Como a publicidade digital desafia a proteção da amamentaçãoA alimentação na primeira infância deveria ser cercada de cuidado, informação clara e de qualidade e apoio às famílias. Mas o que o relatório do Monitoramento NBCAL 2025 mostra é que o ambiente digital vem se tornando um espaço cada vez mais agressivo e contrário à proteção da amamentação. Nós acompanhamos de perto essa discussão porque defender a amamentação também é defender a saúde pública, os direitos das pessoas consumidoras e uma infância mais protegida. E os dados mais recentes do monitoramento realizado pela Rede Internacional pelo Direito de Amamentar (IBFAN Brasil) ajudam a entender por que esse debate continua tão urgente. 1. As redes sociais viraram o principal espaço de irregularidadesUm dos dados que mais chama atenção no relatório é o crescimento das violações da NBCAL nas redes sociais. Em 2022, elas representavam 5% das infrações observadas. Em 2025, esse número saltou para 30,1%. O Instagram concentra quase 80% dessas ocorrências. E não estamos falando apenas de anúncios tradicionais: muitas vezes, a publicidade aparece disfarçada de dica, rotina materna, indicação “espontânea” ou conteúdo de influenciadores. Esse cenário preocupa porque os algoritmos funcionam justamente ampliando o alcance desse tipo de conteúdo. Quando alguém interage com uma postagem sobre fórmulas infantis, mamadeiras ou chupetas, a tendência é que mais conteúdos semelhantes passem a aparecer no feed desse usuário. O relatório aponta que essa dinâmica transforma a publicidade em algo contínuo, automático e difícil de escapar. 2. Influenciadores também fazem parte da estratégiaOutro ponto importante do monitoramento é o papel dos criadores de conteúdo digitais. Cerca de 26,7% das infrações em redes sociais estavam em perfis de influenciadores. Muitas vezes, a publicidade acontece por meio da chamada “promoção cruzada”: quando marcas promovem produtos liberados para crianças maiores, mas utilizam embalagens, nomes e identidades visuais muito parecidas com fórmulas destinadas a bebês menores de um ano, cuja promoção é proibida. Na prática, isso cria um ambiente de marketing indireto que pode confundir famílias e enfraquecer políticas de incentivo ao aleitamento materno. 3. O problema não está só nas redesO relatório também encontrou violações em lojas físicas, websites de vendas, rótulos e materiais educativos. Foram identificadas 156 infrações confirmadas em 2025. Nos websites de vendas, por exemplo, mais da metade das violações envolviam bicos, chupetas e mamadeiras, cuja promoção comercial é proibida pela legislação. Já em materiais educativos, apareceram conteúdos produzidos por empresas e divulgados como orientação ou informação, mesmo quando promoviam produtos abrangidos pela NBCAL. Isso é especialmente delicado porque mistura publicidade com educação, dificultando que as famílias identifiquem interesses comerciais por trás das mensagens. 4. A fiscalização ainda enfrenta muitos desafiosO monitoramento reforça que o ambiente digital exige atualização constante das estratégias de fiscalização. Marketplaces, anúncios patrocinados, influenciadores e publicidade em vídeos curtos e voláteis criam novas formas de divulgação que, muitas vezes, escapam das regras pensadas para o comércio tradicional. Ao mesmo tempo, o relatório mostra que a mobilização da sociedade civil continua fundamental. Em 2025, foram elaboradas 89 notificações educativas para empresas e perfis responsáveis pelas infrações. Parte delas respondeu afirmando que iria adequar suas práticas. 5. Defender a amamentação também é defender informação de qualidadeQuando falamos sobre amamentação, não estamos falando apenas de uma escolha individual. Estamos falando de um ambiente inteiro de influência comercial, publicidade e disputa por atenção. Por isso, fortalecer políticas públicas, ampliar a fiscalização e garantir informação clara para as famílias é tão importante. Nós seguimos acompanhando esse cenário e apoiando iniciativas que protegem o aleitamento materno e o direito das pessoas consumidoras à informação adequada. Acompanhe o monitoramento da NBCAL realizado pela IBFAN. |