“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Memórias do jornalismo: A Semana da Legalidade

Segunda, 17 de agosto de 2026

Memórias do jornalismo: A Semana da Legalidade

Jânio renuncia. O jovem repórter viaja a Porto Alegre, onde Brizola luta, de metralhadora na mão, pela posse de Jango – ameaçada pela direita. O golpe é derrotado e a jornada, eletrizante, ensina. O “Estadão” censura os despachos que contavam a verdade

A legalidade vence: povo espera Jango diante do Palácio do Piratini. Foto: Reprodução/Canal Brasil
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O texto a seguir compõe a série Passageiro da História, memórias de Carlos Azevedo. Leia também:
“Carlos Azevedo, Passageiro da História“

A renúncia de Jânio permanece um enigma até hoje. Há a versão de que, sem maioria no Congresso, fustigado por Carlos Lacerda, sentindo-se sem condições de governar, ele decidiu renunciar num ato impulsivo. Mas por que havia antes enviado João Goulart, vice-presidente e seu adversário político, para um lugar tão distante quanto a China?

O que aconteceu depois faz parte da História. Jânio renunciou em 25 de agosto de 1961, uma sexta-feira. Como o vice estava ausente, o governo foi assumido provisoriamente por Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, o terceiro na ordem sucessória. Mas da noite de sexta para sábado algo aconteceu. Os três ministros militares e altos escalões da oficialidade das Forças Armadas tornaram público que não estavam de acordo com a posse de Goulart, por ser ligado aos sindicatos de trabalhadores e aos partidos de esquerda. Estávamos em plena “guerra fria” e esses setores diziam que Jango ia favorecer o “comunismo”. Logo receberam respaldo de grandes empresários, banqueiros, da Igreja católica, e da grande imprensa, O Estado de S. Paulo, Globo e Diários Associados. No núcleo da conspiração, a UDN, partido da direita, inspirada por Carlos Lacerda.

Mas as forças armadas se dividiram. Grande parte da oficialidade se posicionou a favor da legalidade, isto é, de que se cumprisse a Constituição e se desse posse ao vice-presidente. Sindicatos de trabalhadores, partidos da esquerda (PCB, PTB, PSB), parte do PSD e a UNE também se manifestaram. No Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola denunciou o golpe em marcha. Através da Rádio Guaíba, muito potente e com audiência nacional, levou seu protesto a todo o país. Na época, o rádio era o meio de comunicação soberano. A TV era incipiente.

Correspondente de “guerra” por acaso

Na manhã da segunda-feira, 28 de agosto, havia só duas pessoas na redação do “Estadão”. O chefe de reportagem, Perseu Abramo, e eu. Ele disse que em Porto Alegre choques armados eram iminentes, o Terceiro Exército ameaçava atacar o Palácio Piratini, sede do governo do Rio Grande do Sul. Perseu precisava mandar algum repórter para Porto Alegre urgentemente, antes que as linhas aéreas comerciais fossem interrompidas. Fiquei ali ao seu lado, torcendo para ele me mandar. Perseu me olhou, deve ter me achado “verde”. E voltou a ler jornais e telefonar.

Sempre sereno, afável, mas caladão, Perseu nessa manhã parecia impaciente. Estava esperando que aparecesse algum dos repórteres mais velhos e de confiança da direção do jornal, como José Stachini, Mascarenhas. Quem chegou foi Ivo Barretti. Fotógrafo experiente, já viera de casa pronto para viajar. Ele também trabalhava para a revista Manchete e havia um acordo de que podia fazer fotos para a revista e para o jornal.

Já eram mais de nove e meia da manhã e não chegava ninguém. Perseu telefonava, telefonava, e não encontrava os outros repórteres. O tempo passando, eu ali, colado. Perseu me mandou ver os horários de avião. Um Viscount da Vasp saía às 11h30. Depois, só às 15 horas. Podia ser que nem levantasse vôo. Não havia mais tempo. Ele me olhou de novo. Decidiu:

– Vai você mesmo!

Uau! – eu nem pensava se tinha ou não experiência, se ia correr algum perigo. Subi correndo as escadas que levavam ao sexto andar (a redação ficava no quinto) para marcar passagem, reservar hotel, pegar dinheiro. Tinha um cartão de franquia de “cable”, telegrama internacional a cabo. Tudo foi feito rápido, passei em casa – morava perto, o jornal ficava na rua Major Quedinho, 28, na esquina da avenida Consolação com a avenida São Luís, e meu apartamento, na Baixada do Glicério –, joguei umas roupas numa mala e cheguei a tempo para o vôo. Às 11h30 o Viscount decolou de Congonhas. O avião ia meio vazio, jornalistas a bordo só Ivo Barretti e eu.

