Segunda, 13 de julho de 2026
O caso Stuart Angel e a importância de recordar
Ao examinar arquivos da ditadura, Sebastião, militante operário, descobre que o jovem que abrigou, em 1971, era estudante que seria assassinato pelos militares. Caso ilustra como memórias pessoais, testemunhos e historiografia se complementam no combate ao apagamento histórico
OUTRASPALAVRAS História e Memória
Por Henri Acselrad
Publicado 13/07/2026
No dia 7 de julho de 2026, a Universidade Federal do Rio de Janeiro concedeu a Stuart Edgar Angel Jones o diploma de graduação em Economia. Passavam-se cinquenta e cinco anos desde seu assassinato por agentes da Ditadura. Stuart era então estudante e militante da luta contra o regime de exceção. A atribuição do diploma a quem teve seus estudos interrompidos pela ação criminosa de torturadores é um ato simbólico. Ele exprime o repúdio ao arbítrio e à violência de Estado que vigorou no país entre 1964 e 1985 e que tem, ainda hoje, sinistros adeptos. A cerimônia de assinatura do diploma e a homenagem feita, simultaneamente, aos demais 25 estudantes da mesma Universidade que sofreram o mesmo bárbaro tratamento foi, ao mesmo tempo, um ato de rememoração e de documentação histórica. Como dizia Zuzu Angel, heróica mãe de Stuart, também morta pela Ditadura por sua coragem em denunciar a violação sistemática dos direitos pelo regime de exceção: “A história de meu filho vai entrar para os livros de história”. A memória coletiva se faz acompanhar agora por um documento que registra justamente para a História a força e o sentido do engajamento deste entre tantos militantes vitimados pela violência da repressão ditatorial.
Quais são os sentidos do ato de rememorar? Entre as diferentes metáforas para o trabalho de rememoração, há, por exemplo, referências à Arquitetura: a memória seria uma espécie de construção, composta de relatos e imagens. Há também menções à Arqueologia: a memória faria uma escavação das camadas profundas de experiências passadas. É comum também a metáfora da Cartografia: rememorar seria rever os espaços percorridos no passado para melhor mapear e definir as trajetórias do presente1. As lembranças afloram também nos lugares e precisam de localização para funcionar. Lugares de memória são hoje demarcados para resgatar coletivamente este passado ditatorial mal conhecido2. A localização das instalações onde concentraram-se as práticas da tortura durante a Ditadura são assinaladas para confrontar os que promovem o esquecimento, os que festejam ditaduras e cultivam a desumanidade. São fortes os sinais de que a ausência de um trabalho de memória nas escolas e o silenciamento sobre os crimes da Ditadura favoreceram o surgimento de parcelas da opinião pública alimentadas pela ignorância e a exploração da ignorância sobre a História do país. É preciso lembrar que um trabalho de mascaramento dos fatos foi desenvolvido ativamente, não só em meios militares, mas também fora dele.
Como afirma a escritora Siri Hustvedt, “a memória só concede os seus dons quando sacudida por algo do presente”3. A presença viva de uma ideologia neofascista no pais e no mundo é hoje um alerta para sacudir nossa memória. É visível a convergência que hoje se configura entre, por um lado, os valores de um projeto neoliberal – que enaltece a concorrência social-darwinista, que produz e justifica as desigualdades como inerentes à competição – e, por outro, a discriminação ofensiva que sujeitos autoritários exibem em relação aos despossuídos e aos diferentes. Reconstituir uma memória fiel à experiência dos que têm e tiveram, ao longo da história, sua dignidade e seus direitos desrespeitados é um passo importante para se barrar a reprodução do autoritarismo, do racismo, do machismo e das desigualdades.
No mito grego da invenção da escrita pelos deuses, o deus Theuth jactava-se de que a escrita seria um recurso salvador para a memória e para o saber4. O Rei Thamus, por sua vez, o contestou, alegando que a escrita poderia, ao contrário, levar a que os homens se descuidassem da memória: eles poderiam passar a confiar excessivamente nos textos escritos, ao invés de gravar as recordações vivas em suas próprias almas. Sabemos que o apreço aos livros e documentos como registros escritos da memória e do conhecimento deve ser acompanhado do estímulo à sua preservação, dadas as ameaças de sua possível destruição. Mas sabemos também que esses registros impressos devem ser sempre expostos à discussão e à interpretação, de modo a que se possa revisitar e, como pensava Thamus, gravar nas mentes as recordações vivas, alimentando e atualizando, como somos hoje chamados a fazer, as lutas em defesa das liberdades públicas. O pensamento de La Boétie, já no século XVI, alertava que “por mais profunda que seja a perda da liberdade, ela nunca está perdida o bastante; nunca se acaba de perdê-la”5.
Quando a luta contra um regime de exceção é levada a adotar uma forma clandestina, as dificuldades para seu registro histórico e sua rememoração são particularmente grandes. A atividade clandestina requer uma aura de segredo para garantir a própria segurança dos militantes. As ações de resistência sob o terror do Estado exigem limitar a circulação de informações para que se evite a captura dos ativistas pelos agentes da repressão. Entre as dificuldades da luta clandestina destacam-se, assim, os esforços em não deixar rastros que facilitem a ação repressiva.
