Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)

sábado, 6 de abril de 2019

Máscaras caindo: "Não nasci para ser presidente: nasci pra ser protagonista buffo em ópera de rua do maestro Jorge Antunes". Vem aí O EXFAKEADO, em 23 de maio

Sábado, 6 de abril de 2019

'O EXFAKEADO', a ópera de rua do Maestro Jorge Antunes, terá sua primeira apresentação no dia 23 de maio, em frente à Casa do Professor (ADUnB – Associação do Docentes da UnB), no Campus Darcy Ribeiro, UnB, Brasília. Professor da UnB, Universidade de Brasília, o Maestro Jorge Antunes não poderia ter escolhido melhor local para a estreia de sua ópera de rua 'O Esfakeado'.

Até os eleitores do Exfakeado já sabem que ele não nasceu pra presidente. Alguns fãs de Bolsonaro, é possível, até não têm certeza da sua inaptidão (do 'mito' —entre aspas, entes aspas— para o cargo, mas já desconfiam que a Presidência não é a praia —ou o campo— do Exfakeado. 

Então, marquem aí na agenda. No dia 23 de maio estreia da ópera de rua 'O EXFAKEADO', em frente à Casa do Professor —ADUnB— na Universidade de Brasília.

Saiba mais sobre:

O EXFAKEADO

ópera de rua

libreto e música de
Jorge Antunes

março de 2019


Do site


O EXFAKEADO

ópera de rua

libreto e música de
Jorge Antunes

março de 2019

Se preferir vá direto à fonte acessando o link http://jorgeantunes.com.br/pt/o-exfakeado/

            A história se passa em Brasília, durante o carnaval. É época de eleições para escolha da nova diretoria da Associação Cultural Pacotão, sociedade que todo ano coloca na rua seu famoso bloco carnavalesco “O Pacotão”.
            Existem 8 candidatos à presidência da Associação:
            Pastor Falamaia, sambista que sempre manda “malhar” os infiéis que se fantasiam de mulher no carnaval. Quando isso acontece ele começa a gritar: – Maia! Maia! É por essa razão que o chamam de “Fala maia”.
            Eskindô-Jonum, um sambista norte-coreano, gordinho e baixo, que defende o envenenamento de seus opositores e é amado por seus eleitores. Ele é o candidato representante dos sambistas do Morro Enanvejutudo.
            Reembolso-Nário, sambista neo-nazista que obriga seus correligionários a reembolsarem, para seu bolso, 30% de seus salários. Ele representa os sambistas do E-Morro Óida que são beneficiários de bolsa famíliostomia.
            Ostra Brilhante, sambista do Morro da Pérola Doi-doi Códi, que ao sambar costuma dar umbigada, rasteira e porrada.
            Alessandro Fruta, sambista ex-ator pornô, que ainda hoje gosta de dar beijo técnico, dar o cu técnico e comer cu técnico. Em sua plataforma para a direção da Associação ele propõe o projeto “Marchinhas sem Partido”.
            Donald-Trompa, compositor de marchinhas de carnaval, que quer construir um muro em torno da sede da Associação Cultural Pacotão, para evitar a entrada dos sambistas do Morro Enanvejutudo.
            Goiabosa Dos Mares de Jesus, sambista porta-bandeira que defende o fim da ideologia de gêneros musicais. Propõe o fim da ópera, o fim da sinfonia, o fim do choro, para que seja praticado apenas o gênero “marchinha” com carnavalescos vestidos de azul e carnavalescas vestidas de rosa.
            General da Banda-Mourão, militar da reserva técnica do Morro Derrir, que defende a criação de ostras brilhantes nas costas brasileiras. Sua candidatura está propensa a ser retirada, para ser vice do candidato Reembolso-Nário.
            Sergio Des Moro-Alisado, sambista chefe justiceiro do Morro do Cu Ritiba. Pretende abandonar o Morro e ser presidente da Associação do Pacotão para abraçar a causa dos milicianos protetores das tradições carnavalizantes.
Outros personagens:
            William Boina, apresentador de TV que só anda com uma boina na cabeça pra encobrir os pequenos chifres que afloram de sua testa.
            Mister Bananon, marketeiro norte-americano contratado pela equipe do candidato Reembolso-Nário.
            Amélio, ator travesti da equipe de Mister Bananon. Dizem que Amélio é que é mulher de verdade. Amélio vai receber a tarefa de executar a “fakeada” em Reembolso-Nário.
            Phlavio Reembolso-Nário, filho de Reembolso-Nário que lidera um grupo de milicianos e laranjas.
            Durante a campanha eleitoral os candidatos debatem na televisão comunitária do Conic. Apenas um candidato nunca comparece aos debates: o Reembolso-Nário.

