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sábado, 20 de fevereiro de 2021

Quem prenderá os generais?

 Sábado, 20 de fevereiro de 2021

Quem prenderá os generais? 


Manuel Domingos Neto

Roberto Amaral

     Visitávamos  Wanderley Guilherme dos Santos em meados de 2018. Ao saber que generais articulavam a campanha eleitoral de Bolsonaro, inclusive com envolvimento da “família militar”, Wanderley disse que daria voz de prisão se um deles lhe falasse algo neste sentido.

     A lembrança nos ocorre quando o general Villas Bôas confirma, em depoimento colhido por Celso Castro (FGV), que, apoiado no Alto Comando do Exército, constrangeu o STF e afastou o candidato favorito.

     A cúpula militar sabotou as eleições em benefício próprio. Seus integrantes assumiram importantes cargos no governo que ajudaram a eleger; seus protegidos foram agasalhados na administração pública. Contam-se aos milhares. 

     Militar que intimida juiz deve ser julgado e preso, assim como o magistrado que não se dá ao respeito.

     Quem prenderá os generais que agiram contra a soberania popular? Quem julgará a Corte que se deixou intimidar, e, intimidada, fraudou o direito?

     A relação espúria entre a farda e a toga estava clara desde que um general estrategista da campanha de Bolsonaro fora “escalado” para assessorar o presidente do STF. Carecesse a Corte de um entendido em assuntos militares, que convidasse um civil especializado e infenso aos cortejos castrenses!

     As revelações de Villas Bôas (e de seu amigo-irmão Sergio Etchegoyen?) confirmam que o Brasil não dispõe dos generais de que precisa. A alta hierarquia de hoje foi formada na década de 1970, a mesma safra de Bolsonaro nas Agulhas Negras. 

     O padrão intelectual e moral do Capitão-presidente já revelara a necessidade de revisão profunda do ensino militar  e dos critérios de  promoção hierárquica. Agora, o próprio ex-comandante do Exército, com sua quase autobiografia,   reforça essa necessidade. 

     As “memórias” de Villas Bôas retratam o Exército. Ajudam a conhecer a corporação que custeamos e que nos desrespeita. Revelam a mentalidade militar, a indigência intelectual, o descompromisso com a sociedade e a democracia. Evidenciam a soberba corporativa e a estreiteza em assuntos estratégicos decorrente de alongada filtragem política e ideológica. 

     O anedotário castrense de Villas Bôas sugere que a vida nas fileiras é uma festa. Durante uma manobra na floresta amazônica, que o povo chama de mata e os soldados, de selva, um helicóptero da Aviação do Exército pousa inesperadamente e um tripulante corre para entregar uma revista Playboy ao comandante. Não importa quem pagou a conta da brincadeira engraçadíssima.

     O anedotário também naturaliza a prevaricação: o general não se ofendeu nem tomou providências quando lhe procuraram demandando um golpe militar. Aliás, registrou as manifestações da “família militar” pedindo a ditadura como demonstração da respeitabilidade e da legitimidade do Exército. 

     Villas Bôas diagnostica a grande ameaça à sociedade brasileira: a prevalência do “politicamente correto”! Segue na esteira de Avelar Coutinho, um pioneiro do pensamento ultraconservador disseminado com recursos públicos  pela Biblioteca do Exército, cuja obra foi analisada por Eduardo Costa Pinto.

     O memorialista tem dificuldade para explicar o sentido desta expressão oriunda do neoconservadorismo estadunidense, mas a considera invenção da esquerda mancomunada com a devassa Rede Globo. O “politicamente correto”, acredita, desfaria os valores que fundamentam a sociedade brasileira. 

     Provindos esses valores da sociedade escravocrata, não há como negar: o militar brasileiro é antes de tudo um neocolonial. Rejeita mudanças sociais e acredita que lhe cabe preservar as discriminações selvagens do passado. Esta crença justificaria a militância política dos quartéis

     Feito um bandeirante, Villas Bôas disserta sobre os índios e a Amazônia. Acha que ninguém conhece a floresta como o militar. O Exército saberia o que precisa ser feito para defender esse patrimônio nacional.

