“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

GRAVÍSSIMO: 200 BRASILEIROS MORRERAM AO SERVIREM DE COBAIAS NUMA PESQUISA DE ALTO RISCO NO AMAZONAS.

Segunda-feira, 11 de outubro de 2021
Do Blogue Náufrago da Utopia
Celso Lungaretti


O relator da CPI da Pandemia, Renan Calheiros, já antecipou que, "com certeza", vai pedir o indiciamento do genocida Jair Bolsonaro "pelo que praticou", detalhando:

"Nós utilizaremos os tipos penais do crime comum, do crime de responsabilidade, do crime contra a vida, do crime contra a humanidade e estamos avaliando, com relação aos indígenas, [se cabe] a utilização do [da acusação de] genocídio".

Com o relatório prestes a ser entregue, Calheiros acaba de receber da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura o que leva todo jeito de ser a cereja do bolo.


É que a Unesco denunciou 200 mortes de voluntários numa pesquisa clínica patrocinada pela rede de hospitais privada Samel, com outra droga que o Bozo supunha ser milagrosa, a proxalutamida. Foi "uma das infrações éticas mais graves e sérias da história da América Latina", segundo a agência.

Mais um medicamento que se comprovou inócuo contra o coronavírus, a proxalutamida não passa de um bloqueador de hormônios masculinos ainda em desenvolvimento pela farmacêutica chinesa Kintour, cujo emprego contra tumores de mama e próstata está sendo estudado, não havendo, portanto, comprovação científica. No mês passado a Anvisa vetou o uso da proxalutamida contra a covid.

Ou seja, 200 brasileiros morreram como cobaias em pesquisa de alto risco, tendo sido o crime praticado no Amazonas, onde os sucessores brasileiros do carrasco nazista Josef Mengele acreditavam que estariam a salvo da vigilância da imprensa.

Mas, tal abominação chegou ao conhecimento da Unesco e certamente horrorizará o mundo (o que, aliás, não vai ser novidade, tratando-se do desgoverno do palhaço sinistro).

Se nem assim forem iniciados os procedimentos para o urgente afastamento de Bolsonaro da presidência da República, é melhor devolvermos logo o Brasil para os portugueses. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

DOM PAULO EVARISTO ARNS FOI O PASTOR QUE TUDO FEZ PARA QUE SEU REBANHO SOBREVIVESSE A UM TEMPO DE LOBOS

Quarta, 15 de setembro de 2021

Missa de 7º dia de três religiões por Vladimir Herzog: um desafio à ditadura e ao Vaticano.

Do Blog Náufrago da Utopia
Por Celso Lungaretti

Para os revolucionários que prezamos os direitos humanos, dom Paulo Evaristo Arns, cujo centenário de nascimento se comemora hoje (14/09) foi um dos imprescindíveis a que se referiu Brecht. 

Neste Brasil de ganância exacerbada e competição insana que o capitalismo globalizado engendrou, é fundamental, até para servir de antídoto, respeitarmos e exaltarmos exemplos como o que ele deixou.

Quando o entrevistei longamente em 2003, dom Paulo já era um homem combalido, que caminhava com dificuldade e tinha problemas de audição — decorrentes, esclareceu-me, de ferimentos sofridos quando de uma tentativa de sequestro num país latino-americano (pretendiam obter, em troca, a liberdade de um chefão do narcotráfico).

Tal entrevista permanece bem atual, daí eu estar reproduzindo aqui seus principais trechos, sem alterações na forma como então a redigi. Não quis privar os leitores da oportunidade de conhecer-lhe a história a partir de suas próprias palavras, que tive o privilégio de escutar numa ensolarada tarde de dia útil, no convento franciscano que fica ao lado da tradicional Faculdade de Direito do largo São Francisco.

No final, apesar de sua dificuldade de locomoção, fez questão de percorrer comigo o longo caminho até a saída. E se despediu com uma frase marcante: "Precisamos contar essas histórias [do que aconteceu neste país durante a ditadura militar] às novas gerações. É importante que elas saibam de tudo isso!"


A MISSÃO DO EDUCADOR
.
Muitos programas pioneiros, na linha da inserção social, foram introduzidos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo entre novembro/1970 e maio/1998, período em que, como arcebispo metropolitano de São Paulo, dom Paulo foi Grão Chanceler da instituição.

Logo que se tornou o principal responsável pelos rumos desta universidade, dom Paulo fez a primeira visita ao Conselho da PUC. E disse: 

"Não quero uma escola de 2º grau melhorada. O que me interessa é que vocês façam uma pós que dê bons professores para todos os lugares do Brasil; e que todas as teses e tudo o que vocês discutirem além da escola se refira ao povo e ajude o povo. Que isso seja a norma daqui para a frente".

