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(Millôr Fernandes)
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sábado, 26 de março de 2016

O discurso de Lula ou: não é fácil desmistificar a política

Sábado, 26 de março de 2016

"No entanto, é um equívoco a ser combatido reduzir a defesa de direitos sociais aos programas do PT, e um equívoco muito maior chamar o PT de esquerda, uma vez que sua relação promíscua com o capital privado repete justamente um padrão estabelecido no país pela direita tradicional. O PT não inventou nem a luta de classes e muito menos a corrupção. A verdade é que não quer se desfazer da segunda ao mesmo tempo em que tenta por todos os meios mascarar a primeira."
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Do Correio da Cidadania
www.correiocidadania.com.br
por Cassiano Terra Rodrigues*

“Não acho que uma palavra possa explicar a vida de um homem”.
Jerry Thompson em Cidadão Kane (1942), dir. Orson Welles.

Quem viu Entreatos, documentário de João Moreira Salles, sobre a campanha presidencial de Lula, em 2002, deve se lembrar de uma sequência na qual o personagem principal rechaça certo intelectual, de quem não ficamos sabendo o nome: “uma vez um intelectual me disse que eu não devia querer ganhar eleição, que eu não devia ser presidente da República. Como assim? É claro que eu quero ganhar a eleição, é claro que eu devo querer ser presidente da República.” Cito de cabeça, sem me preocupar com as palavras exatas. Meu interesse maior é pelo discurso de Lula, discurso esse que ele repetiu no último dia 13 de março, na Avenida Paulista, durante o atual momento de polarização absoluta entre os defensores do Impeachment da presidenta Dilma e os militantes do “Não vai ter golpe”.

O que o discurso de Lula revela? Qual sua intencionalidade? Qual sua intertextualidade não tão evidente? Algumas pessoas receberam com estranheza as palavras de Lula: “vermelho como sangue de Cristo”, “Lulinha paz e amor” etc. Mas o fato é que o discurso é muito revelador de tensões latentes na vida nacional e de fato muito coerente com a própria trajetória pessoal de Lula.

À primeira vista, Lula parece defender a democracia real, aquela que, segundo ele, o povo brasileiro aprendeu que não é letra morta na Constituição ou direito de papel sem efetividade real. Para ele, isso quer dizer que o povo brasileiro quer mais PRONATEC, PROUNI, REUNI (sic), FIES, ENEM etc. Todos os programas sociais do governo do PT seriam, então, uma forma de dar direitos efetivos para todos os brasileiros. Por exemplo, a “educação para todos”, a reforma agrária e outras pautas pejorativamente chamadas de “esquerdistas” pelo senso-comum. No entanto, é um equívoco a ser combatido reduzir a defesa de direitos sociais aos programas do PT, e um equívoco muito maior chamar o PT de esquerda, uma vez que sua relação promíscua com o capital privado repete justamente um padrão estabelecido no país pela direita tradicional. O PT não inventou nem a luta de classes e muito menos a corrupção. A verdade é que não quer se desfazer da segunda ao mesmo tempo em que tenta por todos os meios mascarar a primeira.

A crença no mito