Quinta, 30 de abril de 2026
VERGONHA
Congresso derruba veto de Lula sobre PL da dosimetria e alivia penas de golpistas
Votação foi marcada por embates entre governo e oposição sobre condução do processo legislativo e impactos da proposta
Brasil de Fato — Brasília (DF)
30.abr.2026
O presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União Brasil), liderou a derrubada do veto presidencial | Crédito: Carlos Moura/Agência Senado
O Congresso Nacional derrubou o veto do presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) ao Projeto de Lei da Dosimetria, que beneficia os condenados pelos atos golpistas do 8 de janeiro de 2023, inclusive o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e militares condenados por tentativa de golpe de Estado.
A votação foi realizada primeiro na Câmara dos Deputados. Foram 318 votos pela derrubada do veto, 144 pela manutenção e 5 abstenções. No Senado, o veto também foi rejeitado, com 49 votos pela derrubada e 24 a favor da manutenção, consolidando a decisão do Congresso Nacional.
A votação foi realizada primeiro na Câmara dos Deputados. Foram 318 votos pela derrubada do veto, 144 pela manutenção e 5 abstenções. No Senado, o veto também foi rejeitado, com 49 votos pela derrubada e 24 a favor da manutenção, consolidando a decisão do Congresso Nacional.
Com a decisão, as penas dos condenados pelos atos golpistas, de Bolsonaro e dos que articularam a tentativa de golpe de Estado podem ser reduzidas, já que as punições pelos diferentes crimes não podem mais ser somadas.
Hoje, o Supremo Tribunal Federal (STF) entende que as penas pelas condenações por tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, que tem pena de quatro a oito anos de prisão, e a de tentativa de golpe de Estado, que tem pena de quatro a 12 anos, podem ser somadas.
Com a promulgação do PL da Dosimetria, a pena de Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão, muda: antes da lei, ele passaria ao regime semiaberto em setembro de 2033, mas, com a nova legislação, o prazo pode ser reduzido pela metade.
O texto também pode beneficiar outros 179 presos pelos atos antidemocráticos, sendo 114 em regime fechado, 50 em prisão domiciliar e 15 em prisão preventiva.
A votação ocorreu em sessão conjunta do Congresso Nacional e foi marcada por intensos debates sobre a condução do processo. A base do governo questionou a análise do veto, afirmando que o projeto é “inconstitucional”. Além disso, contestaram a manobra de dividir o projeto, com a prejudicialidade.
Eles se referem ao fato de o presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União-AP), ter desmembrado o veto integral do presidente Lula ao PL da Dosimetria. Foi isso que permitiu reduzir as penas dos condenados de 8/01 sem alterar as regras mais rígidas previstas na Lei Antifacção para crimes como feminicídio, atuação de milícias e outros delitos hediondos.
A manobra de Alcolumbre excluiu da votação os trechos do veto que tratavam da progressão do regime fechado para o semiaberto, dispositivos que, segundo ele, conflitavam com mudanças aprovadas posteriormente pela Lei Antifacção. Na prática, isso permitiu que o Congresso analisasse apenas os trechos compatíveis com a legislação vigente, o que tornou mais fácil a rejeição ao veto de Lula.
Durante a sessão, o líder do PT na Câmara, deputado federal Pedro Uczai (PT-SC), pediu questão de ordem contra a votação do PL por entender que outros vetos teriam preferência, mas o apelo foi rejeitado por Alcolumbre.
“Nós estamos votando o tema da democracia e, portanto, o futuro de novas aventuras golpistas se derrubar este veto, uma vez que está defendendo um grupo determinado, que é o de Jair Bolsonaro, e os generais golpistas que tentaram implantar golpe no país”, disse a liderança governista.
Alcolumbre afirmou que a definição da pauta legislativa é prerrogativa da presidência e indeferiu questões de ordem apresentadas por parlamentares de diferentes partidos.
O presidente também citou dispositivos como o artigo 48 do Regimento do Senado e o artigo 163 do Regimento Comum para sustentar que a inclusão de matérias na ordem do dia considera critérios de relevância e deliberação da presidência.
Segundo ele, esse “juízo” é construído a partir da interlocução com lideranças partidárias. “Foi com base nesse juízo que a presidência, acolhendo diversos pedidos, convocou a sessão conjunta de hoje para tratar exclusivamente do Veto 3 de 2026”, disse.
Críticas e embates políticos
A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT-PR), criticou a condução da proposta e classificou a sessão como “uma sessão que envergonha o país”. Ela afirmou que o processo legislativo em curso representa riscos à democracia.
Gleisi também rebateu a narrativa de polarização baseada em ódio político e afirmou que esse ambiente se intensificou com a ascensão do ex-presidente Jair Bolsonaro. “O ódio veio para a pauta da política quando Bolsonaro entrou na disputa”, disse.
Durante o debate, parlamentares ainda levantaram críticas sobre articulações políticas envolvendo outras pautas e indicações para tribunais superiores, apontando influência de interesses políticos e econômicos nas decisões do Legislativo.
A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) afirmou que crimes contra a democracia não podem ser relativizados e representam ataques a direitos fundamentais. Segundo ela, a democracia garante liberdades como expressão, organização e ensino, e precisa ser protegida institucionalmente.
“Quando se fala em vetos anteriores, é preciso ser honesto com os fatos: todos aqueles citados eram vetos parciais, não totais. Isso muda completamente o entendimento do que está sendo discutido aqui”, afirmou.
A parlamentar também criticou os atos de 8 de janeiro e suas consequências jurídicas. “Não há mais como relativizar o que aconteceu. As instituições foram colocadas sob ataque e isso precisa ter consequência clara dentro do Estado de direito”, disse.
Defesa do relatório
O relator do projeto, deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), afirmou que o debate ultrapassa o conteúdo técnico da proposta e envolve o papel institucional do Parlamento.
Ele classificou o veto como um “erro político e jurídico” e defendeu a proposta. “A dosimetria da pena não é uma escolha ideológica, é uma obrigação constitucional para garantir proporcionalidade e evitar injustiças”, afirmou.
O senador Rogério Marinho (PL-RN) também criticou a decisão do governo e afirmou que o debate ocorre em um momento de forte tensão política. Ele acusou adversários de adotarem uma postura de “ódio e ressentimento”.
“O que nós assistimos aqui é o discurso do ódio, do rancor, do ressentimento”, disse.
Editado por: Rafaella Coury e Rodrigo Gomes
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