Segunda, 1º de janeiro de 2023
O colonizador do presente é tão ou mais cruel do que o espanhol das narrativas apresentadas. É o sistema financeiro apátrida, sustentado pela ideologia neoliberal. Nele a fome e a miséria, a doença e a escravidão são consequências desejadas e inevitáveis do Deus mercado e seus mandamentos do Consenso de Washington.
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Pedro Augusto Pinho
AMÉRICA LATINA SEM SOBERANIA — CRÔNICAS DE ARROGÂNCIA, RAPINA E MALDADE
2ª Crônica: OS MEXICANOS PELOS ASTECAS
Náuatle, também denominada asteca ou mexicana, é a língua pertencente à família uto-asteca, usada pelo povo náuatle e falada, no território atualmente correspondente à região central do México, por menos de milhão e meio de pessoas.
Foi o idioma dos astecas, que dominavam o México central durante o fim do período pós-clássico, da cronologia mesoamericana. A expansão e influência do Império Asteca fizeram com que o dialeto falado e escrito pelos astecas de Tenochtitlán se tornasse o de prestígio na Mesoamérica deste período. Com a introdução do alfabeto latino, o náuatle se tornou língua literária e muitas crônicas, obras poéticas e códices foram escritos neste idioma nos séculos XVI e XVII.
Às cartas de Hernán Cortés (1485-1547), assim como os Relatórios endereçados ao rei Carlos V, os relatos dos habitantes, então senhores do “Paraíso”, colhidos entre 1550 e 1555, pelo frei Bernardino de Sahagún, e que constituem o Livro XII, da “História geral das coisas da Nova Espanha” (encontrado na Biblioteca Nacional de Paris, na coleção Goupil, sob o título “Anais históricos da nação mexicana”), estes relatos em náuatle formam o contraponto dos nativos às narrativas dos conquistadores.
Temos esta oportunidade pelo empenho do antropólogo, historiador e linguista francês, Georges Baudot, nascido em Madri, em maio de 1935, e falecido em Toulouse, em abril de 2002, ainda lecionando na Universidade onde obtivera seu doutorado (1975).
O trabalho de Baudot, que será apresentado nesta Crônica, está em “Relatos Astecas da Conquista” (“La Conquête: récits aztèques”, 1983) na tradução de Luiz Antonio Oliveira de Araújo, para Editora Unesp, SP, 2019. A ele agregamos trechos do Frei Bartolomé de Las Casas, na edição da L&PM (1984), com tradução de Heraldo Barbuy, em “O Paraíso Destruído”.
A CHEGADA AO PARAÍSO
O homem surgiu em condições especiais e específicas em área do leste da África. O hominídio mais antigo data de 5.300.000 anos e foi encontrado no Quênia. Sempre pelo método do potássio-argônio, têm-se descobertas de 2 a 4 milhões de anos na Etiópia, e de 1.750.000 anos na Tanzânia.
Basil Davidson (1914-2010), historiador e africanista britânico, em “À descoberta do passado de África” (1978), na edição especial para o Ministério da Educação da República Popular de Angola (1981), apresenta quadro da evolução do “homo sapiens”, tendo origem em 35 mil a.C. Observando os paralelos terrestres, esta região compreendida no entorno da linha do Equador, da Etiópia à Tanzânia, só encontra similar terrestre em ilhas da Malásia e Indonésia, ou na América do Sul, na parte norte da Amazônia: brasileira, venezuelana e colombiana. Faltavam, no entanto, outros requisitos, só encontrados na África, para o surgimento do homem.
Aceitando que o homem chegou à América, pelo Estreito de Bhering, em 12 mil a.C., nossos ancestrais levaram 23 mil anos do leste da África à América. Certamente chegaram muito mais sábios, experientes, do que saíram do leste da África, e, igualmente, daqueles que se acomodaram pela África, pela Ásia Menor, Mesopotâmia ou Europa.
Basta ver os desafios impostos pelas condições geográficas, pelos animais, florestas e desertos que tiveram que enfrentar.
