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sábado, 8 de julho de 2023

1983 —Petroleiros celebram 40 anos de greve que enfrentou ditadura militar

Sábado, 8 de julho de 2023

Jacó Bittar discursa para petroleiros em greve no Centro de Convivência em Campinas durante greve de 1983 - Arquivo Sindipetro Unificado

Paralisação da categoria gerou reação imediata de militares e intervenções em sindicatos

Brasil de Fato
Redação
São Paulo (SP) | 08 de Julho de 2023 às 09:28

O Sindicato Unificado dos Petroleiros do Estado de São Paulo (Sindipetro Unificado) realiza, no próximo sábado (8), evento para celebrar os 40 anos da greve realizada pela categoria em 1983. A paralisação foi um dos marcos do enfrentamento da classe trabalhadora e do movimento sindical à ditadura militar.

Os trabalhadores interromperam as atividades em duas unidades: na Refinaria de Paulínia (Replan), no interior de São Paulo, e na Refinaria Landulpho Alves (Rlam), região metropolitana de Salvador - a greve levou à intervenção imediata nas diretorias dos sindicatos.

O "Ato político em rememoração aos 40 anos da greve de 1983" acontece na sede da entidade e trabalhadores participantes da paralisação vão estar no evento voltado para a memória. Além deles, são esperados também acadêmicos e representantes do governo federal. José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras e professor da Universidade Federal da Bahia, e Eneá de Stutz, presidenta da Comissão de Anistia, comparecerão ao evento.

“Pretendemos fazer essa rememoração não como um exercício saudosista, muito pelo contrário. O objetivo é sempre apontar para o futuro, de transformação permanente em direção a uma sociedade mais justa e igualitária”, explica Antônio Jesus Alencar Ferreira, coordenador dos trabalhadores demitidos durante a greve, que posteriormente se tornaram anistiados políticos.

O ato político contará com a participação de artistas da região e marca também a inauguração de uma exposição sobre a história da greve de 1983 e a estreia de um documentário média-metragem sobre os eventos.

A Greve

Entre o fim de 1982 e 1983 o último governo da ditadura militar, presidido por João Baptista Figueiredo, procurou o Fundo Monetário Internacional (FMI) para renegociar a dívida externa brasileira, que vinha crescendo desde a crise internacional do petróleo de 1973.

Como contrapartida para o acordo, o FMI fez uma série de exigências, principalmente de cortes de gastos públicos. Um dos alvos eram os trabalhadores do setor público, incluindo estatais. Em maio de 1983 o governo enviaria um projeto ao Congresso Nacional, através de uma série de decretos, que cortava benefícios, estabelecia a meta de reduzir em 10% o pessoal e impedia novas contratações por anos. 

"Realmente eram decretos em cima de decretos, só prejudicando trabalhadores, então eu tinha certeza que alguma coisa iria acontecer. Então, para mim, não foi novidade [a decretação da greve]. Sabia que a base estava unida politicamente e todos esperavam que a greve sairia”, relembra Pedro Luiz de Campos, integrante da diretoria cassada em 1983.

A reação da opinião púbica faria o governo militar temporariamente. Na mesma data que um novo decreto era apresentado, 29 de junho de 1983, a categoria aprovou em assembleia a paralisação em São Paulo - por 700 votos favoráveis e 4 contrários. As atividades foram paralisadas em 6 julho. No dia seguinte, as atividades foram suspensas na Bahia. A mobilização seria seguida por prisões e intervenções nas diretorias dos sindicatos.

A mobilização - e a repressão que se seguiu - gerou uma onda de solidariedade. Segundo notícias da época, cerca de 100 mil metalúrgicos do ABC interromperam o trabalho em solidariedade aos petroleiros. Com a notícia de que outras unidades da Petrobras não entrariam em greve, a paralisação na Rlam e na Replan acabaria em 11 de julho. Na primeira, 206 seriam demitidos. Na unidade de Paulínia, foram 152.

Apesar das demissões e do clima de perseguição posteriormente instalado nas unidades, o decreto seria retirado. As demissões seriam posteriormente revertidas.

“A greve de 83 foi o grande marco da nossa vida sindical, foi o grande embate que nós tivemos. Fui uma das demitidas e só voltei quando conseguimos a readmissão de todos. Nem o governo, nem a direção da Petrobras queriam que voltássemos. Mas nós lutamos muito para que todos voltassem", recorda Wanda Conti, também integrante da diretoria cassada.

O Ato Político ocorre às 9h30 do sábado. O endereço é Rua Cônego Manoel Garcia, 1010, Jardim Chapadão, na cidade de Campinas (SP).


Edição: Rodrigo Durão Coelho

Fonte: Brasil de Fato