Uma hora da tarde, o Viscount aterrissa em Porto Alegre. Seguimos direto para deixar nossa bagagem no hotel. No caminho, o motorista contou que poucas horas antes vários aviões da FAB haviam feito voos rasantes sobre o Palácio Piratini, pensou-se que eles iam bombardear o palácio do governo gaúcho, mas afora os rasantes nada acontecera. Corremos para o palácio, que ficava a poucas quadras do hotel. Na entrada, soldados da Brigada Militar (a PM do Rio Grande do Sul) se postavam entrincheirados atrás de sacos de areia em ninhos de metralhadora. Apresentamo-nos. Fomos levados a um oficial da Brigada. Torceu o nariz: fez um comentário sobre o fato de meu jornal estar “do outro lado”. E indicou a área à qual teríamos acesso.

Devíamos ficar no salão nobre, para onde fomos e onde encontramos um grupo de uns vinte repórteres e fotógrafos, alguns conhecidos. Todos homens. Espanto-me agora de que não houvesse uma única mulher entre eles. Na época, isso era normal. Era um grupo animado, conversei com vários deles, ainda nervosos, contando do susto que haviam passado com a ameaça de bombardeio poucas horas antes. Mas agora estava tudo calmo. Os oficiais da FAB que haviam participado da ação tinham sido presos, a Base Aérea fora tomada por militares “legalistas”, diziam.

Mas havia uma notícia ainda mais importante: o general Machado Lopes, comandante do Terceiro Exército, o maior exército do país, com toda a sua oficialidade, havia acabado de anunciar que apoiava a legalidade, o respeito à Constituição, isto é, a posse de Jango. Divulgara uma nota oficial e ao meio-dia havia feito uma visita solene ao Palácio do Governo, para solidarizar-se com Brizola.

Duas versões: a do jornal e a minha

Ivo Barretti saiu para fotografar as tropas nas trincheiras e as ruas de Porto Alegre, que estavam praticamente vazias. Eu fui para a agência telegráfica e mandei meu primeiro despacho. Relatei os últimos acontecimentos e transmiti a nota oficial do general Machado Lopes. O material foi publicado na edição do dia seguinte, 29 de agosto, sob o título “A situação em Porto Alegre”. Na edição o texto recebeu “adaptações”, assumiu um tom duvidoso, do tipo “afirma-se”, “consta”. Toda referência ao “ataque” aéreo ao Palácio Piratini fora omitida. E a nota do general Machado Lopes fora “resumida” de modo a deixar sua posição, que já era clara, indefinida. E mais: encaixado no corpo do meu texto, um “box” em tipo maior, entrelinhado, com o título “Denys tem o controle”, que começava assim: “Não obstante as notícias procedentes de Porto Alegre, informa-se que o marechal Denys, ministro da Guerra, detém o controle da situação no Rio Grande do Sul…”.

A verdade era que, naquele momento, Denys não detinha mais o comando no Sul. Certamente, o jornal estava recebendo informações do ministério da Guerra, que eram contraditórias com o meu despacho. E que eram mais do seu agrado, porque o “Estado” estava dando apoio ao golpe contra Goulart. Assim, minhas informações foram contestadas publicamente. Como as comunicações entre nós haviam sido interrompidas, e o jornal não estava chegando a Porto Alegre, só fiquei sabendo disso quando voltei a São Paulo.

Enquanto isso, em Porto Alegre, os “legalistas” estavam eufóricos. O clima continuava tenso porque não se sabia o quanto o general Machado Lopes efetivamente comandava sua oficialidade. Na época, as forças armadas estavam divididas em várias tendências. Mantinha-se de pé a possibilidade de um ataque ao Palácio por oficiais rebeldes, por aviões vindos de Santa Catarina ou por navios de guerra, que estariam a caminho. Mas a ameaça maior a partir de então passara a ser a de um confronto entre o Terceiro Exército (Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina) e o Primeiro e o Segundo Exércitos, sediados no Rio e em São Paulo. Tropas de São Paulo já se deslocavam rumo ao Paraná. O general Cordeiro de Farias foi nomeado comandante do Terceiro Exército, para substituir Machado Lopes, mas não ousou chegar a Porto Alegre para tomar posse. Seria preso.

