Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sábado, 13 de setembro de 2025

Devastação —Dossiê denuncia ecogenocídio no Cerrado com conivência do Estado e avanço do agronegócio; bioma já perdeu mais de 100 milhões de hectares

Sábado, 13 de setembro de 2025

Documento foi apresentado neste sábado (13) no encerramento do 11ª Encontro e Feira dos Povos do Cerrado, em Brasília.



Lançado neste sábado (13), durante a programação do 11º Encontro e Feira dos Povos do Cerrado, o dossiê Terra e Território no Cerrado denuncia o ecogenocídio no bioma. O documento revela não apenas a devastação ambiental causada pelo agronegócio e pelo desmatamento, mas também a ameaça ao modo de viver e à cultura dos povos cerratenses, como comunidades tradicionais indígenas, quilombolas, ribeirinhas e camponesas.

O dossiê de 155 páginas, produzido pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, reúne indicadores de duas décadas, entre os anos 2000 e 2021. Os dados apresentados apontam que a área desmatada no bioma cresceu 40%, com uma média de 1,45 milhão de hectares perdidos por ano. Em 2000, foram registrados 71,8 milhões de hectares desmatados; já em 2021, esse número chegou a 100,77 milhões de hectares.

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Sistemas agrocerratenses: sementes que restauram, saberes que alimentam

Segunda, 5 de maio de 2025

Esses sistemas não são apenas ecológicos; são políticos.


Brasil de Fato
Postado ariginalmente em 02.maio.2025

Em tempos de emergência climática, quando produzir alimentos sem devastar o meio ambiente é uma das maiores encruzilhadas da humanidade, o Cerrado brasileiro ressurge como território de soluções. Longe das monoculturas que secam o solo e apagam a biodiversidade, agricultores familiares vêm protagonizando uma revolução silenciosa: os sistemas agrocerratenses (Sace).

Mais conhecidos como Sace, esses modelos de produção se inspiram nas paisagens savânicas e campestres do Cerrado, respeitando a lógica do bioma, suas espécies, seus ciclos. Ao contrário da agricultura convencional, que desmata para plantar, o Sace restaura áreas degradadas com espécies nativas, promovendo a regeneração ecológica e, ao mesmo tempo, garantindo renda, alimento e autonomia para as comunidades locais inseridas no bioma.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

E O CERRADO? O drama da destruição de um bioma invisível

Segunda, 9 de setembro de 2019

E O CERRADO?
O drama da destruição de um bioma invisível

Por Juan Ricthelly*

O 11 de Setembro é uma data emblemática, em razão de alguns acontecimentos históricos que coincidentemente ocorreram nesse dia, o mais famoso é o de 2001, com o episódio infeliz do atentado ao World Trade Center nos EUA, o de 1972 é marcante, pois foi quando Augusto Pinochet derrubou o governo de Salvador Allende no Chile, instaurando a ditadura mais sangrenta do Cone Sul, mas o 11 de Setembro de 2019 e dos anos vindouros talvez sejam os mais dramáticos, por ser a data em que se comemora todos os anos o Dia Nacional do Cerrado, um bioma tão importante quanto a Amazônia, mas que pouco se fala.

O Cerrado é a maior região de savana da América do Sul e ocupa uma área de 2.060.000 km², totalizando 24% do território brasileiro, estando totalmente presente nos estados de Goiás, Distrito Federal e Tocantins, e parcialmente nos estados da Bahia, Ceará, Piauí, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Rondônia, também ocorrendo em área disjuntas nos estados do Amapá, Roraima e Amazonas, sendo uma área maior que o México, a África do Sul e a Colômbia, se o Cerrado fosse um país, seria o 13º maior do mundo em superfície.
Ao contrário da Amazônia que é um bioma plurinacional, o Cerrado é o maior dos biomas totalmente brasileiros, sendo conhecido como a caixa d’água do Brasil, por ser o berço das águas onde milhares de nascentes e rios brotam da terra, sendo um importante armazenador e distribuidor de água para todo o continente por meio das bacias hidrográficas que nascem do seu útero.
É a savana mais rica em biodiversidade do mundo, com uma variedade imensa de ecossistemas que comportam 14 tipos distintos de Cerrado, subdivididos em formações florestais, savânicas e campestres, indo das árvores de grande porte das Matas Ciliares à descampados como os Campos Rupestre, Sujo e Limpo.

