Terça, 24 de abril de 2018
Por
https://ponte.org
Marielle foi ‘um projeto da Maré’, fruto de anos de luta por inclusão; moradores da favela sentiram a morte dela como um recado: ‘vocês cresceram demais’

“Vai lá, sim, Maria, mas vai com cuidado e carinho, porque as pessoas ainda estão sofrendo”, disse para mim um dos contatos que fiz, por telefone, antes de visitar a favela da Maré, na zona norte do Rio. Encontrei muita dor e saudade ali. Também medo. E um bocado de revolta. Alguns ainda não gostam de falar sobre tudo o que aconteceu a uma de suas mais ilustres filhas: a vereadora Marielle Franco, morta com quatro tiros na noite de 14 de março, ao lado do motorista Anderson Gomes, num crime que continua sem solução.
Quando falam dela, em quase todos os momentos, amigos usam o verbo no presente. “O que Marielle foi? O que é Marielle”, me corrigiu, em determinado momento, o geógrafo Lourenço Cezar da Silva, 47 anos, que foi amigo dela por mais de 20 anos – quase a mesma idade da filha de Marielle, Luyara, que hoje tem 19. Eu tinha perguntado que palavra simbolizava a vereadora. “Favela. Tá na cara dela: favelada. Tudo em torno da Marielle sempre singulariza a questão da favela. As possibilidades de uma mulher sofrer o que ela sofreu na favela são imensas. Acontece todo dia, né? E tem mais: quando a coisa aperta aqui, é a mulher que toma a frente. Se vier um policial agora e quiser me arrastar, a única figura que pode ser que ele respeite é a mulher”, pondera. “A Marielle é um projeto nosso, porque a formação que a gente tem até hoje [do cursinho comunitário] é pra ocupar esse lugar que a ela ocupou. A gente já estava pensando em novos quadros para ocupar outros espaços”.