Cenário:
Estúdio de televisão, em que haverá um debate entre os candidatos à Presidência da Associação Cultural Pacotão.

William Boina, faz a abertura do programa:


William Boina- Boa noite. Estamos aqui, no estúdio da TV Conic, para promover o debate entre os candidatos à presidência da ACP, Associação Cultural Pacotão. As regras desse encontro foram definidas em reuniões com os representantes dos candidatos.
São oito os candidatos.

William Boina vai anunciando e apontando, um a um, os candidatos:

William Boina- Pastor Falamaia (pausa) Eskindô-Jonum (pausa) Ostra Brilhante (pausa) Alessandro Fruta (pausa) Donald-Trompa (pausa) Goiabosa Dos Mares de Jesus (pausa) General da Banda-Mourão (pausa) e Reembolso-Nário.

Apenas Reemboldo-Nário não compareceu, e seu lugar está vazio. A assessoria do candidato não nos informou o motivo da ausência.

Chamamos o primeiro candidato: Pastor Falamaia.

(Pastor Falamaia caminha rumo ao centro do palco)

William Boina- Candidato. O senhor pode escolher o candidato com quem vai debater.

Pastor Falamaia- Escolho o candidato Alessandro Fruta.

(Alessandro Fruta caminha ao centro do palco, e fica frente a frente ao Pastor Falamaia)

William Boina- Candidato Pastor Falamaia. O senhor pode fazer sua pergunta.

Pastor Falamaia- Candidato. É verdade que o senhor foi ator pornô, e dava o rabo a torto e a direito?

Alessandro Fruta-
                        Quando eu era ator pornô
                        eu fazia quase tudo:
                        macho, bicha, gigolô
                        e até papel de chifrudo.


CORO A-
            Vagabundo! Vagabundo!
            Falso moralista imundo!

CORO B-
            Meu galã! Meu galã!
            Eu sou seu fã! Eu sou seu fã!


William Boina- Silêncio! A plateia não pode se manifestar.

Alessandro Fruta-
                        Eu dou muito beijo ainda,
                        beijo técnico, é claro.
                        Nessa minha bunda linda
                        só pau técnico, e é bem caro.

Pastor Falamaia- Candidato. O senhor só fala de putaria. Quais são as suas propostas para a Associação?

Alessandro Fruta-
                        Putaria é o que acontece
                        na nossa Associação.
                        O carnaval vai ter prece,
                        com bastante religião.

CORO A-
            Papo-furado! Papo-furado!
            Tu és ator fracassado!

CORO B-
            Meu querido! Meu querido!
            Quero Escola sem Partido!


William Boina- Silêncio! A plateia não pode se manifestar.

Alessandro Fruta-
                        Vou acabar com essa zorra,
                        de marchinhas debochadas.
                        Quero que a folia morra
                        sem cerveja e batucadas.

                        É nova filosofia
                        para o povo esclarecido.
                        Meu projeto é alegria
                        com “Marchinhas sem Partido”.


William Boina- Candidato Alessandro Fruta. O senhor agora pode fazer pergunta para o candidato Pastor Falamaia.

Alessandro Fruta- Candidato. O senhor continua metendo os dízimos no seu bolso? Os comunistas poderão participar no carnaval de nossa Associação?

Pastor Falamaia-
                        Eu já nasci combatendo
                        as canalhas comunistas.
                        É praga que vem crescendo,
                        é bando de vigaristas.

CORO A-
            Delinquente! Delinquente!
            Devolve o dinheiro da gente!

