Quarta, 28 de junho de 2023

A associação dos governos petistas ao MST é também uma estratégia antiga de desqualificação do movimento e de crítica a estes governos - Divulgação
Veículos da mídia comercial usam termos negativos para luta pela terra, mas não noticia crimes de grandes proprietários
Mônica Mourão
Brasil de Fato | Natal (RN)
Chamar as ocupações realizadas pelo Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) de "invasões" e, assim, acusar os militantes deste movimento de violentos é a forma mais comum de desqualificar a luta dos sem-terra. Para quem acompanha a cobertura da imprensa, mesmo que de modo não sistemático, é até um clichê, um exemplo fácil de como a mídia se situa na luta de classes.
Em nossas pesquisas, o Intervozes confirma: a cobertura sobre a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do MST, que aconteceu em 2010, usou 192 termos negativos diferentes para se referir ao MST e suas ações; a palavra "invasão" e seus derivados foi a mais usada. Também em 2010, 42,5% das matérias analisadas citaram o MST como autor de violência.
Agora, em 2023, como vimos no primeiro texto de análise da CPI, publicado no Brasil de Fato na semana passada, 100% da cobertura dos dias 17 e 18 de abril usaram termos pejorativos para se referir ao movimento. Enquanto isso: onde estão as matérias sobre os verdadeiros invasores de terra?
No último dia 14 de junho, o projeto "De olho nos ruralistas – Observatório do agronegócio no Brasil" lançou a segunda parte do relatório Os Invasores: quem são os empresários brasileiros e estrangeiros com mais sobreposições em terras indígenas. O dossiê revela quem são as pessoas físicas e as empresas cujas terras se sobrepõem aos territórios delimitados pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). São 1.692 casos de completo desrespeito à lei e aos povos originários do Brasil. Quarenta e dois são políticos ou seus familiares e muitos são doadores de verbas para campanhas eleitorais. Eles doaram para 18 integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e também investiram na reeleição de Jair Bolsonaro (PL). Foram 41 fazendeiros com sobreposição com terras indígenas que transferiram 1,2 milhão de reais para a campanha do ex-presidente derrotado.