Mas há momentos e experiências em que, a despeito destas dificuldades, o trabalho da memória e a documentação histórica conseguem se articular. Este foi o caso do reconhecimento do direito de Stuart Angel Jones a seu diploma. Mas para ele concorreram muitos outros esforços de cultivo de sua memória. Este é o caso do episódio, que a seguir narramos, do encontro entre a memória de um militante operário e o esforço de documentação de um grupo dedicado à busca por verdade e justiça.
Ao examinar as fotos do acervo do grupo Tortura Nunca Mais, o operário Sebastião Braz descobriu, em 1979, que o militante que ele abrigara em sua casa em 1971, no auge da Ditadura, era Stuart Edgar Angel Jones, uma das 434 pessoas que perderam a vida ou passaram a ser consideradas desaparecidos em razão da ação criminosa dos agentes da repressão em nosso país. A memória de Sebastião foi reativada por aquele documento fotográfico e a imagem ampliada de Stuart passou a integrar a paisagem do seu cotidianio, exposta na parede de sua casa6 (ver foto).
Desse encontro entre a memória pessoal e a história documentada surgiu uma memória reativada, ressignificada e tornada ação política. Sebastião fora um dos trabalhadores com quem Stuart interagira na clandestinidade, ao buscar estabelecer laços com o mundo operário e ampliar as bases sociais da luta contra a Ditadura. Operário mecânico filiado à Juventude Comunista quando, em 1953, chegou ao Rio de Janeiro vindo do Piauí, Sebastião fora preso em 1964 como dirigente sindical quando os militares fecharam os sindicatos. Posteriormente, com sua mulher, Maria Alice Braz, ele passou a abrigar militantes clandestinos como Stuart, com quem discutia os modos de enfrentar aquela sombria conjuntura politica. O casal fazia parte de uma pequena rede de trabalhadores de Cordovil que mantinha forte relação de companheirismo com Stuart, admirando sua fibra e sua permanante busca de clareza ante os impasses da luta contra a Ditadura.
Ao nos lembrar que o Brasil é um dos únicos países onde os crimes da Ditadura não foram punidos e buscando reavivar a memória dos que lutaram contra a opressão no país, Sebastião integrou-se aos grupos que se dedicam à luta contra o esquecimento. Assim, enquanto documentos permitem comprovar fatos e identificar os personagens que dele participaram, a memória, como aquela ativada por Sebastião Braz, nos permite conhecer as condições em que atuavam os militantes, o modo como buscavam mobilizar a sociedade. Este encontro entre a memória retida nas mentes e a história documentada por registros nos remete a uma antiga discussão sobre a força, por um lado, dos testemunhos orais e, por outro, da historiografia, que tem por base documentos que podem ser analisados por quem não vivenciou diretamente a experiência histórica. A ideia que até aqui prevalecera é a de que história e memória se conectam e se complementam. Quando, porém, os perpetradores da violência em regimes autoritários ocultam e destróem documentos, como foi o caso dos crimes nazistas na Europa, assim como de torturadores e promotores do regime de exceção no Brasil, a memória é mais do que um complemento – ela torna-se um instrumento essencial para a descoberta de conexões antes não disponíveis e que permitem enriquecer a própria História. O testemunho dos que viveram este passado que os nostálgicos dos regimes de exceção tentam esquecer é indispensável para se restituir o que ocorreu para que historiadores busquem explicar como e porque isto ocorreu. O testemunho de Sebastião Braz, alimentado pela documentação do Grupo Tortura Nunca Mais, nos mostra a importância da contribuição da memória para a História, esclarecendo como, em sua vida clandestina, a militância buscava estabelecer conexões entre a ação organizada e a vida quotidiana dos grupos oprimidos.
Na contraface do que postulou La Boétie, no Brasil de hoje, podemos ver que, por mais que se conquistem liberdades, elas nunca estarão conquistadas o bastante. A foto de Stuart, preservada por Sebastião Braz, como a “imagem de uma ideia”7, estará todo o tempo nos lembrando disto: ambos buscavam tornar realidade as liberdades públicas, aindatrato de Stuart Angel, a quem, durante a Ditadura, abrigara em sua casa, em apoio à s que, para muitos, elas parecessem inalcançáveis.
Notas
1 Fernanda Arêas Peixoto. “Derivas urbanas, memória e composição literária”. Redobra, n. 13, ano 5, 2014, pp. 29-34
2 Lugares de Memória – ditadura militar e resistências no estado do Rio de Janeiro, José Maria Gomez (org.), PUC—FLACSO, RJ, 2018.
3 Siri Hustvedt, A mulher trêmula, Cia das Letras, São Paulo, 2011, p. 97.
4 Werner Jaeger, Paideia, Fondo de Cultura Económico, Mexico, 1956.
5 Pierre Clastres, “Liberdade, mau encontro, inominável”, in Etienne La Boétie – Discurso da Servidão Voluntária. Ed. Brasiliense, São Paulo, 1982.
6 Nicola Pamplona, ´Crime político foi esquecido’, diz mecânico que abrigou vítimas; Sebastião Braz acolheu Stuart Angel, filho da estilista Zuzu Angel, torturado e morto pela ditadura, Folha de SP, 20/5/2018.
7 “A imagem de Stuart é uma ideia”, afirmou o jornalista João Francisco Werneck no ato em homenagem a Stuart na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, em 8/12/2018. Maurício Thuswohl, “Ato em memória de Stuart Angel se torna palco de resistência no Rio”, Rede Brasil Atual, 9/12/2018.
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