Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quinta-feira, 11 de julho de 2024

'Justiça perfeita seria a minha irmã aqui', diz ministra Anielle Franco sobre avanço no caso Marielle

Quinta, 11 de julho de 2024

Chefe da pasta da Igualdade Racial celebrou
prisões, mas ponderou limite que investigações podem
chegar

"Demoramos seis anos para identificar que uma pessoa que acolheria a minha família estava, na verdade, envolvida com a não investigação e a não elucidação do crime" - Valter Campanato/Agência Brasil
Espero é que a Mari nunca seja esquecida, que o legado dela permaneça aí por muitos e muitos anos

Nesta semana, o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados deu início à escuta dos depoimentos de testemunhas no processo contra o deputado Chiquinho Brazão (sem partido-RJ), acusado pela Polícia Federal de ser um dos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e Anderson Gomes, em 2018. Além dele, seu irmão Domingo Brazão, ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, é acusado de estar por trás do crime. Os dois foram presos em 24 de março deste ano.

Em entrevista ao programa Bem Viver desta quarta-feira (10), a ministra da Igualdade Racial Anielle Franco, irmã da vereadora assassinada, comenta que, embora o avanço nas investigações do caso seja considerada uma vitória, não é o caso de se falar em justiça. "É difícil falar se chegou ao final ou não, porque, para mim, a justiça perfeita seria a minha irmã aqui, seria ela no segundo mandato dela", afirma.

"Mas eu não sei te dizer de verdade se a gente chegou ao fim ou não. Porque, se demoramos seis anos para identificar que uma pessoa que acolheria a minha família estava, na verdade, envolvida com a não investigação e a não elucidação do crime, eu não sei o que te falar", diz, em referência à Rivaldo Barbosa. O ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro é o terceiro réu do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), ao lado dos irmãos Brazão.

"Eu sei que tem um avanço de um trabalho da Polícia Federal, do Ministério Público Federal, Estadual... Eu sei que tem um avanço enorme. Eu acho que tem o retorno de um governo democrático também", diz. "O que eu espero é que a Mari nunca seja esquecida, o que eu espero é que o legado dela permaneça aí por muitos e muitos anos."

terça-feira, 2 de julho de 2024

'Bahia Rebelde' reuniu lutas contra a escravidão, por isso é esquecida na historiografia, diz diretor de Revolta dos Búzios

Terça, 2 de julho de 2024

Em cartaz pelo país, documentário de Antonio Olavo
conta sobre movimento liderado por negros na Bahia
em 1798

Cineasta Antonio Olavo já lançou sete longas que contam sobre a 'Bahia Rebelde' - Divulgação/Revolta dos Búzios
A Bahia foi o único movimento de peso que levantou a bandeira da escravidão

Ocorridas na mesma década, sob a influência iluminista da Revolução Francesa, a Inconfidência Mineira (1792) e a Revolta dos Búzios (1798), mais conhecida como Conjuração Baiana, compartilhavam os objetivos da independência do Brasil em relação à Portugal. Porém, os dois atos revolucionários se diferenciam em questões fundamentais, como o fim da escravidão, exigido pelos baianos e desconsiderado pelos mineiros. 

"Revolta dos Búzios, eu afirmo com muita tranquilidade e muita convicção, foi um movimento mais importante que a Inconfidência Mineira", afirma o diretor de Revolta dos Búzios, documentário em cartaz em cinemas pelo país. 

"A Inconfidência Mineira, assim como a Insurreição Pernambucana, a Conferência do Equador e a Inconfidência Carioca, defenderam a República e a Independência, mas não tocaram no fim da escravidão. A Bahia foi o único movimento expressivo, significativo e de peso que levantou a bandeira da escravidão", defende o diretor em entrevista ao programa Bem Viver desta terça-feira (2).

O movimento que tem Tiradentes como mártir e é até homenageado com um feriado nacional - o dia 21 de abril -, foi articulado por uma elite socioeconômica do período. Enquanto isso, a Conjuração Baiana teve como protagonistas trabalhadores distantes do controle de meios de produção. 

As quatro lideranças que se destacaram foram dois soldados e dois alfaiates, motivo pelo qual o movimento também é conhecido como Revolta dos Alfaiates. Foram eles João de Deus do Nascimento, Manuel Faustino dos Santos Lira, Lucas Dantas e Luiz Gonzaga das Virgens. 