O governador agora havia requisitado as outras emissoras de rádio de Porto Alegre e criado a “Rede da Legalidade”, que permanecia 24 horas no ar e ia conquistando adesões de outras emissoras pelo país. Foi-se formando efetivamente uma rede nacional de rádio. Brizola fazia demoradas arengas, políticos, lideranças sindicais e estudantis discursavam seguidamente conclamando a população a resistir. De vez em quando algum porta-voz vinha do gabinete do governador para nos passar informações.

No primeiro dia, Ivo Barretti e eu tentamos mandar suas fotos, mas já não havia vôos comerciais. Por isso, ninguém mandou fotos para os jornais de São Paulo e Rio.

Por ser do “Estado” eu era visto com reservas pelo pessoal do Brizola, não podia entrar pelo palácio adentro, acho que era mantido sob discreta vigilância. Em compensação, o jornal também não estava confiando em mim. Nos dias seguintes, despachos meus deixaram de ser publicados porque, ao que parece, eram contraditórios com o que convinha ao jornal informar. Além disso, do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda, que era uma espécie de guru dos Mesquita, mandava “notícias” que conflitavam com meus despachos, como dizer que havia cubanos infiltrados no Palácio Piratini. O que foi reiteradamente desmentido por Brizola.

Não me dei conta, mas estava no fio da navalha. Penso que fui honesto com o jornal. Embora pessoalmente fosse pela legalidade e apoiasse a posse de Goulart, mantive a isenção nos meus textos e na minha postura. Na ocasião, assisti a diversas adesões – algumas bem oportunistas – de jornalistas que haviam vindo para cobrir os acontecimentos. Quando houve distribuição de armas no CTG (Centro de Tradições Gaúchas) fui apenas observar, não entrei na fila, não peguei revólver como outros colegas fizeram. Tinha um compromisso com o jornal que me enviara, que era mandar as notícias que apurasse. E foi o que fiz. Entretanto, não sabia como iria me comportar se a situação mudasse, se houvesse uma guerra civil…

Matérias por táxi aéreo

Em ocasiões como essa nascem amizades entre jornalistas, a gente troca informações, divide o trabalho. Fiz amizade com o repórter da Folha de S. Paulo, Neil Ferreira, que depois se tornaria publicitário. Trabalhamos juntos, dividimos informações, tanto que posteriormente houve comentários de que a cobertura dos dois jornais ficara muito parecida.

A suspensão dos voos e dos telefones e, em seguida, a proibição à agência telegráfica de transmitir de Porto Alegre haviam deixado em dificuldade os enviados especiais brasileiros. Como fazer para continuar mandando matérias? O governo de Brizola veio com a solução. Se nos cotizássemos e pagássemos a gasolina, eles mandariam diariamente um pequeno avião até o Aeroclube de Santos. Todo dia reuníamos o dinheiro, nossos envelopes de fotos e textos, e entregávamos ao piloto. Em Santos, a cada dia, ia a viatura de um jornal apanhar e distribuir nas redações. Lembro que o Ferreira Neto, jornalista que posteriormente alcançou alguma notoriedade na TV e que viria a ser candidato ao Senado com apoio do ex-presidente Collor, viajara a Porto Alegre com a cara e a coragem, e não tinha dinheiro. Ele trabalhava para o Correio Paulistano. Eu mandava o material dele junto com o meu. Em São Paulo, o Natal Sartoretto avisava o jornal para ir buscar. E assim, suas matérias e fotos não deixaram de chegar ao destino.

Por causa da suspeição do pessoal de Brizola contra mim, por ser do “Estado”, nunca consegui informações quentes diretamente deles. Mas acabava sabendo. Devo dizer que, embora me discriminassem, nunca me hostilizaram.

Aliás, era uma bela guerra aquela: não tinha tiros, só muita conversa, muita exaltação, discursos candentes. Demonstrações de valentia por toda parte: gaúchos “pilchados” acampados nos gramados da frente do Palácio Piratini.

O hotel onde eu estava era muito bom. Pena que eu dormisse poucas horas, varávamos madrugadas entrevistando gente, escrevendo, ouvindo as fofocas. Por causa disso, eu tinha fome de leão. Lembro dos jantares da “imprensa” (imprensa eram os enviados especiais, naquela altura pelo menos meia centena) no Restaurante Treviso, perto do cais do porto, para onde íamos em grupos. Havia ali um filé mignon inesquecível.