É o lar de 12.500 espécies de plantas nativas, das quais 7.300 somente são encontradas aqui, sendo importante mencionar que das espécies arbóreas, somente 180 delas são reproduzíveis em viveiros. Abrigando ainda, mil espécies de peixes e mais de 250 mamíferos, sendo o responsável por 5% da biodiversidade mundial e 30% da biodiversidade brasileira.
Dos biomas brasileiros é o veterano, dizem que sua idade data de aproximadamente 65 milhões de anos, sendo tão velho, que 70% de sua biomassa se encontra no solo, em razão disso, também é chamado de ‘floresta de cabeça pra baixo’, e essa característica peculiar é um dos motivos que dificultam sobremaneira a sua revitalização após o desmate.
Estima-se que 50% do Cerrado já não existe mais, seu ritmo de desmatamento é maior que o da Amazônia, perdendo todos os anos uma média de 9.500 km². Se esse ritmo não for bruscamente interrompido, é possível que entre 40 e 50 anos, o Cerrado e boa parte de sua riqueza hídrica e biodiversidade desapareçam ao ponto de só poderem ser conhecidas em Unidades Conservação e ilhas de vegetação isoladas num ponto ou outro.
Segundo a revista Nature Ecology and Evolution, apenas 3% do Cerrado se encontra protegido por meio de Unidades Conservação, ele não se encontra protegido nem mesmo na Constituição Federal, ao contrário da Amazônia, da Mata Atlântica, da Serra do Mar, do Pantanal Mato-Grossense e da Zona Costeira, embora haja uma Proposta de Emenda à Constituição com o propósito de modificar essa omissão, a PEC 504/2010, que pretende incluir o Cerrado e a Caatinga entre os bens considerados patrimônio nacional.
Com a nobre intenção de pressionar o Congresso Nacional a aprovar essa PEC, a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado recolhe assinaturas por meio de uma petição online (https://change.org/PatrimonioNacional) desde 2016 e a entrega das assinaturas será na Câmara dos Deputados no próximo dia 11, o Dia Nacional do Cerrado.
O drama desse importante bioma diz respeito a todos nós que nos preocupamos com o planeta, não se nega a importância da Amazônia, que é um símbolo nacional reconhecido mundialmente, mas é fundamental que despertemos da nossa cegueira diante da tragédia que se apresenta perante de nossos olhos, num momento raro de atenção midiática sobre o tema, o jornal El País fez uma matéria excelente e muito rica sobre o Cerrado no passado, com o título de “Por dentro da destruição secreta da grande savana do Brasil”, que para além dos problemas ambientais, mergulhou fundo nos conflitos sociais e na luta de pessoas que muitas vezes sozinhas e isoladas nos rincões do Brasil, ousam audaciosamente enfrentar os poderosos que tentam de todas às formas avançar impiedosamente sobre o seu território cerratense.
O Cerrado é um bioma onde os superlativos, se perdem diante de sua beleza e singularidade, belíssimo, riquíssimo e lindíssimo, são apenas pobres palavras diante de uma realidade indescritível, que os olhos vêm, o coração sente, a alma acalma e a boca se abre pra dizer algo, mas permanece em silêncio boquiaberta.
Desse modo, é urgente que o movimento ambiental acorde e defenda o Cerrado com a mesma paixão e vigor que fazem em relação aos outros biomas, com destaque para Amazônia e a Mata Atlântica, consideradas às joias de pedra esmeralda da coroa de defesa dos biomas brasileiros.
Nasci no Cerrado, passei boa parte de minha infância brincando entre suas plantas, árvores, arbustos e riachos, cresci vendo o meu pai fazer artesanato com o que o Cerrado gentilmente oferecia e se tornar um artista conhecido nacionalmente em razão desse trabalho, me sinto parte desse bioma e não poucas vezes choro diante da maldade e da ingratidão com a qual ele tem sido tratado.
Assim sendo, digo de peito aberto:
O Cerrado é o meu país! E a minha nacionalidade é cerratense!
Que fique registrado a todos e a todas, que o mundo inteiro saiba, que o Cerrado também existe e resiste! 
Que o Brasil não é só Amazônia, é Caatinga, Mata Atlântica e Araucária, Pantanal, Pampas e principalmente Cerrado!
Então, dia 11 de Setembro contamos com a Nação Cerratense para darmos um importante passo na defesa da nossa biodiversidade, das nossas águas e do nosso território.

