Publicado 06/11/2024 às 18:53 - Atualizado 06/11/2024 às 18:54

Jacqueline Muniz em entrevista ao IHU
Os autores do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, em março de 2018, foram julgados e condenados em 30 outubro passado. Ronnie Lessa e Élcio Queiroz foram condenados pelo Tribunal do Júri, a 78 anos e 9 meses de prisão e 59 anos e 8 meses de prisão, respectivamente. No entanto, o tempo em regime fechado será menor, entre outras razões, pela delação premiada que ambos realizaram, mas que precisará ser provada criminal e juridicamente. Os acusados de serem os mandantes do crime, o delegado Rivaldo Barbosa, o parlamentar Chiquinho Brazão e seu irmão, conselheiro do Tribunal de Contas do RJ, Domingos Brazão, serão julgados pelo Supremo Tribunal Federal – STF, tendo em vista que um dos acusados é deputado federal.
Pensando o caso Marielle para além da atrocidade do crime, mas vendo-o um pouco mais de longe, é possível compreender quais são suas condições de emergência. “O caso Marielle e Anderson, que foi um assassinato político, desde a sua ocorrência em 2018 é uma explicitação de como se governa com o crime no Rio de Janeiro e não contra ele, de como é o Estado que opera como uma grande imobiliária que arrenda territórios para grupos criminosos e que funciona como uma agência reguladora do crime. Ele constitui o crime, estabelecendo quem mata e quem pode morrer. Então, matar, deixar matar e deixar morrer é parte da gestão do Estado”, explica a antropóloga Jacqueline Muniz em entrevista por videoconferência ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Para a pesquisadora, no Rio de Janeiro há um projeto de insegurança pública que é sistêmico e antigo. “Vamos lembrar que o Rio de Janeiro, nos últimos 20 anos, teve seis governadores afastados, sendo que cinco foram presos, além de quatro chefes de polícia também presos; o Rivaldo [Barbosa] não é o primeiro”, recorda Jacqueline. “O próprio Ronnie Lessa é um matador assim como Adriano [da Nóbrega], que foi assassinado, era um matador, ambos saídos da polícia com um lastro e uma blindagem política. Portanto, a impunidade é uma mercadoria política de elevado valor. Por isso eu digo que a assassinato da Marielle foi um presente”, ressalta.
Diante de um cenário verdadeiramente desesperador, uma espécie de beco sem saída, a sociedade fluminense fica à mercê de discursos messiânicos que, em vez de resolver os problemas, estes acabam sendo agravados. “O medo é péssimo conselheiro. Diante do medo, abrimos mão das garantias individuais e coletivas em favor do primeiro ‘fortão’ de ocasião, do primeiro maluco que nos proteja, que nos prometa proteção. O protetor de hoje será o tirano de amanhã”, sublinha a entrevistada. “Faz-se a guerra contra o crime para vender a paz da propina, a paz do arrego, a paz do cemitério para subir o preço do alvará, do arrendamento dos territórios para subir o preço de funcionamento da firma criminosa”, complementa.
Publicamos a seguir a primeira parte da entrevista com Jacqueline Muniz.

Jacqueline Muniz é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense – UFF, mestre em Antropologia Social pelo Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, em e doutora em Ciência Política pelo IUPERJ, Universidade Candido Mendes (1999) com a tese Ser policial é, sobretudo, uma razão de ser: cultura e cotidiano da PMERJ.
Confira a entrevista.
Como é sua vivência com as polícias e de onde vem seu interesse pelo tema?
Eu rodei quase todo o Brasil fazendo trabalho de campo a convite das polícias e fui muitas vezes ao Rio Grande do Sul. Como antropóloga, dei palestras para as polícias militar e civil, sobretudo para a Brigada, que tinha um núcleo de pesquisa e acompanhei de perto algumas reformas que estavam acontecendo. Houve um processo de democratização das polícias no Rio Grande do Sul.
Em minha tese de doutorado sobre as polícias, começo contando uma história em que eu estou sentada na margem do Rio Guaíba, em Porto Alegre, com policiais que na época eram tão novos quanto eu, que a Brigada colocava para me acompanhar.
Essa história que conto é que eu estou com um desses oficiais jovens, que estão me ciceroneando e preocupados. Estávamos em uma mesa comendo pizza, e eles contando o dia a dia deles, policiais e bombeiros. Eles contam sobre o atendimento a um incêndio e alguns deles relatam que não conseguem salvar todo mundo – naquele momento os bombeiros e a Polícia Militar, no RS e em São Paulo, eram unificados. Eles vão falando o passo a passo um caso – eu fico arrepiada –, porque, não sendo experientes, ficam traumatizados, porque alguns deles resolveram ir casa adentro pegando fogo, pois tinha uma mãe dizendo: “ainda tem meus filhos”. Eles não conseguiram tirar todos.