Houve um churrasco memorável, uma noite numa certa “Churrascaria Azul” (a imagem que guardo é de um lugar simples, de paredes azuis) – chuleta macia de gado Hereford, com farinha de mandioca, salada e muito vinho tinto. Outra noite, numa escapada de carro até o Guaíba, fomos experimentar um então renomado “galeto na pedra” (o frango assava sob pedras quentes) com macarrão e polenta.

Jango chegou por Montevidéu

Os ministros militares e grande parte do “establishment” brasileiro não aceitavam Jango. Essa era a questão que incendiava os ânimos. E Jango voltava da China. Vinha devagar para dar tempo às negociações. Cada dia parava num lugar: Cingapura, Paris, Madri. Por onde iria chegar? Porto Alegre, com certeza.

Em 1º de setembro anunciou-se sua chegada a Montevidéu. Representantes de Brizola e um grupo de políticos foram ao seu encontro num avião C-47 da FAB. Um outro C-47, daqueles de transportar militares, foi providenciado para nós da imprensa. Saímos à tarde de Porto Alegre. O frio nos surpreendeu em Montevidéu. Em Porto Alegre estava muito quente. E eu vestia um paletó leve. Goulart deu uma entrevista na embaixada brasileira, enquanto eu batia os dentes.

Ele havia chegado pela manhã e ficara reunido com Tancredo Neves, líder do PSD, que formava com o PTB (partido de Goulart) a principal força de oposição ao governo de Jânio Quadros. Ao anoitecer, Jango viajou para Porto Alegre. De Montevidéu, passei um telegrama a cabo para o jornal.

Nosso avião decolou em seguida ao de Jango, inteiramente às escuras, o comandante disse que se temia um ataque de aviões da FAB sediados em Santa Catarina. Um avião “inimigo” teria sido avistado. Viajamos em completa escuridão. E fazia um frio de rachar. O avião tinha apenas bancos de madeira na disposição “espinha de peixe” de transporte militar e nenhuma forração, não havia qualquer proteção contra o frio. Um vento gelado entrava por algum canto da fuselagem.

Ficamos ali entanguidos, na escuridão mais completa, não se podia nem acender fósforo. Mas logo deixei de me preocupar (aquele ataque era muito pouco provável) e acabei dormindo, enrolado em folhas de jornal, e com os pés congelados. Acordei com alguém dizendo que estávamos chegando. Havia-se passado mais de uma hora. Aterrissamos em Porto Alegre e passamos por uma mudança radical de temperatura ao chegar ao saguão do aeroporto Salgado Filho. Era um calor abafado, uma umidade, a roupa grudava na pele. Quanto a Jango, já estava em segurança no Palácio Piratini. Para despistar, Brizola havia anunciado que ele viria por terra.

Em Brasília, o Congresso aprovou às pressas, na madrugada de 2 de setembro, uma emenda constitucional retirando grande parte dos poderes do presidente e estabelecendo o regime parlamentarista. A questão agora era se Goulart iria aceitar e assumir a Presidência com seus poderes reduzidos. As negociações continuavam freneticamente. Mas, havia inconformismo dos dois lados. Parte das altas patentes do Exército, e a quase unanimidade da Marinha e da Aeronáutica, unidas aos setores lacerdistas e antigetulistas, aos quais o “Estadão” estava aliado, se opunham a Jango sob qualquer forma de governo. O outro lado (PTB-PSD, mais nacionalistas, comunistas, sindicatos e a UNE), fortalecido pela banda legalista da oficialidade do Exército e pela posição de Brizola e do Terceiro Exército, considerava a emenda parlamentarista um golpe e não se mostrava disposto a aceitar o que considerava uma derrota.

Os acontecimentos iam comprovando que minhas matérias refletiam a realidade. As tropas de São Paulo continuavam avançando para o Paraná. O Terceiro Exército, adiantando-se a elas, deslocou rapidamente um regimento para Santa Catarina, pelo litoral e pelo interior. O que provocou um ultimatum dos adversários, que exigiam que essas tropas recuassem. A situação parecia conduzir ao confronto armado.

