Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sábado, 28 de outubro de 2023

As esquerdas e o desafio de voltar ao combate

Sábado, 28 de outubro de 2023

As esquerdas e o desafio de voltar ao combate

Roberto Amaral* 

 
"O socialismo comprometido com a democracia burguesa ainda é uma forma de reprodução do sistema capitalista de poder"
– Florestan Fernandes
 
 Em entrevista à revista Casa de las Americas (Cuba), no início de 1990, Darcy Ribeiro fala-nos do desalento que naqueles idos se aplacava sobre os movimentos populares e socialistas: a esquerda latino-americana desanimada, a esquerda mundial acovardada. Naquela altura, no Brasil, sob o pálio da Nova República, vivíamos a experiência dos governos neoliberais, vencidos os sonhos libertários da luta contra a ditadura. Conquistáramos a democracia burguesa, numa guerra que conheceu o ferro e o fogo, deixando cicatrizes irremovíveis, mas estávamos ainda mais distantes da reforma social, razão de tudo. As consabidas dificuldades de compreender o processo histórico paralisam o movimento social e seus pretensos condutores se quedam, atônitos, sem saber o que fazer. Os céus sem nuvem e sem estrelas não sugerem caminhos. Por não haver entendido o significado da “revolução brasileira”, não tivemos condições de sustentar o governo Jango; por não havermos compreendido a natureza do golpe de 1964, ficamos impossibilitados de travar o combate que as condições históricas indicavam. Após 21 anos de ditadura, os militares preestabelecem as condições de descida da rampa do Planalto, e o regime da caserna, decaído, se projeta no regime da redemocratização.  

   O desânimo que afligia a geração dos anos 90 alcançava o observador privilegiado, que se descobre, ele também, desamparado da esperança utópica, um projeto de ser, aquele valor que separa o guerreiro do homem medíocre e opera como fonte de vida histórica: “Sendo como sou um homem de esquerda, me dói este sentimento desesperançado que encontro aonde vou”. Inclusive entre os jovens, que não são mais os que o antropólogo conheceu nas barricas parisienses de maio de 68.

Darcy não cogita do pano de fundo histórico da tristeza e da apatia da alma ocidental na última década do século: o desmoronamento da mais bela utopia humanista que o homem já concebera, despedaçada nos escombros daquilo que se convencionou denominar de “socialismo real”. O mundo dos sonhos cedia espaço à desesperança.

Despida de desafios, sem alternativas por construir, e plena de dúvidas e de interrogações, a política fracassara. Era o momento azado de balanços políticos e existenciais sobre os 74 anos da revolução russa, posta na soleira da história. Encerrava-se, em dezembro de 1991, com um suicídio burocrático, uma longa e dolorosa saga de lutas por transformação social. Encerravam-se as expectativas ensejadas pela vitória sobre o fascismo na Segunda Guerra Mundial, mas a sociedade solidária e a paz continuavam distantes.  Diante de uma humanidade perplexa, jazia, sem luta, sem resistência,  o campo soviético que  anunciara ao mundo a alvorada: promessa de contenção do imperialismo e esperança de construção de uma nova ordem mundial, livre do colonialismo e do imperialismo. Sua queda representava a derrota de todos os revolucionários do mundo naquele século, e anunciava a vitória final e definitiva do capitalismo. A esquerda, em todo o mundo, despreparada para a orfandade inesperada, se quedava sem espólio, e caminhava claudicante à procura de um ponto de apoio, fosse de recuo, fosse a imaginação de um novo sonho (sem o que é impossível lutar), fosse a expectativa de recuperação de seus valores ameaçados. A URSS, a Roma dos comunistas e socialistas, optara pela autoimolação e seu fracasso abria o cenário para a  onipotência estadunidense. O fim da história era o decreto que se abatia sobre as grandes massas trabalhadoras, condenadas a uma diáspora ideológica. 

Findava-se a era das utopias.

A debacle soviética (e com ela o fim de uma ortodoxia doutrinário-ideológica) havia enterrado o projeto do “socialismo real” (o único que se pensava possível) e punha em questão a força libertária do marxismo-leninismo, nada obstante ainda estivesse presente a dedicação dos comunistas e socialistas na luta por um mundo que antes parecia caminhar para uma sociedade, senão igualitária, certamente menos iníqua em comparação àquela que herdávamos.  Já seria uma vitória havermos chegado ao final do século XX vendo à distância a ameaça do armagedon nuclear, e os comunistas se identificavam, em todo o mundo, na defesa da paz. Nem tudo era perda, por certo, mas a derrota do modelo burocrático abalara, em todo o mundo, o projeto socialista, demolindo uma a uma suas praças, a começar pela batalha ideológica, trazendo à cena a crise dos partidos.

Os partidos comunistas e socialistas pagariam o preço da autodissolução, e o ponto de incisão foram os grandes partidos comunistas da Itália e da França. Cada um, segundo sua natureza e sua história, em processo que percorreu o mundo, conheceu a partir dali sua decadência. E dela não se viu livre a América Latina. Ficara o que Darcy identificava como “a falta de ter em que acreditar, até entre gente jovem”.