     Assim como Bolsonaro, o general não atribui relevância às organizações populares, aos cientistas, ambientalistas e instituições públicas civis da região, que seriam onerosas, ineficazes e corruptas. A legenda Chico Mendes, inclusive, seria uma criação de mal intencionados. Daí o apoio entusiástico ao ministro Ricardo Salles em sua cruzada contra os agentes públicos voltados para a defesa ambiental e a proteção aos nativos remanescentes. De igual, não nega sua admiração pela inépcia, e saúda seu camarada general Pazuello.

     O silêncio do General sobre a dependência das Forças Armadas em relação à potência militar hegemônica é outra marca de sua índole neocolonial. Villas Bôas não sabe ou finge não saber que a modernidade militar em países sem capacidade científica, tecnológica e industrial avançada representa uma forma de dominação astuciosa e eficaz das grandes potências. 

     No caso brasileiro, os generais do passado até buscaram autoritariamente a autonomia, mas fracassaram. O país foi industrializado e passou a dispor de uma pujante comunidade científica, mas persistiu militarmente caudatário dos Estados Unidos e incapaz de dissuadir agressores estrangeiros operacionalmente autônomos. Não pode guerrear sem o aval da potência hegemônica, à qual cede tudo, inclusive sua formação ideológica.  

     A impotência para defender a Amazônia é admitida por Villas Bôas quando menciona a “estratégia de resistência” que, em resumo se traduz no preparo de “rambos” para a guerra de guerrilhas. Não contra estrangeiros, certamente, que não seriam parvos ao ponto de pretender ocupar a floresta. Villas Bôas exalta o centro de treinamento de combate na selva sabendo que o eventual emprego dos adestrados será contra brasileiros que ousem se insurgir contra o governo.

     A alardeada defesa militar da Amazônia, assim como a do Atlântico Sul, não passam de quimeras. Servem apenas de argumento na disputa por recursos públicos. Como diz Héctor Saint-Pierre, o Brasil paga caro para não ter defesa militar.

     Villas Bôas comenta a intervenção federal no Rio de Janeiro durante o governo Temer sem esclarecer os motivos desta perdulária e vã iniciativa. Sua abordagem reforça a tese de Piero Leirner de que se tratou de uma pavimentação da campanha de Bolsonaro. 

     Questionado por sua pouca convivência social por ser filho de militar e vivido sempre no meio castrense, Villas Bôas responde que o problema foi resolvido em sua passagem pela ESG, também frequentada por civis! Haveria melhor exemplificação do distanciamento das fileiras em relação à sociedade?

      A ordem mundial em transe parece não fazer parte das preocupações do Exército. O General ignorou a temática. Passou dois anos como adido militar na China e trouxe a notável informação de que no mercado chinês é possível encontrar carne para um bom churrasco!

     O seu despreparo para discutir os problemas da defesa militar ficou mais patente ao ignorar a promissora inserção hemisférica desenvolvida durante o governo Lula. Alguém medianamente introduzido em assuntos de defesa sabe que as parcerias então desenvolvidas constituíam lastro precioso para o desenvolvimento do poder militar. 

     É constrangedora a incapacidade do ex-comandante do Exército em reconhecer a missão que lhe foi confiada pela sociedade brasileira. Falta-lhe cultura e tirocínio militares; sobram-lhe atributos de político matreiro, disposto a jogar em favor de seu partido. 

     Villas Bôas diz não ter deixado a política entrar no quartel. Mas, enquanto afiava a língua contra a esquerda ao ponto de creditar a Lula a degradação moral da sociedade, operou em favor de seu candidato. Ainda como deputado, Bolsonaro teve acesso franco às instalações militares para entusiasmar mulheres e homens enfileirados.

     A divulgação das memórias do general parece pretender naturalizar crimes da alta hierarquia e avisar que as fileiras querem persistir no mando conquistado sem glória, lembraria João Roberto Martins Filho.

     Para quem gosta da liberdade e do primado da soberania popular,  a leitura desse livro permite concluir que não teremos democracia, desenvolvimento benéfico ao povo e digna inserção no mundo sem mexer no aparato de força do Estado brasileiro.

