Sábado, 22 de junho de 2024
É preciso revisitar a História — para não repeti-la
Roberto Amaral*
Registro este fato afastado de qualquer intenção memorialista; seu intuito é assinalar o que deve ter ocorrido em todo o país, como consequência da insegurança de um comando político desafeito às lições da história e, por isso, condenado a repetir seus erros. Alguns são registrados a seguir.
Só muitos anos passados daquele agosto de 1954, na pesquisa para a coleção Textos políticos da história do Brasil (que assinei com Paulo Bonavides para as edições do Senado Federal, 2002) deparei-me com a edição do dia 24 de agosto da Imprensa popular, jornal do Comitê Central do PCB, que circulava no Rio de Janeiro. Na capa, gritava em letras garrafais: “Abaixo o governo de traição nacional de Vargas!” No dia seguinte os jornais trariam fotos da explosão popular incendiando as viaturas dos jornais de direita (principalmente O Globo e Tribuna da Imprensa) e, no mesmo embalo, depredando as oficinas do jornal comunista. No mesmo dia e nos dias seguintes, no Rio de Janeiro e em todo o país, as ruas e as praças foram ocupadas por grandes massas chorando a morte do “pai dos pobres”. A bandeira de luta, naquele momento, era ditada pela carta-testamento deixada pelo suicida.
Esquecido das lições de Marx, o Comitê Central do PCB revelava-se despreparado para compreender a crise política brasileira, porque nada conseguia ver para além das aparências. Discutia-se, desde sua fundação, o sentido da “Revolução Brasileira”. Sua trajetória revela ziguezagues doutrinários e práticos. Suas antecipações eram em regra contrariadas pelos. De Prestes a Roberto Freire, o fim triste de uma expiação dolorosa, nossas direções primavam por brigar com o processo histórico. Assim foi a tentativa de tomada de poder em 1935, reveladora de uma trágica mistura de voluntarismo, idealismo, descaso pela realidade e injustificado desconhecimento da terra e da gente cuja história pretendia conduzir.
Faz parte da história o registro do rotundo fracasso em que se converteu a tentativa de golpe de mão de 1935, levante militar sem apoio nas tropas e na população, cujas nefastas consequências para o movimento comunista são sentidas até hoje.
A repressão que se segue à insurgência fracassada não impediria, porém, o PCB de se associar ao varguismo quando o Brasil, finalmente, isto é, quando as cortinas do conflito já se iam fechando, decide apoiar os Aliados na guerra contra o Eixo.
Roberto Amaral*
Éramos, naqueles distantes anos, alguns poucos alunos do Ginásio Agapito dos Santos, um centro de ensino impregnado de reacionarismo udenista. De uma maneira geral filhos da classe dominante que amava o Brigadeiro Eduardo Gomes e odiava Getúlio Vargas, sempre apontado como ditador, e, então, também como corrupto. Passáramos a semana ombro a ombro com os militantes da União da Juventude Comunista, realizando comícios-relâmpago pelos bairros de Fortaleza, reclamando a renúncia do presidente. Os comunistas acusavam Getúlio de “agente do imperialismo”; nós, ainda sem definição ideológica, fôramos conquistados pela denúncia do “mar de lama” que correria nos porões do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, sede da Presidência. Naquela quarta-feira, 24 de agosto de 1954, bem cedinho, iríamos fazer um comício no Abrigo Central, um ajuntamento de filas de ônibus em meio à Praça do Ferreira, onde tudo acontecia. Foi aí, e só então, que um representante do Comitê estadual nos advertiu de que o Partido mudara de posição e nós deveríamos, doravante, denunciar o imperialismo como responsável pelo suicídio do presidente acuado.
Só muitos anos passados daquele agosto de 1954, na pesquisa para a coleção Textos políticos da história do Brasil (que assinei com Paulo Bonavides para as edições do Senado Federal, 2002) deparei-me com a edição do dia 24 de agosto da Imprensa popular, jornal do Comitê Central do PCB, que circulava no Rio de Janeiro. Na capa, gritava em letras garrafais: “Abaixo o governo de traição nacional de Vargas!” No dia seguinte os jornais trariam fotos da explosão popular incendiando as viaturas dos jornais de direita (principalmente O Globo e Tribuna da Imprensa) e, no mesmo embalo, depredando as oficinas do jornal comunista. No mesmo dia e nos dias seguintes, no Rio de Janeiro e em todo o país, as ruas e as praças foram ocupadas por grandes massas chorando a morte do “pai dos pobres”. A bandeira de luta, naquele momento, era ditada pela carta-testamento deixada pelo suicida.
Esquecido das lições de Marx, o Comitê Central do PCB revelava-se despreparado para compreender a crise política brasileira, porque nada conseguia ver para além das aparências. Discutia-se, desde sua fundação, o sentido da “Revolução Brasileira”. Sua trajetória revela ziguezagues doutrinários e práticos. Suas antecipações eram em regra contrariadas pelos. De Prestes a Roberto Freire, o fim triste de uma expiação dolorosa, nossas direções primavam por brigar com o processo histórico. Assim foi a tentativa de tomada de poder em 1935, reveladora de uma trágica mistura de voluntarismo, idealismo, descaso pela realidade e injustificado desconhecimento da terra e da gente cuja história pretendia conduzir.
Faz parte da história o registro do rotundo fracasso em que se converteu a tentativa de golpe de mão de 1935, levante militar sem apoio nas tropas e na população, cujas nefastas consequências para o movimento comunista são sentidas até hoje.
A repressão que se segue à insurgência fracassada não impediria, porém, o PCB de se associar ao varguismo quando o Brasil, finalmente, isto é, quando as cortinas do conflito já se iam fechando, decide apoiar os Aliados na guerra contra o Eixo.