CORO B-
            Meu pastor! Meu pastor!
            Você tem o nosso amor!

William Boina- Silêncio! A plateia não pode se manifestar.

Pastor Falamaia-
                        Olha o povo como sofre.
                        Mas dízimos me dão! Veja!
                        Não mais virá pro meu cofre
                        o dinheiro da igreja.

                        Um carnaval exemplar
                        é a minha proposta agora.
                        Mulher vai se fantasiar,
                        mas sem as pernas de fora.

                        O homem não vai trair,
                        nem vestir o que quiser.
                        Pra eles vou proibir
                        fantasia de mulher.

William Boina- Pela ordem estabelecida no sorteio, o próximo candidato a fazer pergunta é o Donald Trompa.

(Donald Trompa caminha rumo ao centro do palco)

William Boina- Candidato. O senhor pode escolher o candidato com quem vai debater.

Donald Trompa- Escolho o candidato Eskindô-Jonum.

(Eskindô-Jonum caminha ao centro do palco, e fica frente a frente a Donald Trompa)

William Boina- Candidato Donald Trompa. O senhor pode fazer sua pergunta.

Donald Trompa - Candidato. Sei que você é líder lá no Morro Enanvejotudo. Entretanto acho que o pessoal lá não gosta de você. É verdade que você gosta de construir bombas grandes mas tem pau pequeno?

Eskindô-Jonum-
            Capitalista abelhudo
            é que mente pro povão.
            No Morro Enanvetudo
            sou líder sim, sou mandão.

CORO A-
            Gorducho, de arromba!
            Joga logo a grande bomba!

CORO B-
            Tetéia! Tetéia!
            Vai de volta pra Coréia!

William Boina- Silêncio! A plateia não pode se manifestar.

Eskindô-Jonum-
            Não seja besta comigo,
            meu pau é grosso e te arromba.
            Se quiser ser meu amigo
            tem que aceitar minha bomba.

            Eu não tenho pau pequeno.
            Mentiras de ópera-cômica.
            Inimigos enveneno
            ou mato com bomba atômica.

            O carnaval vai mudar.
            Chega de vulgaridade!
            O bloco vai cultuar
            minha personalidade.


William Boina- Candidato Eskindô-Jonum. O senhor agora pode fazer pergunta para o candidato Donald Trompa.

Eskindô-Jonum- Candidato. O senhor não acha absurda essa sua ideia de construir um muro em torno da sede de nossa Associação? O senhor tem medo dos sambistas do Morro Enanvejutudo?

Donald Trompa-
            O bloco do Pacotão
            tem que ser moralizado.
            É muita esculhambação
            que avança para o meu lado.

CORO A-
            Canalha! Canalha!
            Cai fora, joga a toalha!

CORO B-
            Querido, fascista!
            Viva a indústria armamentista!

William Boina- Silêncio! A plateia não pode se manifestar.

Donald Trompa-
            Vou compor novas marchinhas
            atacando os comunistas.
            E todas as forças minhas
            atacarão teus turistas.
           
            Todos os fora-da-lei
            vão chorar muito, aos soluços.
            Para isso eu contarei
            com a ajuda dos russos.

            Teu povo é erva daninha,
            teu regime é de drogados.
            Árvore podre e velhinha
            que dá frutos estragados.

            Frutos podres, povo bruto.
            Vou fazer sim, o tal muro,
            pra exterminar o mau fruto,
            seja Verde ou Maduro.


Neste momento a transmissão televisiva do debate tem um problema: sai do ar.
Na cena algum recurso teatral é usado para simbolizar a interrupção da transmissão. Exemplos: todos os personagens da cena ficam imóveis como estátuas: ou é usado algum efeito especial com imagem em projeção de tela de TV com chuvisco.


Fora do “palco” ou da cena principal, outros quatro personagens confabulam.
(Phlavio Reembolso-Nário, Mister Bananon, Amélio e Reembolso-Nário)

Phlavio Reembolso-Nário-
          Meu chefe, o nosso projeto
          tá virando bom combate.
          Foi muitíssimo correto
          não ter ido ao debate.

          Pra ganhar tem que ter manha.
          Pra vencer tem que jogar.
          Saiba que a sua campanha
          vai agora decolar.