     O militar percebe a sociedade com viés próprio e imagina-se capaz de ditar seus rumos. Isso nunca deu certo. As fileiras que precisamos são as que sejam capazes de acatar os desígnios de seu provedor, o povo brasileiro. Livre de tutelas salvadoras, poderemos definir o que queremos ser. 

     Até aqui os fardados têm dito que sociedade devemos ser. Já está na hora de a sociedade dizer que tipo de soldado ela quer.


quinta-feira, 2 de abril de 2020

A DISSIMULAÇÃO DE BOLSONARO

Quinta, 2 de abril de 2020
Por
          Manuel Domingos Neto
Roberto Amaral

Ontem à noite, 31 de março, o presidente da República fingiu mudar de posição, passando a endossar as recomendações da Organização Mundial de Saúde para que as pessoas fiquem em casa. Simulou abandonar a insensatez e a vilania que rapidamente o projetaram como figura execrável na cena internacional.

Simulou abraçar a ciência, abandonar o terraplanismo e demonstrar empatia. Admitiu um agrado ao general Pujol, comandante do Exército, repetindo frase sua em recente manifestação. Tentou também, com extrema dificuldade, simular que governa.

Ingênuos e precipitados viram sua fala em rede nacional como um “recuo” diante da crescente reação de repúdio da sociedade; outros perceberam um “enquadramento” pelos militares. Houve ainda quem entendesse que o Presidente tentava driblar o atropelamento protagonizado por congressistas, governadores, prefeitos, procuradores, juízes e generais, todos procurando agir para atenuar o sofrimento anunciado da população.

Contraditado pela grande mídia e censurado pelos donos de redes sociais, Bolsonaro, apesar do jogo de cena, do arranjo das palavras e frases, não recuou: persistiu na crença de que a “gripezinha” não pode “parar o Brasil” e que todos devem voltar ao trabalho.

É a conclusão possível se considerarmos dois aspectos básicos: a manipulação da fala do Diretor da OMS e a criminosa postergação da entrega dos recursos necessários para manter as pessoas em casa.

A orientação da OMS, pela boca de Tedros Adhanom, seu diretor-geral, é a de que os Estados devem garantir aos mais vulneráveis meios de sobrevivência em casa. Do contrário, o isolamento não seria viável. Impossível milhões de pessoas aceitarem morrer de fome dentro de casa. Bolsonaro omitiu o mais relevante da fala do dirigente da OMS.

Hoje pela manhã acordou abrindo baterias contra os governadores e isentando-se de responsabilidade quanto às atribulações vividas pelo povo.

Bolsonaro escamoteou as iniciativas parlamentares e as decisões judiciais de liberar dos recursos necessários para enfrentar o vírus. Os parlamentares denunciaram imediatamente a demora do governo para sancionar pertinente decreto aprovado pela  Câmara dos deputados. Na prática, esse atraso sabota e anula a orientação de ficar em casa. Milhões de trabalhadores formais e informais não resistirão reclusos. As pequenas empresas de prestação de serviços não suportarão/ não resistrão a uma paralisação de mais alguns dias. Os recursos precisam ser liberados imediatamente, assim como cestas básicas para os milhões de brasileiros aglomerados em condições insalubres nas periferias das cidades.

            O problema de Bolsonaro não é apenas sua índole terrorista, bem conhecida de seus instrutores nas escolas militares ou seu notório despreparo intelectual. Tampouco sua notável incapacidade de governar ou sua inapetência para a negociação  e o entendimento político. O problema do Presidente não é ainda o seu reacionarismo extremado, sua cultura do ódio, sua aversão ao diferente.

O problema de Bolsonaro é seu ardente apego ao projeto de destruição de traços solidários da convivência humana que alimentou ao longo da vida, e que persiste abraçado por uma razoável porção de brasileiros. O homem é um sociopata que, para estarrecimento de muitos que julgavam conhecer bem a sociedade brasileira, encontra seguidores. Um significativo contingente persiste,  entusiasmado, apoiando Bolsonaro.