Antes mesmo da revolta entrar em curso, o movimento foi interceptado pelo Império e os quatro, que eram homens negros, tiveram como destino a forca. Entre as lideranças brancas que se envolveram, nenhuma teve pena máxima, e muitas não cumpriram nenhum tipo de detenção, como por exemplo, Cipriano Barata.

"A historiografia tradicional invisibilizou isso, marginalizou, fez com que nós, mesmos baianos, não conhecêssemos isso. Então é um sonho de construir no cinema uma ponte para se comunicar com a sociedade", diz Olavo.

"Eu me descobri, me encontrei, enquanto um homem negro, quando eu encontrei essa história do meu povo, do passado, e eu passei a ter orgulho. Porque até então, eu imaginava que eu era descendente de um povo escravizado."

Outro destaque desse movimento foi a participação de mulheres negras, como as forras Ana Romana e Domingas Maria do Nascimento, Luiza Francisca de Araújo, Lucrécia Maria Gercent e Vicência. 

Antonio Olavo é autor do livro Memórias Fotográficas de Canudos (1989) e gestor da Portfolium Laboratório de Imagens, produtora pela qual dirigiu 19 filmes documentários, entre os quais sete longas-metragens, como Quilombos da Bahia (2004) e Abdias Nascimento Memória Negra (2008).

Confira a entrevista na íntegra 

Por que a escolha de Revolta dos Búzios e não os nomes que são mais conhecidos, como Conjuração Baiana? 

Esse movimento, que ocorreu em 1798, no final do século 18, tem uma importância muito grande porque defendeu as bandeiras da Independência, que só viria em 1822 na Bahia. 

Ele defendeu também uma república democrática, república essa que só foi proclamada, de forma nada democrática, em 1889, pelo Marechal Deodoro. 

E um diferencial em todos os movimentos anteriores e posteriores: os conspiradores de Búzios, aqui na Bahia, defenderam o fim da escravidão. Isso é um marco em relação aos outros movimentos, inclusive à Inconfidência Mineira. 

E ele teve várias denominações ao longo da história. Desde a edição de 1798, Movimento Democrático Baiano, Conjuração Baiana e Revolução dos Alfaiates são os nomes mais conhecidos. 

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

PROGRAMA BEM VIVER —'A história do samba também é uma história do trabalho no Brasil', defende Ynaê Lopes dos Santos

Quinta, 23 de novembro de 2023

Historiadora faz parte da curadoria da mostra Pequenas Áfricas, aberta de graça no Instituto Moreira Salles Salles até abril

Rádio Brasil de Fato
Lucas Weber
23 de Novembro de 2023
Duque (o primeiro da esquerda para a direita), Donga (o segundo), Pixinguinha (o quarto) e duas pessoas não identificadas, possivelmente no embarque dos Oito Batutas para Paris, em 1922 - Arquivo Pixinguinha/Acervo Instituto Moreira Salles


A mostra Pequenas Áfricas: o Rio que o samba inventou, disponível no Instituto Moreira Salles com entrada gratuita na capital paulista, reconstrói a cena cultural da capital fluminense entre as décadas de 1910 e 1940 para contar uma “experiência de matriz africana disputando o sentido de brasilidade”, define a historiadora Ynaê Lopes dos Santos, uma das curadoras da exposição.

Junto com a ela, a equipe é formada por Angélica Ferrarez, Luiz Antônio Simas e Vinícius Natal.

:: Bem Viver na TV: 'Dentro dessa estrutura racista, o Mussum é um herói', diz Aílton Graça ::

Autora de Racismo brasileiro (Todavia, 2022) e História da África e do Brasil Afrodescendente (Pallas, 2017), Ynaê Lopes do Santos é professora de história na Universidade Federal Fluminense (UFF). Embora o seu foco não seja o estudo sobre a origem do samba, a historiadora aceitou o convite do IMS com entusiasmo, principalmente, por conta de tudo que a manifestação cultural representa.

 “O samba é uma disputa que a população negra faz de outros Brasis possíveis”, define em entrevista ao programa Bem Viver desta quarta-feira (22).

Ynaê Lopes dos Santos é doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) / Divulgação

Segundo Santos, a construção da mostra foi para causar uma “porrada” no visitante. “Começa sem ser muito simpático, porque a história do Brasil não é simpática, e é muito frequente que a história do samba seja utilizada para reforçar uma ideia da democracia racial, de uma história tranquila, no final tudo acaba em samba, mas para acabar em samba, teve que começar de algum lugar, e a gente quis trazer esse começo, que é a história da escravidão, e uma história da escravidão negra do Brasil”.