Juan Ricthelly

Gama-DF - 2019
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*Juan Ricthelly  é advogado, ambientalista militante, coordenador do Gama Verde.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Muito vento, muita secura, muito fogo no cerrado do Gama

Quarta, 14 de outubro de 2015
Por volta do meio dia desta quarta (14/10) o cerrado pegava fogo entre o Balão do Periquito e o Palácio do Catetinho, no Gama, DF. Clique na imagem para ampliá-la.



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Jardim Botânico inaugura Centro de Excelência do Cerrado


Sexta, 28 de agosto de 2015
O Cerratenses é destinado para pesquisas e projetos ambientais que valorizam a importância do segundo maior bioma brasileiro; abertura será no dia 11 de setembro
(Brasília, 28/8/2015) – O Jardim Botânico de Brasília ganha um novo espaço para pesquisas e projetos ambientais para valorização, proteção, conhecimento e desenvolvimento de tecnologias sociais para o cerrado. O Centro de Excelência do Cerrado (Cerratenses) será inaugurado no dia 11 de setembro, no âmbito da Virada do Cerrado.
O espaço possui laboratório multidisciplinar, biblioteca digital e herbário virtual, áreas para exposições e eventos, espaço multiuso para seminários e palestras, espaço café para gastronomia regional e mirante com visão panorâmica para a Estação Ecológica Jardim Botânico de Brasília (EEJBB).

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Cerrado: O berço das águas no Brasil

Sexta, 2 de dezembro de 2011
Publicado por EcoDebate Cidadania & Meio Ambiente

Publicado em dezembro 2, 2011 por

“O Cerrado contribui para oito das 12 regiões hidrográficas brasileiras. E esse dado é importante para analisarmos a importância desse bioma em termos hidrológicos para o país”, informa Jorge Enoch Furquim Werneck Lima. Por: Thamiris Magalhães e Graziela Wolfart

“A água do Cerrado não é importante só para a manutenção do bioma e para o desenvolvimento das atividades econômicas. É relevante também para todas essas regiões que estão abaixo, como a Caatinga, no caso da bacia do rio São Francisco, do Pantanal, da região da Mata Atlântica e para as populações que vivem na bacia do rio Paraná, que acabam recebendo essas águas. Energia elétrica, navegação, indústria, a própria população, que toma a água desses rios que têm suas nascentes no Cerrado: o bioma acaba sendo fundamental para tudo isso”. A análise é do engenheiro agrícola e pesquisador da Embrapa Cerrados, Jorge Enoch Furquim Werneck Lima, na entrevista a seguir, concedida por telefone para a  
IHU On-Line.

Jorge Enoch Furquim Werneck Lima é pesquisador em Hidrologia da Embrapa Cerrados. Possui graduação em Engenharia Agrícola pela Universidade Federal de Viçosa, mestrado em Ciências Agrárias pela Universidade de Brasília e doutorado em Tecnologia Ambiental e Recursos Hídricos pelo Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília. Jorge representa a Embrapa no Conselho de Recursos Hídricos do Distrito Federal, no Conselho Diretor da Rede de Cooperação em Ciência e Tecnologia para a Conservação e o uso Sustentável do Cerrado – Rede ComCerrado/MCT, nos comitês das bacias dos rios Preto, Maranhão e Paranoá, no Distrito Federal, bem como no Conselho Gestor da APA do Planalto Central. Representa a Associação Brasileira de Recursos Hídricos – ABRH na Comissão de Coordenação das Atividades de Meteorologia, Climatologia e Hidrologia no Brasil – CMCH/MCT desde 2008.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como pode ser definida a atual situação dos recursos hídricos no Cerrado?

