Tornam-se uma verdadeira escola prática para a agroecologia, indo além da dimensão ecológica-produtiva, fortalecendo laços comunitários e a construção de autonomia.

WR: Como se dá, na prática, a construção de um corredor agroecológico? Que atores sociais costumam estar envolvidos no processo?

ACLS: Os corredores agroecológicos são, preferencialmente, implantados de forma coletiva, por meio de mutirões. Mas há etapas fundamentais antes disso, como a sensibilização da comunidade para a importância das sementes crioulas. Realiza-se um levantamento das culturas existentes no território e das sementes disponíveis. Quando não há sementes locais, podem ser inseridas sementes crioulas de outros territórios, observando-se sua adaptação.

Define-se a área de plantio, o espaçamento entre linhas (dependendo da experiência da família e da presença de maquinário) e o número de faixas. Com as plantas selecionadas, são feitos croquis participativos para definir a organização do plantio. O desenho do corredor é simétrico, começando e terminando da mesma forma.

É preciso também definir o objetivo principal do corredor: produção de alimentos, multiplicação de sementes para comercialização ou adubação verde. O preparo do solo com insumos orgânicos e a organização das sementes são fundamentais para o sucesso do mutirão de plantio.

Mutirão de plantio em horta que compõe corredor agroecológico em Pernambuco | Wagner Ramos / Prefeitura do Recife

Após a implantação, realiza-se uma roda de conversa para avaliar o processo e orientar os próximos passos. Nos ciclos seguintes, recomenda-se a rotação de culturas e o uso das sementes colhidas no próprio corredor, promovendo a adaptação genética e a agrobiodiversidade local.

WR: Que tipo de conhecimentos e práticas agrícolas são necessárias para consolidar esses corredores?

ACLS: A experiência com roçados é um bom ponto de partida, mas é importante estar aberto ao aprendizado sobre consórcios e rotação de culturas. As famílias vão lidar com plantas de diferentes hábitos de crescimento no mesmo espaço, o que exige atenção e manejo adequado. Áreas com vegetação nativa ao redor ajudam na saúde do sistema. A cobertura do solo pode ser feita com matéria orgânica trazida de áreas adjacentes, o que ajuda no controle de plantas espontâneas e na retenção de água e nutrientes.

No caso de sementes de milho, por exemplo, é importante isolar os corredores e as lavouras com variedades comerciais para evitar a contaminação genética. A seleção de sementes deve começar no campo, escolhendo as melhores plantas. Técnicas como a seleção massal, no caso do milho, contribuem para garantir a qualidade do material propagativo. As sementes devem ser armazenadas em locais secos, limpos e ventilados.

O registro do manejo e das observações durante o ciclo do corredor é fundamental para orientar decisões futuras. As práticas técnicas devem sempre dialogar com o conhecimento local.

WR: Quais os principais desafios enfrentados pelas comunidades que querem fortalecer ou implantar corredores agroecológicos?

ACLS: Os desafios variam conforme o grau de maturidade agroecológica da comunidade. Em agroecossistemas ainda dependentes de insumos externos, com poucas sementes disponíveis e baixo engajamento coletivo, as dificuldades são maiores. O acesso a sementes crioulas é um dos principais obstáculos. A articulação com movimentos sociais, como o Movimento Camponês Popular, pode facilitar o processo. O manejo de diferentes espécies em consórcio pode gerar insegurança inicial, mas com o tempo os benefícios se tornam evidentes.

Plantio coletivo em horta comunitária do Recife (PE) | Wagner Ramos / Prefeitura do Recife

A limpeza das áreas também é um desafio. Como não se usa herbicidas, é necessário controlar o banco de sementes de plantas espontâneas com práticas como cobertura morta, capinas manuais ou uso de roçadeiras. O armazenamento e a seleção das sementes exigem cuidado. Ter uma rede de apoio — entre agricultores e técnicos — ajuda a superar essas dificuldades, socializar experiências e buscar soluções conjuntas.

WR: Na sua visão, qual é o papel dos corredores agroecológicos na disputa de modelo agrícola e na construção de um projeto popular para o campo brasileiro?