A pesquisa encomendada pela Folha de São Paulo e difundida nesta semana indica que 45% dos brasileiros é contra o impeachment do Presidente. Essa posição é endossada por 53% dos que ganham entre 5 a 10 mil reais. O apoio entre os evangélicos é disparado: 69% rejeitam a ideia de impeachment. Enquanto 55% dos que se declararam católicos são favoráveis ao impeachment, somente 25% dos que se apresentam como evangélicos o aceitam.

Segundo a pesquisa, o apoio ao impeachment registrou um leve crescimento de 44.8% para 47.7% entre 18 e 25 de março, em que pese as notícias aterradoras dos efeitos do Convid-19, o empenho da maioria dos governadores e prefeitos em esclarecer a sociedade sobre as ameaças que pairam sobre todos e o fato de 84% da população revelar medo de perder amigos e familiares por conta da doença.

As mulheres são mais firmes que os homens no apoio ao impeachment. O mesmo quanto aos nordestinos, relativamente aos sulistas e sudestinos. Neste caso, há um reflexo da ação conjunta dos governadores, além do fato de ser sempre o Nordeste que, desde as eleições, rejeita Bolsonaro com mais firmeza. Enquanto 55% dos nordestinos querem o impeachment, apenas 38% dos sulistas apóiam esta iniciativa.

A sociedade está estressada: 75% dos entrevistados estão em pânico. Os que têm medo de morrer são 39% e os tem medo de pegar a doença são 36%. Muitos ainda não sentem o emprego ameaçado. Só 9% dizem que já perderam o emprego. Coerentemente, a maior preocupação é com a vida das pessoas (72%) e só 21% priorizam a economia. Apesar de sua magnitude, a pandemia ainda não estimulou percepções de cataclismo econômico. Para 43% dos brasileiros a crise ainda não causou impacto sobre sua renda, mas 61% esperam pela recessão ainda este ano. Os dados relativos à renda são reveladores da percepção coletiva. Os apoiadores do impeachment são maioria apenas, entre os que percebem até 2.000. Na medida em que a renda vai aumentando, aumenta os que querem a permanência de Bolsonaro.

Das revelações da pesquisa encomendada pela Folha, a mais significativa para a reflexão sobre o futuro imediato, que demanda arranjos político para enfrentar uma crise de proporções ainda não calculadas, diz respeito à imagem dos líderes políticos. Sem referenciais políticos, fica difícil imaginar um entendimento emergencial legitimado pela sociedade. A pesquisa mostra um quadro muito favorável aos conservadores.

Para a pergunta “você tem uma imagem positiva ou negativa destes líderes políticos?”, a pesquisa apresentou uma lista com nove nomes. Moro é visto positivamente por 53% dos pesquisados, muito acima do segundo colocado, seu chefe Jair Bolsonaro, que empata com Paulo Guedes, ambos com 39% de imagem positiva. Lula amarga um quarto lugar, com 33% e Fernando Haddad com 27%.

Os outros nomes mencionados, com a exceção de Ciro Gomes (24%), formam o trio das “novas lideranças”, todas do campo da direita: Luciano Hulk (21%), Rodrigo Maia e João Dória, ambos com 20%.

Esse panorama, em seu conjunto, deve mudar rapidamente tendo em vista as  previsões dos epidemiologistas. As notícias sobre o avanço da doença nos Estados Unidos certamente rebaterão sobre os brasileiros mais do que as calamidades da Itália e da Espanha.

Ao que tudo indica, o comando do Exército prevê abalos de grandes dimensões. Disse aos seus comandados o general Pujol que a luta contra a pandemia seria a missão mais importante de sua geração.

Os analistas se dividem na interpretação de seu discurso. Alguns consideram que, mesmo contraditando o seu superior, no caso, o capitão afastado das fileiras e eleito presidente, Pujol emprestou-lhe apoio.

O fato que ninguém de sã consciência poderia/pode negar é que Bolsonaro, o provocador incendiário, é um entrave para o estabelecimento de uma ação governamental minimamente razoável numa crise dessas dimensões. Os hospitais ainda não entraram em colapso e os mortos estão sendo enterrados de forma ordenada. Como reagirá a sociedade com a rápida deterioração dos próximos dias?