Matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo
tenta vincular tática de grupo anarquista à facção criminosa; em sua
página do Facebook, black bloc diz para “não se deixar levar por
declarações falaciosas”
Uma entrevista com supostos membros da tática black bloc, feita pelo jornalista Lourival Sant’Anna, do jornal O Estado de São Paulo,
veiculada no domingo (01), é uma farsa. Quem afirma são os próprios
membros do grupo anarquista em sua página oficial no Facebook. O título
da entrevista diz que “Black blocs prometem caos na Copa com ajuda do
PCC”.
“Não tem como o black bloc dar
entrevista porque o black bloc é tática de manifestação, e não um grupo
organizado. Não se deixe levar por declarações falaciosas do Estado de
São Paulo e derivados”, afirmam.
Ainda,
durante a entrevista, que tem cerca de 11 minutos, é possível observar
que em nenhum momento os supostos black blocs citam algo relacionado à
facção criminosa.
A reportagem do Brasil de Fato entrou
em contato com o autor da entrevista, que se defendeu. “Como digo na
minha matéria, falei com o núcleo de black blocs mais experientes,
responsáveis pelas ações de maior repercussão. E eles não têm página no
Facebook. Cuidado com quem se apresenta publicamente como black bloc.
Isso contradiz a tática black bloc.”
Após a
publicação, o ministro da justiça, José Eduardo Cardozo, disse em
entrevista ao mesmo jornal que é “inadmissível a associação de esforços
entre os black blocs e o PCC para transformar a Copa do Mundo em um
caos”. E ainda complementou dizendo que “não toleramos abuso de qualquer
natureza e as pessoas que praticarem atos ilícitos responderão nos
termos da lei”.
O autor da entrevista sobre
os black blocs, Lourival Sant’Anna, já esteve envolvido em uma polêmica
sobre a veracidade de suas matérias, como relembrou o jornalista Paulo
Nogueira, em artigo publicado no Diário do Centro do Mundo. De acordo
com ele, o empresário Nelson Tanure o acusou de forjar informações numa
série de reportagens sobre negociações em torno da Varig.
Conheça a história do inquérito 01/2013, do Deic, em São Paulo, que já
intimou 300 pessoas para depor e busca enquadrar o Black Bloc como
associação criminosa.
Na quinta-feira, dia 20 de fevereiro, o telefone tocou na
casa de Pedro*. O jovem não estava e quem atendeu à chamada foi a sua
mãe, que recebeu, surpresa, a informação: Pedro estava intimado a
comparecer ao Departamento Estadual de Investigações Criminais de São
Paulo (Deic), no sábado seguinte, às 16h, para prestar esclarecimentos.
Já na residência de Lucas*, a Polícia Civil convocou não só o rapaz, mas
também sua mãe, dona de casa, através de uma intimação em papel
entregue por policiais. Em outro ponto da cidade, João* recebeu à sua
porta uma viatura com três policiais que lhe entregaram uma intimação
para prestar esclarecimento nos autos de um inquérito identificado como
01/2013. (Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados, por
segurança).
Ao todo, 40 pessoas foram convocadas a prestarem depoimento no Deic
no sábado, dia 22, mesma data em que ocorria o segundo grande ato contra
a Copa do Mundo, marcado para as 17h na Praça da República. Sobre a
proximidade dos horários dos depoimentos e da manifestação, o diretor do
Deic, Wagner Giudice, em coletiva de imprensa, se limitou a dizer que
marcar os depoimentos no sábado, naquele horário, foi uma “estratégia”
do departamento. 32 pessoas compareceram.
Black Bloc não é um grupo. Black Bloc é uma tática. Uma tática cujo cerne está na ação direta e numa estética particular.
Sejamos diretos: Quem não se veste de preto NÃO é Black Bloc. Um
manifestante de vermelho violento é... um manifestante de vermelho
violento e não um Black Bloc. E explico o porque.
Black Bloc é, novamente, estética. O estar de preto faz parte da tática,
faz parte da ideia anarquista de um coletivo agindo como um só braço,
de indivíduos juntos agindo como um só. Rostos cobertos e todos de preto
significa que não são indivíduos agindo contra a PM ou contra símbolos
do capitalismo (como bancos), mas sim um corpo único, um coletivo agindo
uniformemente.
Sem este elemento não há Black Bloc, há apenas a venha violência em
manifestações e protestos. Um Black Bloc pode ser considerado um
manifestante violento, mas o inverso não se aplica.
"É por esse motivo que vincular a morte de Santiago aos black blocs não
faz sentido, assim como não faz sentido tratar como uma violência da
mesma natureza a destruição de vidraças de bancos e o ataque violento a
seres humanos, parta ele de manifestantes ou da própria polícia."
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Na mira das discussões sobre a violência nos protestos, quão violentos são os black blocs?
Há relação entre a morte do cinegrafista da Band e os black blocs?
A trágica morte de Santiago Andrade está sendo mobilizada para que
medidas mais duras sejam tomadas para reprimir as manifestações e o
Black Bloc em particular. Mas haveria alguma relação entre a morte do
cinegrafista e os black blocs? Os dois manifestantes que assumiram a
autoria do disparo do rojão já declararam que não participam do Black
Bloc. Não obstante, o Black Bloc está no centro do discurso contra a
violência nas manifestações. Mas de que forma e em que medida esses
manifestantes são violentos?
A destruição de propriedade praticada pelo Black Bloc nasceu nos EUA a
partir de um debate sobre os limites táticos da desobediência civil não
violenta. A desobediência civil não violenta tinha se estabelecido como
paradigma dos movimentos sociais daquele país desde a vitória do
movimento pelos direitos civis nos anos 1960. A tática consistia em
desobedecer a uma lei injusta e não reagir à violência do Estado que
tentava defendê-la. Assim, no movimento pelos direitos civis dos negros,
as imagens divulgadas pela imprensa de manifestantes de uma causa justa
sofrendo a repressão violenta do Estado geraram indignação da opinião
pública, que pressionou pelo fim da segregação racial.
Não é por falta de
escândalos que os órgãos responsáveis por investigações e punição no
Brasil deixam de atuar. Irregularidades, denúncias, saque aos cofres
públicos, negociatas entre governo e empreiteiras... Os exemplos são
muitos e não param surgir, alimentados pela impunidade que reina no
país.
Enquanto as falcatruas se sucedem, as autoridades parecem
mais preocupadas em atacar outras frentes, reprimir outro tipo de ação,
ação que se revolta exatamente contra os maus governantes que priorizam
seus interesses.
Enquanto o desmando impera nas grandes esferas do
poder e vandaliza o patrimônio público em proporções incalculáveis, a
Polícia Federal concentra suas forças na investigação contra os black
blocs, seus paus e pedras.
No Congresso, os supersalários, mesmo
ilegais, parecem intocáveis. Parlamentares chegam a receber mais R$ 60
mil brutos, somando remunerações e aposentadorias, enquanto o teto
constitucional é de R$ 28 mil. O que diz a Constituição e as leis pouco
importa para os que embolsam além do permitido.
Mesmo proibido pela Constituição, parlamentares ganham supersalários
Em
São Paulo, o escândalo dos fiscais que teriam fraudado Impostos sobre
Serviços e até o IPTU pode chegar a casa dos R$ 500 milhões. Escutas,
ameaças e muito dinheiro circulam na esfera do município, enquanto o ex e
o atual prefeitos trocam acusações.
"Havia degradação na prefeitura de São Paulo", afirma Fernando Haddad.
"Descalabro é primeiro ano do atual governo", rebate Gilberto Kassab.
No
Rio de Janeiro, superfaturamento e denúncias envolvendo empreiteiras e o
governo tomaram conta dos noticiários. A Delta e sua coleção de
escândalos causou indignação à sociedade, detonando protestos até em
frente à casa do governador Sérgio Cabral.
A Delta monopolizou as
grandes obras com dinheiro público no Rio, passando pelo PAC e pelo
Maracanã. A empreiteira de Fernando Cavendish protagonizou uma das
maiores ascensões empresariais já vistas no país, até sua relação com o
contraventor Carlinhos Cachoeira vir à tona.