:: No Rio, encontro de religiões de matriz africana terá programação gratuita na Pequena África ::

A mostra está dividida em dois andares e reúne aproximadamente 380 itens, entre documentos, gravações musicais, fotografias, matérias de jornais, filmes e obras de arte, provenientes do acervo do IMS e de outras instituições. 

Samba do trabalhador

A mostra faz alusão ao termo “Pequena África”, cunhado pelo artista Heitor dos Prazeres para se referir à região da Zona Portuária do Rio, que, no começo do século 20, concentrava uma numerosa população afrodescendente.

Cais do Valongo é tido como o maior porto escravista da história, tendo recebido cerca de 1 milhão de africanos vindos forçados para o Rio de Janeiro.

Leia também: “Samba e religião se encontram na periferia do Rio”, diz pesquisador ao Papo na Laje

Ynaê Lopes dos Santos lembra que a “história do samba precisa ser relacionada com a história do trabalho no Brasil”. A estudiosa argumenta que os assuntos se conectam “seja [pela história] dos trabalhadores escravizados, livres libertos e também dos próprios sambistas”.

Bloco Cacique de Ramos no carnaval de 1966, no Rio de Janeiro / Acervo FMIS/RJ

“Porque ainda hoje temos também essa mácula, essa ideia equivocada de que samba é quase coisa de vagabundo, né? Que samba não é trabalho, que samba é só lazer”, argumenta a historiadora.

Segundo ela, foi para combater este estigma, que ainda na década de 1930, Paulo da Portela, um dos fundadores da escola de samba Portela, implementou o costume de os sambistas andarem sempre  bem vestidos, de paletó, sapatos e chapéu.

Embranquecimento 

 “Olha que eu sou paulista”, brinca Ynaê Lopes dos Santos ao comentar que São Paulo roubou indevidamente os holofotes do Rio de Janeiro, principalmente, na década de 1920, como centro cultural do país.

Ela faz referência a Semana de Arte Moderna, que aconteceu em 1922, e pôs uma elite branca paulistana como exemplo deste “sequestro”.

Neste mesmo ano, Os Oito Batutas, grupo de samba liderado por Pixinguinha, Donga e João da Baiana, chegava em Paris para fazer o que pode ser considerada a primeira turnê internacional brasileira.

:: Longe dos holofotes, os Oito Batutas faziam História em Paris enquanto acontecia Semana de 22 ::

“A modernidade brasileira está muito vinculada à experiência de semana de arte moderna de 1922, em São Paulo, então isso diz muito também de que histórias o Brasil decidiu contar” defende a historiadora.

Cartola em foto para publicação no Diário da Noite, Rio de Janeiro, em 1957 / Arquivo Diários Associados/Acervo Instituto Moreira Salles

Segundo ela, a equipe da curadoria “pensou essa exposição justamente para tensionar essa ideia tanto da semana de arte moderna, de 22, de um modernismo como se o samba fosse arcaico”.

Ynaê Lopes dos Santos explica que nos anos seguintes houve uma mudança considerável da visão do Estado brasileiro para com o samba. A estudiosa conta que a manifestação cultural passou a ser adotada como símbolo do país, porém em um movimento de “embranquecimento do samba”

“O samba tem vários momentos, no primeiro momento ele não é bem-vindo, nem muito bem visto, porque ele é uma manifestação acima de tudo africana, ou afro-brasileira.”, explica. 

:: Há 50 anos morria Pixinguinha: 'músico popular, completo e genial' ::

“ A aceitação do samba passa necessariamente pela desafricanização do samba”.

Segundo a historiadora, sinal disso é “a gente conhecer mais mulheres brancas no samba do que as mulheres negras no samba”, ou a maioria das “escolas de samba do Rio serem presididas por homens brancos”.

Tia Amélia do Aragão, mãe de Donga / Instituto Donga

A mostra

Pequenas Áfricas: o Rio que o samba inventou
Visitação: até 21 de abril de 2024
IMS Paulista, 7º e 8º andar | Entrada gratuita
Terça a domingo e feriados (exceto segundas), das 10h às 20h

A exposição conta com recursos de acessibilidade, como vídeo de apresentação e contextualização em Libras, legendado em português e com audiodescrição; roteiro de audiodescrição com descrição dos espaços, objetos e fotografias; quatro pranchas em relevo; além de tradução poética de músicas em Libras pelas artistas Nayara Silva (surda) e Anne Magalhães (ouvinte).

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Sintonize

O programa Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 11h às 12h, com reprise aos domingos, às 10h, na Rádio Brasil Atual. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo.