Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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domingo, 14 de junho de 2026

Os juros altos e a desculpa esfarrapada do 0,1%



Domingo, 14 de junho de 2026

Os juros altos e a desculpa esfarrapada do 0,1%

No momento em que o Banco Central prepara-se para manter ou elevar as taxas mais altas do mundo, vale um pouco de teoria. Por que o remédio é ineficaz contra a inflação vivida pelo Brasil? Como ele agrava a desigualdade e mantém o país em estado de regressão prolongada?

OUTRASPALAVRAS                      Mercado x Democracia
Matéria originalmente publicada no OUTRASPALAVRAS de 10/06/2026

Imagem: Gary Waters/Ikon Images

Por Luiz Martins de Melo, no Terapia Política

A inflação que afeta o Brasil é impulsionada por turbulências geopolíticas, preços de energia em alta e cadeias de suprimentos frágeis, em vez de excesso de demanda. No entanto, os formuladores de políticas continuam a tratar isso como um problema monetário, confiando em uma ferramenta que não pode abordar as causas subjacentes.

O Banco Central continua com a sua decisão de manter as taxas de juros elevadas como um exercício de prudência. Com a inflação voltando a subir, mesmo com o crescimento desacelerando, a autoridade monetária enfatiza a paciência e a “dependência dos dados” como o caminho responsável — uma abordagem moldada sobretudo por temores persistentes de repique inflacionário.

A pergunta que importa para a sociedade não é por quanto tempo os bancos centrais podem manter as taxas de juros elevadas ou o ritmo do aperto monetário. É se os formuladores de políticas conseguem manter a ficção de que taxas de juros mais altas são uma resposta eficaz, ou até neutra, às pressões inflacionárias que o Brasil enfrenta atualmente.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Varoufakis: Quem precisa de Marx em 2025?

Quarta, 6 de agosto de 2025

No século XIX, ele já havia descrito a alienação — um fenômeno que se agigantou e agora nos oprime como nunca. Talvez dissesse, diante do capital contemporâneo: “Corporações querem espoliar nossos cérebros, mas podemos retomar o controle”

OutrasPalavras                                Pós-Capitalismo
Publicado no OUTRASPALAVRAS em 01/08/2025


Por Yanis Varoufakis | Tradução: Antonio Martins

Uma jovem que conheci recentemente observou: o que a enlouquecia não era o mal absoluto, mas as pessoas ou instituições que, tendo capacidade de fazer o bem, agem, em vez disso, para prejudicar a humanidade. Seu comentário me fez pensar em Karl Marx, cuja crítica ao capitalismo era exatamente essa: não tanto por ser explorador, mas por nos desumanizar e alienar, apesar de ser uma força tão portadora de progresso.

Sistemas sociais anteriores podem ter sido mais opressivos ou exploradores que o capitalismo. No entanto, só sob a lógica do capital os seres humanos fomos tão completamente alienados do que produzimos e da natureza; tão separados de nosso trabalho; tão privados até mesmo de um mínimo de controle sobre o que pensamos e fazemos.


O capitalismo, especialmente após entrar em sua fase tecnofeudal, transformou-nos em versões de Caliban ou Shylock — mônadas num arquipélago de egos isolados, com qualidade de vida inversamente proporcional à abundância de bugigangas que nossas máquinas de novidades produzem.

Os jovens sentem isso. Mas a reação contra imigrantes e a política identitária os paralisam – para não falar na distorção algorítmica de suas vozes. É aqui que Marx reaparece com conselhos para superar essa paralisia — bons conselhos, soterrados pelas areias do tempo.