Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sexta-feira, 21 de maio de 2021

Das ruas às urnas: uma lição chilena

Sexta, 21 de maio de 2021


Das ruas às urnas: uma lição chilena

O continente americano, que se via, até há pouco, imerso em tempos de pesar político, flagelado por golpes de Estado e regressões econômicas, parece retomar as rédeas de seu próprio destino, quando o povo-massa volta a desempenhar o papel de sujeito histórico e agente de transformações. De uma forma ou de outra, a centro-esquerda se consolida na Argentina; a esquerda acaba de recuperar o governo na Bolívia e conquistar a maioria parlamentar no Equador; avança a olhos vistos no Peru, e a comoção social toma corpo na Colômbia, desestabilizando o governo de Luis Arce, mero títere dos interesses geopolíticos dos EUA na América do Sul, qualquer que seja o inquilino da Casa Branca. 

Há 33 anos o povo chileno iniciava a lenta marcha no caminho da recuperação democrática que chega hoje, com as recentes eleições do dia 16, a um de seus momentos mais auspiciosos. Esta é a primeira lição que podemos colher: os avanços históricos cobram maturação. Mas muito mais tempo gastamos de 1985 até hoje e quanto mais o tempo passa parece que andamos para trás, ou que caminhamos em busca de uma linha de horizonte que sempre se afasta de nós.

Nossos dias de hoje marcam brutal retrocesso.

Com o referendo de 1988 o Chile dava um estrondoso Não às pretensões continuístas do ditador luciferino e corrupto que em 1973 comandara o assalto ao Palácio de la Moneda, interrompendo, com a força bruta dos tanques e dos bombardeios, a promissora experiência de socialismo democrático, liderada por Salvador Allende.

O golpe se dera sob a orientação, o financiamento, o planejamento e a estratégia comandada diretamente pelo Departamento de Estado dos EUA, chefiado por Henry Kissinger. No Chile, o Império do Norte atuaria de forma ainda mais desabrida do que entre nós na preparação do golpe de 1964; mas, tanto no Chile quanto no Brasil, cuidou, desde lá atrás, da formação ideológica dos militares, isto é, afastando-os gradativamente dos respectivos interesses nacionais, em proveito dos projetos estratégicos dos EUA, então condicionados pela Guerra Fria. Por isso mesmo sempre se deram bem.