Uma entrevista com o general Machado Lopes

Decidi pedir uma entrevista ao general Machado Lopes. Convidei Neil Ferreira para ir junto. Fomos ao quartel-general do Terceiro Exército. Lembro que fomos a pé. Era uma tarde nublada, as ruas vazias, com um aspecto desolado. Havia cavaletes com cordas fechando a passagem em frente ao quartel. Disse o que queríamos ao sentinela. Veio o oficial-de-dia, mandou-nos entrar num pequeno hall. Foi consultar o general. Não demorou, veio a resposta. Dava a entrevista, mas tínhamos que mandar as perguntas por escrito. Vibramos.

Corremos para o hotel para datilografar as perguntas. Não me lembro como, Juan de Onis, que era o enviado especial do New York Times, ficou sabendo, “encarnou” na gente. Nós o levamos junto. Entregamos o questionário e pouco depois recebemos respostas curtas, mas afirmativas, algumas até desabridas: o general defendia a legalidade e a posse de Goulart. E não aceitava mais o comando do ministro da Guerra “porque ele me chamou de desertor”. Uma entrevista importante. Deu no New York Times. O “Estado” só veio a publicar meu texto – e ainda assim, enviesado – no dia 5 de setembro, quando a crise estava encerrada…

Goulart aceita o parlamentarismo e assume

Goulart, de estilo conciliador, queria evitar o derramamento de sangue. Na manhã do dia 2 ele já mostrava intenção de aceitar o parlamentarismo. Anunciou isso a seus aliados e, depois, aos jornalistas, em entrevista conturbada, feita em duas etapas. Na primeira tentativa, a confusão dos jornalistas foi tão grande que a entrevista teve de ser suspensa.

Sua decisão iria motivar divergências com Brizola, seu correligionário e cunhado. E decepção entre setores que haviam se mobilizado pela Rede da Legalidade. Foi nesse anticlímax, sentido fortemente por nós que estávamos em Porto Alegre, que Jango viajou para tomar posse na Presidência em Brasília, sob o regime parlamentarista improvisado. Conciliador, antes de partir divulgou uma nota em que propunha a pacificação da Nação. E se dizia feliz porque “viajo para a Capital sem marcar com o sangue generoso das famílias brasileiras as escadas que conduzem a Brasília”.

E os cubanos?

Ao voltar a São Paulo recebi apoio de alguns colegas do jornal, que me relataram as polêmicas vividas na redação em razão do tratamento dado às minhas matérias. Meus chefes nada disseram. Nem Cláudio Abramo, nem Perseu. Silêncio total. Eu me sentia à vontade, afinal os fatos haviam confirmado plenamente minhas matérias.

Dias depois, o diretor do jornal, Júlio de Mesquita Neto, chamou-me à sua mesa, que ficava a menos de quatro metros da minha, na grande redação da rua Major Quedinho, 28. Sem rodeios, perguntou:

– Você viu se havia algum cubano por lá?

Respondi sinceramente que não, pois não havia visto mesmo. Ele conversou mais um pouquinho, mas, vendo que eu nada tinha a acrescentar, encerrou.

A direção do jornal deu prêmios a todos que participaram da cobertura (vários repórteres haviam acompanhado as tropas que avançavam para o Sul). Recebi dois salários de prêmio. Tomei duas decisões. Resolvi que o jornalismo ia ser minha profissão. E encomendei a um alfaiate um elegante terno bege, comprei uma gravata de seda, uma camisa rosa de cambraia com aberturas para abotoaduras e um sapato de cromo alemão. Me senti elegante. Tomei um táxi e fui encontrar a namorada.

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sábado, 8 de agosto de 2026

O dia em que Jânio Quadros renunciou

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O dia em que Jânio Quadros renunciou

O telex começa a chacoalhar furioso, vomitando resmas de notícias. Onde está o presidente? Ninguém sabe. No Sul emerge a figura de Brizola. Diz que respeitará a Constituição e prenderá qualquer oficial que sugira o contrário

Foto: Presidente Jânio da Silva Quadros (Arquivo)
O texto a seguir abre a série Passageiro da História, em que o Outras Palavras passa a publicar as memórias do grande jornalista brasileiro, Carlos Azevedo.