          Separo o trigo do joio
          e tenho boa notícia.
          Nós temos todo o apoio
          da polícia e da milícia.

(apresenta Míster Bananon)

          Este é Míster Bananon,
          marqueteiro inovador.
          O sujeito é muito bom          
          em enganar eleitor.

Míster Bananon:
          Na campanha e na ação
          partiremos pra ousadia.
          Vamos dar outra versão
          para a sua cirurgia.

          Ninguém precisa saber
          do seu tumor no intestino.
          O Amélio vai fazer
          o papel de assassino.

          O eleitor vai adorar
          a vítima do atentado.
          Todo mundo vai votar
          no coitado esfaqueado.

Amélio-
          Tô dentro! Contem comigo.
          Boa grana é a condição.
          Pra que não haja perigo
          eu vou querer proteção.


A transmissão televisiva volta ao ar.


William Boina- Estivemos fora do ar por alguns momentos. Defeito técnico. Pedimos desculpas aos nossos telespectadores. Prossigamos com o debate. Pelo sorteio, o próximo candidato a fazer pergunta é o General da Banda-Mourão.

(General da Banda-Mourão caminha ao centro do palco)


William Boina- Candidato. O senhor pode escolher com quem vai debater.

General da Banda-Mourão - Escolho o candidato Ostra-Brilhante.
(Ostra-Brilhante caminha ao centro do palco, e fica frente a frente ao General da Banda-Mourão)

William Boina- Candidato General da Banda-Mourão. O senhor pode fazer sua pergunta.

General da Banda-Mourão– Candidato. O senhor conseguiu purificar o mundo do samba, exterminando muita gente que tava ruim da cabeça e doente do pé. Como conseguiu isso? Vai fazer o mesmo se for eleito?

Ostra Brilhante-
            Fiz limpeza altruísta
            pois sou foda, pois sou bamba.
            Não tolero comunista
            no nosso mundo do samba.

CORO A-
            Torturador! Torturador!
            Te pegaremos seja onde for.

CORO B-
            Meu heroi! Meu heroi!
            Choque elétrico não faz dodoi.

William Boina- Silêncio! A plateia não pode se manifestar.

Ostra Brilhante-
            Pr’um carnaval sem mistura,
            milicos brutos convoco.
            Tiraremos, com tortura,
            os comunistas do bloco.

            Sou combatente supimpa,
            comuna não é folião.
            Eu vou fazer uma limpa
            na nossa Associação.

            No meu samba tem porrada,
            umbigada e rasteira.
            Convenço a rapaziada
            dando choques na traseira.

            Saiba que eu converso pouco
            e comigo a coisa é clara:
            com pancada, muito soco,
            eletrodo e pau-de-arara.
           

William Boina- Candidato Ostra-Brilhante. O senhor agora pode fazer pergunta para o candidato General da Banda-Mourão.

Ostra Brilhante- Candidato. O senhor não tem a menor chance de ganhar a eleição. O senhor aceita ser meu vice?

General da Banda-Mourão
            Cruz credo! Que babaquice.
            Isso chega a ser hilário.
            Eu prefiro então ser vice
            do amigo Reembolso-Nário.


CORO A-
            Golpista! Golpista!
            Tu preferes o fascista!

CORO B-
            Governa! Governa!
            Viva a botina e a caserna!

William Boina- Silêncio! A plateia não pode se manifestar.

General da Banda-Mourão
            O meu grande eleitorado
            está no Morro Derrir.
            Quero carnaval honrado
            com grandioso porvir.

            Nós seremos vigilantes
            formando porta-bandeiras,
            criando ostras brilhantes
            nas fronteiras brasileiras.

            Chega de samba grotesco.
            Chega de maus dançarinos.
            Todos os carnavalescos
            cantarão os nossos hinos.

            Hinos pátrios, marciais,
            que pregarão retrocesso.
            Quero paz e, ademais,
            quero ordem e progresso.