Jorge Enoch Furquim Werneck Lima – De uma forma geral, os recursos hídricos têm uma situação boa. O que acontece é que, em determinadas regiões, principalmente onde se têm grandes cidades ou locais que não possuem adequado sistema de saneamento, as águas que passam perto desses lugares geralmente têm problema de contaminação, ficando com a qualidade comprometida. E, em regiões onde há concentração de áreas agrícolas, principalmente de agricultura irrigada, as pessoas podem ter problema de falta de água. Isso porque se há uma grande concentração de sistemas de irrigação em uma bacia onde a quantidade de água disponível não é suficiente em determinados momentos, no período de seca, por exemplo, fica difícil suprir toda a demanda.

IHU On-Line – Qual o papel e a importância das águas do Cerrado para o desenvolvimento do Brasil?

Jorge Enoch Furquim Werneck Lima – Pelo fato de o Cerrado estar localizado no meio da região do Planalto Central, que é a parte alta, o bioma acaba funcionando como um “guarda-chuva” para o território, além de ser um grande reservatório. Por isso é conhecido como “pai das águas do Brasil”, ou o “berço das águas”. Pelas características de seu solo, ele tem uma capacidade boa de infiltração da água da chuva e armazenamento dessa água, que é liberada. No Cerrado, têm-se duas estações muito bem definidas: uma chuvosa e outra seca, com pouquíssima chuva. Então, graças a essa capacidade do solo de infiltrar e armazenar a água e de liberá-la de forma mais lenta, o bioma acaba funcionando como um grande reservatório e consegue abastecer nossos rios, inclusive no período seco. Por estar na região alta e central, o Cerrado tem um papel fundamental também na distribuição dessa água pelo território brasileiro e sul-americano, principalmente se pensarmos na Bacia do Rio da Prata. Todos os usos que são feitos nas bacias que recebem água do Cerrado acabam sendo dependentes. E as pessoas que moram nessas regiões acabam ficando dependentes também. Se pensarmos em bacias como a do São Francisco, como o próprio Pantanal, a bacia do rio Paraná e Tocantins, veremos que todas as pessoas que estão nelas acabam recebendo água do Cerrado. E todas as atividades econômicas que são desenvolvidas nessas bacias acabam tendo vinculação com as águas que são produzidas dentro do território do bioma. Isso vale para quase todo o Brasil. A água do Cerrado não é importante só para a manutenção do bioma e para o desenvolvimento das atividades econômicas. É relevante também para todas essas regiões que estão abaixo, como a Caatinga, no caso da bacia do rio São Francisco, do Pantanal, da região da Mata Atlântica, e para as populações que vivem na bacia do rio Paraná, que acabam recebendo essas águas. Energia elétrica, navegação, indústria, a própria população, que toma a água desses rios que têm suas nascentes no Cerrado: o bioma acaba sendo fundamental para tudo isso.

IHU On-Line – Quantas são as regiões hidrográficas brasileiras e quantas recebem contribuição hídrica do Cerrado?

Jorge Enoch Furquim Werneck Lima – O cerrado contribui para oito das 12 regiões hidrográficas brasileiras. Esse dado é importante para analisarmos a importância desse bioma em termos hidrológicos para o país. Temos outros dados interessantes: cerca de 70% da água que sai na foz da bacia do Tocantins–Araguaia, por exemplo, vem do Cerrado; cerca de 90% da água que sai na foz do rio São Francisco vem do bioma; cerca de 50% da água que sai na foz do rio Paraná, no território brasileiro, da água que chega a Itaipu, por exemplo, vem do Cerrado. Ele manda mais água para o Pantanal do que este joga de água no rio Paraguai. Além disso, tem uma contribuição relevante também na bacia do rio Parnaíba. Pelo fato de o restante da bacia ser de zona semiárida, o Cerrado tem uma importância bastante relevante para ela também. Então, a contribuição hídrica desse bioma é bastante expressiva.

IHU On-Line – Qual a contribuição que o Cerrado oferece às usinas hidrelétricas brasileiras?