ACLS: Os corredores agroecológicos representam, na prática, a possibilidade de produzir alimentos e sementes de forma autônoma, resiliente e sustentável. Ao diversificarem a paisagem e promoverem interações ecológicas, rompem com o modelo de monocultura que empobrece os ecossistemas.

A produção de sementes adaptadas fortalece a autonomia das famílias e pode gerar renda, seja por meio de trocas entre vizinhos ou de políticas públicas de comercialização. A produção de alimentos saudáveis também contribui para a segurança alimentar local.

Com esses princípios, os corredores agroecológicos tornam-se pilares de um projeto popular para o campo: criam sistemas produtivos mais justos, biodiversos e sustentáveis, fortalecendo a soberania dos povos do campo e a viabilidade de outra agricultura possível no Brasil.


Editado por: Vinicius Sobreira

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terça-feira, 11 de junho de 2024

Mais de um milhão de hectares serão protegidos na Caatinga

Terça, 11 de junho de 2024


© Gabriel Carvalho/Setur-BA

Desertificação atinge 13% do semiárido brasileiro

Publicado em 11/06/2024 - Por Fabíola Sinimbú - Repórter da Agência Brasil - Brasília

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) anunciou a seleção de 12 projetos prioritários para a criação de unidades de conservação federais no bioma Caatinga, a serem implantadas até 2026, que resultarão no aumento de mais de um milhão de hectares das áreas protegidas.

Encontram-se em andamento as ampliações do Parque Nacional da Serra das Confusões, no Piauí; da Floresta Nacional de Açu, no Rio Grande do Norte; e do Refúgio da Vida Silvestre do Soldadinho-do-Arararipe, no Ceará.

“Os estudos da ciência estão nos mostrando que já temos uma ampliação das áreas que eram semiáridas e que estão ficando áridas. Isso é mudança do clima. Se a gente ‘descaatinga’ a Caatinga, a gente agrava o problema”, alertou a ministra do MMA, Marina Silva.

O anúncio foi feito em Petrolina, Pernambuco, nessa segunda-feira (10), durante o lançamento da campanha Terra, Floresta, Água — Movimento Nacional de Enfrentamento à Desertificação e à Seca.

domingo, 8 de outubro de 2023

Nordestino, com muito orgulho. E também "não troco meu 'oxente' pelo 'ok' de ninguém"

Domingo, 8 de outubro de 2023

Não troco o meu “oxente” pelo “ok” de ninguém
(Ariano Suassuna)

Por Taciano
É comemorado hoje, 8 de outubro, o Dia do Nordestino. A data é uma homenagem ao nascimento do poeta Catulo da Paixão Cearense, autor da música Luar do Sertão.

Como nordestino, filho da ainda hoje pequena Itiúba, na região sisaleira do interior da Bahia, com a área urbana localizada num vale entre serras, pude admirar as noites de luar. Na minha época de criança a energia elétrica na cidade vinha de um potente motor Caterpillar a óleo e importado da Inglaterra. Para a alegria da criançada, em especial minha, o motor freqüentemente passava dias, e até meses, sem funcionar. Era a grande oportunidade de ver a lua cheia nascer por detrás das serras e desaparecer do outro lado da cidade, escondendo-se na Serra do Cruzeiro. Em noites sem lua cheia admirava os bilhões e bilhões de estrelas do céu. Na realidade, diariamente após às 22 horas o motor, por economia ou sei lá se era porque não suportaria ficar 24 horas por dia ligado, era desligado e, para mim, a cidade ficava ainda mais bonita.

E não há, creio, música que toca mais o coração deste nordestino do interior —apesar de ter arribado para a beira da praia (Salvador) e depois para Brasília— do que “Luar do Sertão”, um verdadeiro hino.



Música 'Luar do Sertão', autoria de Catulo da Paixão Cearense, cantada pelo Mestre Lua, o Nordestino Arretado, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião


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Obs.: Postagem originalmente postada aqui mesmo no Blog Gama Livre em 8 de outubro de 2020

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sábado, 8 de outubro de 2016

Orgulho de ser Nordestino

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Bráulio Bessa