Neste momento a transmissão televisiva do debate volta a ter problema: sai do ar.
Na cena, novamente algum recurso teatral é usado para simbolizar a interrupção da transmissão. Exemplos: todos os personagens da cena ficam imóveis como estátuas; ou é usado algum efeito especial com imagem em projeção de tela de TV com chuvisco.

Fora do “palco” ou da cena principal, os outros quatro personagens continuam a confabular.
(Phlavio Reembolso-Nário, Mister Bananon, Amélio e Reembolso-Nário)


Reembolso-Nário-
          Esse ardil é genial,
          mas pode ser descoberto.
          Preparem meu funeral
          se o negócio não der certo.

Míster Bananon:
          (apontando para Amélio)

          Ele será o comparsa
          do ataque virtual.
          O atentado será farsa
          num enredo teatral.

Reembolso-Nário-
          Tô gostando da batalha,
          mas tenho medo de briga.
          Já pensou se a faca falha
          e entra na minha barriga?

Míster Bananon:
          O populacho babaca
          vai acreditar no enredo.
          Será uma falsa faca:
          uma faca de brinquedo.

          (mostra a faca falsa)

Reembolso-Nário-
          Tá! Tá okey! Tá okey!
          Sei que não vai ser letal.
          Que vai dar certo, eu sei:
          tenho medo é do hospital.

Míster Bananon:
          Mas tá tudo combinado
          também lá no hospital.
          O médico tá treinado
          para a cena teatral.

A transmissão televisiva volta ao ar.

Durante a continuação do debate televisivo, os quatro personagens que confabulavam saem de cena para montar a tramoia da falsa facada. Ao sairem de cena eles fazem um arrastão de algumas pessoas da plateia para participarem da passeata em que acontecerá a falsa facada.


William Boina- Estivemos fora do ar por alguns momentos. Defeito técnico. Pedimos desculpas aos nossos telespectadores. Prossigamos com o debate. Pelo sorteio, o próximo candidato a fazer pergunta é o Sergio Des Moro-Alisado.

(Sergio Des Moro-Alisado caminha ao centro do palco)


William Boina- Candidato. Só restou a candidata Goiabosa Dos Mares de Jesus para debater.

Sergio Des Moro-Alisado– Que venha então a Goiabosa Dos Mares.
(Goiabosa Dos Mares de Jesus caminha ao centro do palco, e fica frente a frente a Sergio Des-Moro-Alisado)

William Boina- Candidato Sergio Des Moro-Alisado. Pode fazer sua pergunta.

Sergio Des Moro-Alisado-
            A senhora tem sido porta-bandeira de blocos pentecostais. Acha que sua bandeira servirá para a nossa Associação? Nosso carnaval vai melhorar?

Goiabosa Dos Mares de Jesus-
            Sim, vou dar jeito no samba.
            Serei firme na vigília,
            pois tudo agora descamba
            pra destruir a família.

CORO A-
            Casal lindo! Beija! Beija!
            Se manda! Volta pra igreja!

CORO B-
            Minha pastora perfeita!
            Viva a extrema-direita!

William Boina- Silêncio! A plateia não pode se manifestar.

Goiabosa Dos Mares de Jesus-
            Só cantaremos marchinhas
            com críticas ao que é torto,
            contra as moçoilas feinhas,
            da viadage e do aborto.

            Combaterei anedotas
            que têm sacanagens lúdicas,
            dando atenção às xoxotas
            com as políticas púbicas.

            Gêneros não mais terão
            apoio de ideologias.
            Gêneros musicais vão
            consagrar epifanias.

            Nos sambas que cantaremos
            não mais vai ter mulher nua.
            Chega de choros blasfemos!
            Chega de óperas de rua!

            Nossa gestão vai ser braba:
            vou acabar com o SUS.
            Cura será com goiaba
            e com guaraná Jesus.

            Cantaremos novos hinos
            com mensagem amorosa.
            Cueca azul pros meninos,
            elas com calcinhas rosa.


William Boina- Candidata Goiabosa Dos Mares de Jesus. A senhora agora pode fazer pergunta para o candidato Sergio Des Moro-Alisado.

Goiabosa Dos Mares de Jesus- Candidato. O senhor foi líder comunitário lá no Morro do Cu Ritiba, se destacando como justiceiro. Por que o senhor quer abandonar o Morro para dirigir nossa Associação?