O deputado federal
Paulo Maluf é mais um personagem do mundo político que, apesar das
denúncias e acusações, parece ressurgir das cinzas e se mantém no
cenário, talvez até participando das próximas eleições. O capítulo mais
recente foi sua condenação por superfaturamento em obra do complexo
viário Ayrton Senna, de 1990.
Soma-se a estes casos o de Ângelo
Calmon de Sá - ex-dono do Banco Econômico - que, com mais de 30
processos criminais, muitos ainda sem decisão de sentença, continua em
liberdade, mesmo após ter sido condenado pelo Superior Tribunal de
Justiça (STJ) a 13 anos de reclusão por gestão fraudulenta de
instituição financeira.
E há ainda o caso do Banco Cruzeiro do
Sul. O escândalo mais recente dá conta de que credores pedem R$ 113
milhões ao Morgan Stanley, com notificação judicial, referente à venda
de ações pelos ex-controladores Luís Octavio e Luiz Felippe Índio da
Costa, justamente duas semanas antes da intervenção do Banco Central. Os
dois são acusados de provocar a falência do banco e causar prejuízo de
R$ 3,8 bilhões ao Sistema Financeiro. Ficaram conhecidos também pela
contribuição a campanhas de políticos. O principal beneficiado teria
sido José Serra, que se candidatou à presidência tendo o sobrinho e
primo dos ex-controladores - o ex-deputado Índio da Costa - como vice.
Enquanto
isso, o BNDES abre generosamente seus cofres públicos para empréstimos
de grande vulto. Somente para o empresário Eike Batista - que amarga
prejuízo histórico e de proporções internacionais - as cifras chegam a
R$ 1 bilhão, fora os para empreiteiras que, além de ganhar licitações
para grande obras, ainda contam com a ajuda do dinheiro do governo.
Perto
destes e tantos outros exemplos de depredação do patrimônio público e
vandalismo contra os princípios da ética e da dignidade da sociedade, os
black blocs mais parecem meninos indefesos e inofensivos.
Marcus
Ianoni, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade
Federal Fuminense (UFF), ressalta que a sociedade brasileira ainda
precisa percorrer um longo caminho para que a igualdade de todos perante
a lei se efetive plenamente. A desigualdade no tratamento a cidadãos é
feita pelo Estado, reforça, com respaldo de setores da própria
sociedade.
"As ilegalidades dos 'vândalos' atentam contra o
Estado de Direito assim como as ilegalidades de empresários e políticos.
Não deveria haver dois pesos e duas medidas. Ilegalidade é
ilegalidade. O Estado e a opinião pública não devem fazer vista grossa
ou dar desconto às ilegalidades de uns e ser rigoroso em relação à
ilegalidade de outros. Fazer isso é oferecer tratamento privilegiado a
alguns grupos, o que é um comportamento que reproduz hierarquias sociais
de corte oligárquico. Precisamos acabar com os privilégios
oligárquicos. A República Democrática deve aplicar a lei igualmente para
todos. Um dos principais conteúdos da democracia é a igualdade",
explica.
Ao
qualificar estridentemente os black blocs de "fascistas" (o que não
são), estimulando enrijecimentos repressivos e penais, a presidente
Dilma Rousseff omite que eles estão ocupando um espaço aberto pela
domesticação da esquerda tradicional, que hoje nem sequer pronuncia mais
a palavra revolução -tão
cooptada está pelo capitalismo e tamanha é sua obsessão em se mostrar
inofensiva para os inimigos de outrora, visando manter e aumentar cada
vez mais suas boquinhas na democracia burguesa.
Para quem aspira apenas a gerenciar o capitalismo pelo máximo possível
de mandatos, os black blocs não passam de um empecilho, e como tal são
tratados. Chama a polícia!
Para quem não abdicou dos ideais revolucionários em troca de um poder
ilusório e subalterno, eles se constituem, isto sim, numa dura acusação:
suas ações, algumas das quais desatinadas, são consequência de nossa
incapacidade de engajar os jovens num combate mais consequente à
desigualdade, injustiças e crimes que caracterizam a dominação burguesa.
Nostra maxima culpa!