ENTREVISTA COM A PROFESSORA FÁTIMA SOUSA
Fátima Sousa é uma paraibana, professora da Universidade de Brasília, onde foi Diretora da Faculdade de Ciências da Saúde-FS/UnB, na qual coordenou o Núcleo de Estudos de Saúde Pública-NESP/UnB, implantou o Mestrado Profissional em Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências da Saúde, e ajudou a criar o campus da UnB na Ceilândia. Mestra, Doutora em Enfermagem e gestora pública, Fátima Sousa foi uma das criadoras do SUS, pelo qual lutou para que fosse criado na Constituinte de 1988. Ela coordenou, em todo o Brasil, o Programa de Agentes Comunitários de Saúde-PACS e contribuiu para a implantação da Estratégia Saúde da Família-ESF. Fátima Sousa dedica-se, há mais de quarenta anos, à saúde e à gestão pública. Em 2018, foi candidata a Governadora do Distrito Federal pelo PSOL e, atualmente, é candidata a Deputada Federal pelo mesmo partido político.
No decorrer desta entrevista ao Gama Livre, concedida a Salin Siddartha, a Professora Fátima Sousa falou a respeito da defesa dos direitos das mulheres e da carga de machismo que recai sobre elas, alertando para a necessidade de assegurar-lhes empregabilidade, de investir na participação da mulher como protagonista no desenvolvimento da ciência e como força-de-trabalho qualificada, incluindo as mulheres trans, que, infelizmente, não têm acesso a emprego nem a educação, haja vista a discriminação social que sofrem. Disse que, se for eleita deputada federal, se propõe a enfrentar o Centrão a fim de aprovar mais recursos para a saúde, já que esse setor vem sendo constantemente desfinanciado na execução dos orçamentos anuais.
Fátima Sousa apontou-nos o fato de que as universidades públicas vivem uma crise crônica e profunda que se agudiza cada vez mais, assim como narrou os problemas que envolvem a dificuldade de acessibilidade e permanência dos estudantes no ensino superior; na opinião dela, falta democratização nos espaços de gestão das universidades públicas. Declara-se uma mulher democrática, humanista, que preza pela paz, dialógica, competente e agregadora que, como deputada federal, irá dedicar-se a contrapor-se ao negacionismo ultradireitista, apresentando propostas civilizatórias.
Para Fátima Sousa, não se pode abrir mão do dispositivo constitucional que consagra o Estado brasileiro como um Estado laico; portanto, deve-se respeitar a fé de cada um às diferentes formas de expressão religiosa, dizendo não a qualquer tipo de violência resultante de intolerâncias. Segundo ela, o presidente Jair Bolsonaro enuncia uma indigna falsidade ao falar que governa apenas para a maioria, pois, ao assumir essa posição, ele omite que só governa é para o seu grupo de interesse. A seu ver, é preciso requalificar o Congresso Nacional para que os parlamentares votem a favor daqueles que ainda não têm acesso permitido na inclusão social, como é o caso da população negra, das mulheres desempregadas, das mulheres do campo, dos agricultores familiares, e que se pare com essa confusão conceitual de que são minorias as populações negras, LGBTQI+ e as mulheres, que sempre foram colocadas em situação de vulnerabilidade, porque essas populações são, em si mesmas, maiorias pela própria recepção social que elas angariam em suas lutas.
Fátima Sousa inclui a questão do meio ambiente na sua agenda histórica, salientando que o projeto de reforma sanitária brasileira tem no meio ambiente seu eixo estruturante e desenvolve o raciocínio de que não ocorre desenvolvimento do País com a destruição de nossas matas, com a poluição de nossos mares e rios. Cita que o Congresso Nacional e o governo é que criam essa polêmica falsa e desmedida de que é preciso acabar com a Amazônia e com o cerrado para garantir o progresso.
A entrevistada falou sobre sua presença, há décadas, no movimento que estabeleceu o modelo de atenção diferenciada à saúde, contou como o SUS foi construído e narrou a importante participação dela nessa construção que trouxe diversos avanços; mas ela também expôs que existem diversos desafios que traduzem o SUS como uma obra ainda incompleta, que clama para que os governos parem de desfinanciá-lo. Fátima Sousa destaca, também, o desmantelo que acontece quando se põe alguém para gerir um sistema de saúde que lhe é desconhecido, tal qual ocorreu com o mau exemplo de o governo atual ter nomeado para o cargo de Ministro da Saúde um militar que nunca tinha, sequer, ouvido falar em sistema de saúde.
A seguir, publicamos a entrevista na íntegra.
Salin Siddartha — Como você vê uma política de inclusão da defesa dos direitos da mulher?
Fátima Sousa — Essa é uma agenda central para qualquer governo democrático e popular, qual seja a de ter a mulher na centralidade das políticas públicas. Quando eu coordenei o Núcleo de Estudos de Saúde Pública, criamos dois observatórios dedicados às políticas públicas das mulheres: o da mulher negra e o das mulheres que viviam no plantio da cana-de-açúcar, ou seja, na agricultura familiar em geral, mas com destaque para a da cana-de-açúcar; então, defendo a centralidade da política da mulher, tanto para a empregabilidade quanto para os processos educacionais (desde as creches até o ensino superior). Porque a mulher, não só do ponto de vista quantitativo, pois somos mais de cinquenta por cento da população brasileira, inclusive as mulheres idosas também constituem a maioria, o que deve levar o Estado brasileiro a ter de prestar-lhe a devida atenção com relação a políticas públicas para elas. Isso, sem falar nos desafios que estão postos em nossa condição de gênero; por exemplo, a mulher ganha menos do que o homem, embora exercendo o mesmo ofício, e tem uma carga de trabalho triplicada, porém, na representação política, seu papel é, ainda, ínfimo.