Por Carlos Azevedo, em Passageiro da História

25 de agosto de 1961, um mês de agosto quente. Dia do Soldado. Parada militar em Brasília. Tudo tranquilo na redação do jornal “O Estado de S.Paulo”, na sua majestosa sede na esquina da rua Martins Fontes com Major Quedinho, centro da capital. São duas da tarde. De repente o luminoso da frente do jornal para de dar notícias. O jornalista Raul Bastos, chefe do sistema de comunicação por telefone, rádio e telex, que se comunica com cerca de 400 correspondentes no país e no Exterior, sai de sua cabine apressado. Tem uma bomba nas mãos: o presidente da República renunciou

Comunica a notícia a Perseu Abramo, o chefe de reportagem. Como assim? Deve ser boato. Qual é a fonte? Você confirmou? A fonte era o chefe da sucursal do jornal na capital federal que está ao telefone aos gritos. O telex começa a chacoalhar furioso, vomitando resmas de notícias que vão se estendendo pelo chão.

segunda-feira, 6 de março de 2023

João Goulart é Doutor Honoris Causa in memoriam

Segunda, 6 de março de 2023
                                             Bárbara Goulart (foto divulgação)

João Goulart é Doutor Honoris Causa in memoriam

2 de março de 2023

O Conselho Universitário da Universidade Santa Úrsula outorgou o título de Doutor Honoris Causa in memoriam ao Presidente João Goulart, na última quarta-feira, dia 1º de março, quando ele estaria fazendo mais um aniversário. A honraria foi entregue à viúva de Jango, dona Maria Thereza Fontella Goulart que, na cerimônia, estava acompanhada dos filhos, João Vicente e Denize, e das netas Bárbara e Isabela.

No dia 1º de março de 1919, nascia em São Borja, no Rio Grande do Sul, o menino João, filho de Vicente Rodrigues Goulart, um estancieiro, coronel da Guarda Nacional, e de Vicentina Marques Goulart, uma dona-de-casa, devotada à família. Desde cedo, esse guri recebeu o apelido de “Jango”, ou “Janguinho”. Ainda criança, se apaixonou pelo futebol, jogando como lateral-direito, no Sport Club Internacional. Já em Porto Alegre, cursou a Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Após a renúncia do Presidente Getúlio Vargas, em outubro de 1945, Jango escolheu a carreira política, aceitando o convite de Getúlio para ingressar no PTB local e, mais tarde, tornar-se-ia presidente do PTB estadual e nacional. Em 1947, Getúlio convenceu-o a concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa, sendo eleito. Em 18 de abril de 1950, Jango anunciou a candidatura de Vargas e, nesse mesmo pleito eleitoral, foi eleito para a Câmara dos Deputados.

Vargas, em 1953, nomeou Jango Ministro do Trabalho. Como ministro, optava por negociações entre grevistas e patrões, em vez de métodos repressivos.

Após a morte trágica de Vargas, Jango, deprimido, pensou em se afastar da política. No enterro de Vargas, declarou: “Nós, dentro da ordem e da lei, saberemos lutar com patriotismo e dignidade, inspirados no exemplo que nos legaste”.

Em outubro de 1955, o PSD lançou Juscelino Kubitschek como candidato à Presidência e Jango, pelo PTB, à Vice-Presidência. JK foi eleito com 37% dos votos no dia 3 de outubro, e Jango foi eleito com mais de 500 mil votos que o seu companheiro de chapa.

Pela capacidade de negociar com o movimento sindical, Jango foi em grande parte responsável pela estabilidade política do Governo JK.

Em fevereiro de 1959, foi lançada a candidatura de Lott, e Jango considerava essa candidatura fraca. Pela fraqueza eleitoral de Lott, apareceu a chapa informal “Jan-Jan”, ou seja, “Jânio-Jango”. Jânio Quadros e João Goulart são eleitos Presidente e Vice-presidente da República.

No dia 25 de agosto, Jânio renunciou ao cargo, com Jango em visita oficial a China.

Com o apoio de alguns coronéis e do povo, Brizola inicia a Campanha da Legalidade. Na manhã do dia 26, o país amanheceu num estado de sítio não oficial. No dia 31, aumentava o risco de guerra civil, pois militares de todo o país ficavam ao lado da legalidade e havia o risco de conflito entre as forças de Brizola e do governo.

No dia 1º de setembro, Tancredo Neves foi ao Uruguai discutir com João Goulart. De acordo com Tancredo, Jango tinha resistência ao parlamentarismo, mas terminou o aceitando devido ao risco de mortes. O Congresso Nacional aprovou a emenda parlamentarista. Jango chegou a Brasília no dia 5 de setembro e assumiu a presidência no dia 7 de setembro de 1961.