Jorge Enoch Furquim Werneck Lima – No caso de Itaipu, por exemplo, o Cerrado contribui com cerca de 50% da água que passa pela usina, que é imensa. Mas além desta, tem todas as outras usinas que estão na calha. Como o bioma está na região mais alta da bacia, 100% da energia gerada em Três Marias – MG é com água do Cerrado. 90% da água que passa em Xingó vem do Cerrado. Além dessas, 70% da água que passa na Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no rio Tocantins, sai do bioma Cerrado.

IHU On-Line – Diz-se muitas vezes que no Cerrado há apenas seca. Seu trabalho, no entanto, mostra que a água do bioma é responsável por abastecer grande parte do território brasileiro. Quais os fatores que levam as pessoas a terem esse tipo de visão?

Jorge Enoch Furquim Werneck Lima – O fato de o Cerrado ficar quatro ou cinco meses com pouquíssima chuva e, muitos meses, sem chuva alguma acaba dando essa impressão. Também pelo fato de as árvores do Cerrado serem tortas e o tipo de vegetação acaba dando uma impressão de que todas as vezes que alguém pensa no Cerrado, pensa na árvore torta, solta. Mas durante boa parte do ano o Cerrado é bastante verde. No bioma, temos regiões de mata, mas também temos regiões que são apenas de gramíneas, por exemplo, que é o campo limpo e o cerradão. Este último parece uma mata enquanto nossos campos de gramíneas são campos limpos. Ademais, o Cerrado tem divisa com quase todos os biomas; só não tem com o Pampa , que é mais ao sul. Mas tem com a Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal  e Amazônia . E isso faz com que o Cerrado tenha uma biodiversidade muito grande e tenha uma variabilidade na chuva também, uma vez que perto da Amazônia chove muito mais que perto da Caatinga. A questão é que as chuvas no bioma são concentradas em seis, sete meses do ano. E no período seco têm-se umidades na faixa de 15%, o que fica sendo noticiado nos jornais o tempo todo, além das queimadas, etc. Então, tudo isso ajuda a formar uma ideia de que o Cerrado é uma região muito seca. Mas não é.
IHU On-Line – Qual a contribuição que as águas do cerrado oferecem às cidades e às terras agrícolas?

Jorge Enoch Furquim Werneck Lima – Por conta dessas características do bioma, os rios conseguem resistir à seca, em geral, o que é fundamental para o abastecimento de qualquer que seja a atividade e para o abastecimento humano também. Então, o Cerrado tem essa capacidade de infiltração e armazenamento. E o fornecimento de água para o rio faz com que se tenha, ao longo do ano, um bom abastecimento de água, seja ele para as cidades ou para irrigação. A própria chuva do bioma, por perdurar por cerca de seis meses, acaba permitindo, mesmo quando não se tem uma agricultura irrigada, cerca de duas safras por ano, em uma mesma área. Se ainda houver irrigação, consegue-se fazer, mesmo assim, uma terceira safra.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?

Jorge Enoch Furquim Werneck Lima – Hoje, o Cerrado é considerado o “celeiro do mundo” porque tem um potencial agrícola muito grande. Com o desenvolvimento da tecnologia, essa região tornou-se altamente produtiva. Devemos olhar com atenção para esse bioma, que tem ainda grande potencial para o desenvolvimento da agricultura, mas tentando a todo instante incrementar a produção nas áreas que já foram abertas. Nós temos tentado recuperar as áreas um pouco mais degradadas ou menos produtivas, sem ter que abrir mais áreas do Cerrado. Pelo fato de essa área ser muito importante para os recursos hídricos do Brasil, ela tem que ser olhada com um carinho especial, uma vez que qualquer problema que aconteça com ela pode ser transferido para muitas outras áreas do país. Então, temos que pensar em um planejamento adequado do uso do solo do Cerrado, otimizando os nossos recursos naturais, tanto o solo como a água, bem como o uso dos insumos agrícolas, e tomando todos os cuidados para que não tenhamos futuros conflitos.

(Ecodebate, 02/12/2011) publicado pela IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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