
Em julho de 2024, o Banco Mundial e o FMI completarão 80 anos. 80 anos de neocolonialismo financeiro e de imposição de políticas de austeridade em nome do pagamento da dívida. 80 anos já bastam! As instituições de Bretton Woods devem ser abolidas e substituídas por instituições democráticas ao serviço de uma bifurcação ecológica, feminista e antirracista. Para assinalar estes 80 anos, publicamos todas as quartas-feiras, até julho, uma série de artigos que analisam em pormenor a história e os danos causados por estas duas instituições.
Ao longo dos primeiros dezassete anos de existência, os projetos apoiados pelo Banco Mundial consistem na melhoria das infraestruturas de comunicação e de produção de energia elétrica. O dinheiro emprestado pelo banco aos países em desenvolvimento deve, sobretudo, ser gasto aos países industrializados. Os projetos apoiados devem melhorar a capacidade de exportação do Sul para o Norte, a fim de satisfazerem as necessidades deste último e de enriquecerem um conjunto de multinacionais, no âmbito dos setores referidos. Durante este período, os projetos relativos à saúde, ao acesso à água potável e ao saneamento básico são inexistentes.
Desde o início, as missões do banco visam essencialmente aumentar a sua capacidade de influenciar as decisões tomadas pelas autoridades de um determinado país, favorecendo as grandes potências acionistas e a suas empresas.
A política do Banco Mundial evolui tendo em conta o perigo de contágio revolucionário e a Guerra Fria. O contexto político interpela os dirigentes do Banco: os seus debates internos demonstram que eles respondem a esse contexto em função dos interesses de Washington ou de outras metrópoles industrializadas.
A atividade do Banco Mundial começa em 1946. Em 18 de junho desse ano, Eugene Meyer, editor do Washington Post, ex-banqueiro, assume funções como primeiro Presidente do Banco. Permanecerá no cargo durante seis meses.
Os primeiros passos do Banco foram, de facto, difíceis. A hostilidade de Wall Street não diminuiu desde a morte de Franklin Roosevelt, em abril de 1945. Os banqueiros não confiavam numa instituição que, a seus olhos, ainda era demasiado influenciada pela política do New Deal, intervencionista demais e pública demais. Eles teriam preferido que os Estados Unidos desenvolvessem apenas o Export Import Bank. Regozijaram-se com a saída de Henry Morgenthau que deixou de ser secretário do Tesouro; não se opunham especificamente a Eugene Meyer, presidente do Banco, porém não apreciavam, de todo, os defensores do controlo público, como Emilio Collado e Harry White, diretores-executivos respectivamente do Banco Mundial e do FMI.
A partir de 1947, as alterações na direção do Banco satisfazem os banqueiros já que, daí em diante, um trio favorável a Wall Street toma as rédeas do poder: John J. McCloy é nomeado presidente do Banco Mundial em fevereiro de 1947, secundado por Robert Garner, vice-presidente, e Eugene Black assume o lugar de Emilio Collado. John J. McCloy tinha sido um grande advogado de negócios em Wall Street, Robert Garner era vice-presidente da General Foods Corporation e Eugene Black, vice-presidente do Chase National Bank. No FMI, Harry White é demitido. Wall Street está plenamente satisfeita. Com a saída forçada de Emilio Collado e de Harry White, desaparecem os últimos defensores da intervenção nos movimentos de capitais e do seu controlo público. Os “negócios” podem começar.
| A caça às bruxas A vida do Banco Mundial e a do FMI foram fortemente influenciadas pela Guerra Fria e pela caça às bruxas lançada, nos Estados Unidos, principalmente pelo senador republicano de Wisconsin, Joseph McCarthy. Harry White, pai do Banco Mundial e diretor-executivo dos Estados Unidos no FMI, foi objeto de uma investigação do FBI (Agência Federal de Investigação), em 1945, por espionagem em benefício da URSS. Em 1947, o seu caso foi submetido ao Grande Júri Federal, que recusa abrir um processo. Em 1948, é ouvido pelo Comité de Investigação de Atividades Antiamericanas (Un-American Activities Committee). Vítima de uma campanha agressiva, morre de ataque cardíaco em 16 de agosto de 1948, três dias após ter comparecido perante o comité. Em novembro de 1953, durante a presidência de Eisenhower, o procurador-geral condena, de forma póstuma, Harry White como espião soviético. Acusa igualmente o Presidente Truman de ter designado Harry White como diretor-executivo do FMI em 1946, sabendo que ele era um espião soviético. A caça às bruxas afeta também o conjunto das Nações Unidas e as suas agências especializadas, porque, no final do seu mandato, em 09 de janeiro de 1953, o Presidente Truman faz sair um decreto solicitando, ao Secretário-Geral das Nações Unidas e aos dirigentes das agências especializadas, que comuniquem, ao governo dos Estados Unidos, informações sobre as candidaturas de emprego às Nações Unidas, entregues por cidadãos dos Estados Unidos. Os Estados Unidos encarregam-se de realizar uma investigação completa para detectar se as pessoas em questão são suscetíveis de se dedicarem à espionagem ou a ações subversivas (tais como “defender a revolução para alterar a forma constitucional de governo dos Estados Unidos”). Nessa época, o termo “un-american” é um eufemismo corrente para caracterizar os comportamentos subversivos. Um elemento subversivo não pode ser admitido pela ONU. A interferência dos Estados Unidos nos assuntos internos da ONU é muito forte. São testemunhos disso o tom e o conteúdo da correspondência enviada ao presidente do Banco Mundial, Eugene Black, pelo secretário de Estado da administração Eisenhower, J. F. Dulles: “O secretário de Estado Dulles solicitou-me (escreve o seu assistente) que fizesse saber a grande importância dada por ele à obtenção de total cooperação por parte dos responsáveis pelas agências especializadas das Nações Unidas para a execução do decreto presidencial 10422. Ele está convencido que, sem essa total cooperação, os objetivos do decreto não serão alcançados e que, sem essa condição, os Estados Unidos não poderão continuar a apoiar estas organizações”. |
O Banco Mundial, para emprestar dinheiro aos países membros, deve começar por pedir emprestado a Wall Street sob a forma de obrigações. Os banqueiros privados exigem garantias antes de concederem um empréstimo a um organismo público, visto que, no início de 1946, 87% dos títulos europeus estão em situação de incumprimento de pagamento e o mesmo acontece com 60% dos títulos latino-americanos e com 56% dos títulos do Extremo Oriente.