O seu governo pode ser dividido em duas fases: Parlamentarista: de setembro de 1961 a janeiro de 1963. O primeiro gabinete, chamado de “Conciliação Nacional”, foi nomeado dia 8 de setembro, tendo Tancredo Neves como primeiro-ministro. Em 26 de junho de 1962, o primeiro gabinete pediu demissão para concorrer às eleições de outubro. Brochado da Rocha teve sua indicação como primeiro-ministro aprovada pelo Congresso Nacional, no dia 10 de julho. Brochado renunciou e Hermes Lima foi empossado, dia 19 de setembro de 1962.

Durante a fase parlamentarista, os poderes políticos do presidente foram diluídos e a figura mais importante no governo era o primeiro-ministro. Isso foi a forma encontrada para que os militares aprovassem a posse de Jango, mas também não durou muito. Um plebiscito realizado em 1963 determinou o retorno do presidencialismo no Brasil.

A fase Presidencialista durou de janeiro de 1963 a abril de 1964. João Goulart era um quadro progressista, e a sua presença na presidência do país incomodava grupos da elite daqui e de nações poderosas, como os Estados Unidos, que, no contexto da Guerra Fria, atuavam consistentemente para derrubar lideranças progressistas em todo o continente americano, sobretudo depois do exemplo cubano.

O presidente engajou-se em um programa de reformas estruturais no país que ficou conhecido como Reformas de Base. No que se refere a essas reformas, destacaram-se no governo João Goulart as seguintes medidas: Reforma Agrária; Reforma Educacional; Reforma Fiscal; Reforma Eleitoral; Reforma Urbana e a Reforma Bancária. As Reformas de Base propostas por Jango, mas não implementadas, moldaram o Estado brasileiro depois da redemocratização, inspirando a Constituição Brasileira de 1988.

Desgastado com a crise econômica e com a oposição de militares, o presidente procurou fortalecer-se, participando de manifestações e comícios que defendiam suas propostas. A manifestação mais importante ocorreu no dia 13 de março de 1964. O Comício da Central reuniu 150 mil pessoas. Em seu discurso, Goulart anunciou uma série de medidas que estavam no embrião das reformas de base; defendeu a reforma da Constituição para ampliar o direito de voto a analfabetos e militares de baixa patente; e criticou seus opositores que, segundo ele, sob a máscara de democratas, estariam a serviço de grandes companhias internacionais e contra o povo.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Caiu a ficha. "Depois do entreguismo subterrâneo do Pré-sal, só resta a terceira via"

Sábado, 27 de fevereiro de 2016
"Basta de discursar pelos pobre outorgando privilégios para os barões da mídia e para banqueiros. Fazendo concessões espúrias no apagar das luzes."
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*João Vicente Goulart
Jango golpeado pelas “Reformas de Base”              

O que vimos ontem [24/2/2016] na votação do PLS 131 da Petrobras foi vergonhoso, rasteiro, inoportuno com nossa história de lutas a mercê da traição governamental da qual tínhamos esperança de resistência.

Estamos, todos aqueles que amamos o Brasil e nossa nacionalidade, iludidos, magoados e com muita falta de esperança, roubada no mais indigno e subterrâneo ocaso oportunista da subtração de nossos princípios de luta, com a atitude do governo ao negociar por debaixo do tatame a entrega do Pré-sal, e a retirada da Petrobras do controle dos investimentos de nossas riquezas petrolíferas.

A negociação espúria, ao apagar das luzes, deixou os próprios parlamentares da base a ver navios.Navios negreiros, navios dos anjos negros, navios das sete irmãs petroleiras internacionais que naquele momento zarpavam e começavam a navegar a partir de nossas costas, transportando nossas esperanças como fizeram portugueses e espanhóis na nossa América Latina colônia. O ouro mudou de cor, mas não mudou de dono.

Sentimo-nos traídos e pior, desamparados por quem acreditávamos estar confiando e defendendo o patrimônio público de nossa Pátria.