Sergio Des Moro-Alisado
            Temos na Associação
            um presidente esquisito.
            Novo diretor, então,
            tem que ser alguém bonito.
           
            Como eu, bonito assim:
            um presidente modelo.
            Eu sempre cuidei bem de mim,
            de minha pele e cabelo.
           
            Chega de nego suado!
            O sambista de verdade
            tem cabelo bem penteado
            com creme de qualidade.
           
            (tira do bolso, e mostra, um pote de creme)

            Este é o creme da beleza
            do sambista bem cuidado.
            Vou me manter na defesa
            do bom creme organizado.

            Pra consertar esta joça
            precisamos de tirano
            e também gente que possa
            ser um bom miliciano.

            Com o creme organizado
            vamos ter bons foliões.
            estarei sempre do lado
            do carnaval de ladrões.
           
Neste momento a transmissão televisiva do debate volta a ter problema: sai do ar.
Tal como antes, na cena algum recurso teatral é usado para simbolizar a interrupção da transmissão. Exemplos: todos os personagens da cena ficam imóveis como estátuas: ou é usado algum efeito especial com imagem em projeção de tela de TV com chuvisco.

Fora do “palco” ou da cena principal, longe, surge uma passeata em que o candidato Reembolso-Nário é carregado nos ombros de seus apoiadores.
Amélio está na multidão, munido ostensivamente da grande faca falsa. Ele tenta aplicar a falsa facada algumas vezes em Reembolso-Nário, mas não consegue.
Phlavio Reembolso-Nário e Mister Bananon, de tempos em tempos, gritam para Amélio: “– Calma, Amélio! Não vê que agora não dá?”

Enfim, Amélio aplica a falsa facada. Gritaria. Confusão. Reembolso-Nário é carregado, em correria, para uma ambulância.

A transmissão televisiva volta ao ar.

(Música de edição extraordinária da TV)

William Boina- Voltamos em edição extraordinária para anunciar o resultado  das eleições. O novo presidente da Associação Cultural Pacotão é Reembolso-Nário.

Todos os outros candidatos estão presentes.

Reembolso-Nário surge, com uma enorme bolsa de colostomia pendurada no abdômen. Faz discurso para a plateia e os outros candidatos.


Reembolso-Nário-
            Ó meus queridos amigos.
            Eu sempre lutei, lutei.
            Enfrentei muitos perigos.
            Tá okey? Tá? Tá okey?

            Nós vamos fazer mudanças,
            seguiremos novos trilhos.
            As sujeiras, as lambanças,
            agradeço aos meus filhos.

            Deles eu tive a ajuda
            com ideias e malícias.
            Agora, sim, tudo muda,
            com laranjas e milícias.

            Esta minha governança
            traz um projeto bem novo:
            tratarei da segurança
            dando armas para o povo.

            Chega de assaltos nas ruas:
            as praças parecem ringues!
            Pra acabar com falcatruas
            aos homens dou estilingues.
           
Apoiadores distribuem estilingues e grãos de feijão para os homens da plateia.


            Vou querer organizar
            tudo como num quartel.      
            Pras mulheres vamos dar
            só bolinhas de papel.

Apoiadores distribuem bolinhas de papel para as mulheres da plateia.


            Cumprirei a plataforma
            que montei com artimanha.
            Vou promover a Reforma
            que divulguei na campanha.

            Sobre as heranças futuras?
            A juventude é quem herda.
            Faremos reformas duras
            pro povo ficar na merda.


A plateia se revolta e todos passam a atirar bolinhas de papel e grãos de feijão sobre Reembolso-Nário e todos os outros personagens da cena.


Os Coros A e B cantam, logo seguidos pela plateia.
Todos passam a cantar juntos, expulsando Reembolso-Nário, William Boina e todos os outros personagens.

Coros A e B-
            Teu filho é o comparsa
            da milícia e dos milicos
            que montaram toda a farsa,
            com você pagando mico.

            Com discurso moralista
            nenhum de vocês me engana.
            Não quero ideia fascista
            e nem reforma sacana.