O homem ocidental já no povoamento da Terra começa a se distinguir do homem oriental. Nos séculos 13 a 15, estas características começarão a ser relevantes pela atividade comercial. O Ocidente aprendeu com os chineses a fabricar o papel e a fazer a impressão, a produzir a pólvora, o macarrão, a seda e a usar a bússola e o carrinho de mão.
Porém, enquanto no Oriente estes conhecimentos serviam para melhorar a vida, promover conforto e alegria, no Ocidente orientou para conquistar terras e submeter seus semelhantes.
Há, portanto, que acreditar nos orientais, que atravessaram o Estreito de Bhering, muito mais do que naqueles que aqui chegaram em naus inglesas, espanholas, holandesas, portuguesas ou francesas. Uns vinham buscar condições mais confortáveis de vida, desenvolver seus conhecimentos, outros para conquista de terra e de gente.
O ingresso dos migrantes pela ponte de gelo formada no último período glacial, glaciação Würn há 150 mil anos, conforme vários antropólogos, deu-se em três levas, separadas no tempo. Porém, aceitando a hipótese de Charles Mann e do avanço tecnológico dos orientais, é bem possível que uma das formas de chegada à América tenha sido por embarcações. Teríamos assim dois modos e três épocas da chegada dos humanos à América.
Como se sabe, a costa oeste do Canadá e dos Estados Unidos da América (EUA) não são hospitaleiras. Além da glaciação de certo modo recente, a cadeia das Montanhas Rochosas segue por mais de 4 800 quilômetros, a partir da parte norte da Colúmbia Britânica, no oeste do Canadá, até o Novo México, nos EUA, com relevos de 4.000 metros. Ainda hoje é pouco habitada. Na região oeste, próxima às Rochosas, ocorre um grande vazio demográfico por conta do clima. Na região do meio-oeste, formam-se grandes pradarias, com a bacia fluvial do Mississipi-Missouri, onde o encontro de massas de ar frio, vindas do Canadá, e de ar quente, vindas do golfo do México, tornam frequentes os grandes e destruidores tornados.
Assim, a geografia explica porque os primitivos habitantes caminharam até o México para construir seu primeiro habitat.
E a partir do México chegaram à América do Sul, igualmente, seguindo a oeste do continente, formando os dois grandes polos civilizatórios: o mesoamericano, do México à Costa Rica, e o andino, na porção oeste da América do Sul. Identifica-se também outro polo, o Amazônico, que compreende a bacia do rio Amazonas e chega ao nordeste brasileiro.
A passagem destes primitivos habitantes para a costa leste deve ter-se valido dos grandes complexos fluviais, do Amazonas ao norte, e da bacia Paraná-Paraguai, abrangendo o centro-oeste, sudeste e sul brasileiros, o Paraguai, a Argentina e o Uruguai.
Tem-se então a perspectiva da formação das identidades e das civilizações, construídas ao longo de 12 mil anos, e destruídas em dois séculos com a chegada dos europeus.
Pode-se definir o início do projeto de conquista e da destruição da cultura asteca com a chegada de Hernán Cortés, em 1504, na atual República Dominicana. Aproveitando-se de desavenças entre os governantes, com 600 homens adestrados para guerrear, colocou a frágil população, que não se preparava como os espanhóis para guerra (vide as lutas contra os muçulmanos), diante do extermínio ou da união com aqueles seres a cavalo com armaduras, lanças e espadas de metal.
Nas cartas anteriormente citadas, Cortés procurava se defender da avaliação de outros espanhóis como pessoa ambiciosa, indigna da confiança de Carlos V. Tanto que, entre 1528 e 1530, viajou à Espanha para garantir sua fidelidade ao rei, mas que o nomeou Marquês, e não Governador, como esperava.
AS NARRATIVAS
Selecionamos textos dos habitantes do México, escritos em seu idioma, e de Frei Bartolomé de Las Casas, conforme já apresentados.