A surpresa após a votação no Senado com o placar de 40 a 26, com duas abstenções, negociados dentro do Planalto com a oposição na parte da tarde, retirando da Petrobras a primazia do direito de exploração do Pré-sal, foi um ato de covardia, pois, não precisava tanto, bastava então, entregar o governo aos grandes bancos, aos interesses multinacionais, ao mercado ou, se quisessem aos perdedores da eleição de 2014, para que capitaneassem  essas naves junto aos entreguistas e outros mercadores do destino nacional,  terminando de privatizar o Brasil, ou melhor, continuar a vendê-lo como fez  o príncipe guru das privatizações, FHC, lesando a Pátria, seus filhos e descendentes, como um verdadeiro Pizarro, sangrando as “veias abertas” de nosso povo.

Está na hora de repensar nosso destino, nossos caminhos, reaver nossas esperanças e mergulharmos na história do trabalhismo; reagrupar as forças, extrair de nossas raízes os exemplos de lutas e de propostas da resistência nacional.  E, para tanto, temos direito de chão adquiridos ao longo de nossa trajetória.

Temos história de sobra para isto.

O trabalhismo propôs ao país o salário mínimo, a CLT, o voto feminino, a organização sindical, a reforma agraria, a reforma tributária, taxando o patrimônio das empresas, não os assalariados. Propusemos a reforma educacional, a lei do controle das remessas de lucros, a reforma urbana, a reforma bancaria que nenhum outro governo se animou a tocar; já desapropriamos empresas estrangeiras que exploravam e sugavam os trabalhadores brasileiros, já encampamos refinarias e outorgamos o monopólio à Petrobras, tanto da extração quanto do refino e já mostramos do que somos capazes, sem temer as reações dos prepotentes das baionetas e dos donos do capital.


Já é hora de lembrar isto ao povo brasileiro: nossas riquezas são nossas e não de quem tenha mais.

A democracia é a arte política da maioria de conquistar novos objetivos e não pode ser traída por interesses pessoais imaginando a eventualidade da ruptura institucional, arquitetada por manipulações subterrâneas em tribunais não representativos ou eleitos.

Já sofremos golpes contra nossas propostas, já amargamos exílio por não trair as conquistas sociais e políticas do nosso povo. Mas continuamos a almejar a libertação de nossos trabalhadores, donos reais de todas as riquezas desta terra miscigenada e brasileira.

A eleição de 2018 está próxima e nós temos história, nela temos propostas e no caminho desafios.

Falta botar a coragem na rua, “nas praças que são do povo e só ao povo pertencem”, e como disse também  Jango, alertando os falsos democratas:
  
-“​"Desgraçada a democracia se tiver que ser defendida por tais democratas.
 
Democracia para esses democratas não é o regime da liberdade de reunião para o povo: o que eles querem é uma democracia de povo emudecido, amordaçado nos seus anseios e sufocado nas suas reinvindicações.

A democracia que eles desejam impingir-nos é a democracia anti-povo, do anti-sindicato, da anti-reforma, ou seja, aquela que melhor atende aos interesses dos grupos a que eles servem ou representam.

A democracia que eles querem é a democracia para liquidar com a Petrobrás; é a democracia dos monopólios privados, nacionais e internacionais, é a democracia que luta contra os governos populares e que levou Getúlio Vargas ao supremo sacrifício."

Nossa proposta deve ser clara, objetiva e transformista, na legalidade constitucional, na doutrina que nos orienta do positivismo, mas além de tudo ampla e nacionalista. Vamos propor a nossa luta sem dissimulo, vamos propor a retomada e reestatização da Vale, da Embratel, Telesp, Telemar, CEEE, CSN, BEG, BEA, etc., etc. e de tantas outras privatarias que não caberiam neste artigo.

A terceira via está em curso. É o trabalhismo nacionalista.

Tem cara e tem coragem, tem história e realizações suficientes para a retomada da Pátria, para a retomada da soberania, da dignidade, da educação e das oportunidades iguais para todos.

Basta de conversinhas meritocratas em um país tremendamente injusto e sem igualdade de oportunidades.

Basta de discursar pelos pobres outorgando privilégios para os barões da mídia e para banqueiros. Fazendo concessões espúrias no apagar das luzes.

O bipartidarismo entre oposição e governo está no fim, está nas mãos do povo brasileiro em 2018, construir a terceira via.

A terceira via é a via trabalhista e nacionalista, vamos abraçar esta luta, vamos abraçar o Brasil.

Com liberdade não ofenderemos, não temeremos e muito menos compactuaremos com os direitos de nossos trabalhadores.
 
*João Vicente Goulart
Diretor do IPG- Instituto Presidente João Goulart