Os resultados não tardaram, diz dom Paulo. "A Arquidiocese se organizou em pastorais diferentes – p. ex., a Operária, a da Terra, a do Trabalhador –, então eu consegui que a Faculdade de Direito se interessasse em ir, durante a semana ou no sábado, à periferia e ver como se poderia ajudar essa população e quais os problemas reais da periferia. A mesma coisa aconteceu com a assistência social, que, aliás, está trabalhando nessa linha até hoje, com métodos sempre novos e recebendo apoio da Europa e de outros lugares, com uma eficiência muito grande."

Hoje, essas iniciativas pioneiras da PUC/SP encontraram muitos seguidores e há um sem-número de empresas e instituições esforçando-se para dar uma contribuição positiva à sociedade.


OFÍCIOS PARA VÍTIMAS DA DITADURA 

"Os estudantes da USP me procuraram em 1973 quando um colega [Alexandre Vannucchi Leme] foi assassinado pelos órgãos de segurança. Os estudantes se reuniram, uns 10 mil, e mandaram representantes à minha casa, à noite, para que eu fosse lá falar aos alunos. 

"Eu disse que era melhor reunir os estudantes, mas não dava para fazer no campus da universidade, porque ele estava cercado por policiais e oficiais do Exército.

"Então, decidi fazer na catedral. Eu disse: 'Na catedral, nós falamos o que queremos, e nós falaremos aos estudantes. Encham a catedral de estudantes e de povo, que nós diremos a verdade'. E foi o que eles fizeram. Às 15h, eu fui lá, fiz aquele ato solene em favor do estudante e celebrei a missa para o falecido. Fiz o sermão sobre o não matarás!, o mandamento central dos 10 mandamentos. Foi sobre isso que eu falei para eles, e eles participaram, vivamente, da missa e de toda manifestação religiosa posterior.

"Depois, em 75, foi a vez do Herzog; em 76, a do Manuel Fiel Filho; e em 79, a do Santo Dias, quando recebemos de 150 mil a 200 mil pessoas, que andaram desde a igreja de Nossa Sra. da Consolação. A multidão foi engrossando. Ao chegar na Catedral da Sé, não cabia nem na igreja nem na praça, então nós fizemos uma cerimônia mais curta, mas muito mais participada por todos os operários."


MISSA PARA VLADIMIR HERZOG


Foi celebrada na Catedral da Sé, simultaneamente, por religiosos de três confissões: a católica (dom Paulo), a judaica (rabino Henry Sobel) e a protestante (reverendo James Wright).

"Quando o Herzog foi assassinado – lembra D. Paulo –, em 1975, os jornalistas me pediram que houvesse um ato ecumênico na catedral. Os judeus fazendo o ato deles em hebraico, portanto, não na língua que compreendêssemos. Foi impressionante e muito bonito."

D. Paulo consolando Clarice Herzog

Modesto, D. Paulo evitou comentar que sua decisão foi um ato de enorme coragem. Primeiramente, porque a alta hierarquia católica não viu com simpatia sua iniciativa de oficiar missa ao lado de um rabino e de um reverendo.

Depois, por ser um desafio frontal ao regime militar, que o ditador Geisel engoliu, pedindo apenas a D. Paulo que segurasse seus radicais, “enquanto eu seguro os meus”.

Finalmente, por ter, em nome de ideal de justiça e solidariedade cristãs, corrido o risco da ocorrência de tumultos e mortes que teriam um peso devastador em sua consciência de religioso.

Graças a ele, foi viabilizado o ato que acabou se tornando um divisor de águas: a partir desta vitória sobre a intimidação, a ditadura começou sua lenta, mas irreversível, marcha para o fim.


INVASÃO DA PUC EM 1977 


"Eu estava em Roma quando o Erasmo Dias, então secretário da Segurança do estado de São Paulo, invadiu a PUC sem dizer ou ter motivo nenhum. Os estudantes estavam em exame e os policiais destruíram mais de 2 mil cópias de documentos, estragaram o refeitório, danificaram os instrumentos musicais e até derrubaram um professor no chão.

"Fui chamado às pressas de Roma e, na manhã seguinte, já dei uma declaração ao desembarcar no aeroporto, dizendo que 'na PUC só se entra prestando exame vestibular, e só se entra na PUC para ajudar o povo e não para destruir as coisas'. Depois, nós fizemos toda uma reação contra eles e toda uma manifestação junto aos estudantes."


ELEIÇÃO DIRETA PARA REITOR
DA PUC

"No início dos anos 80, nós queríamos nos opor ao regime totalitário que estava vigorando no Brasil e provar que funcionários, professores e alunos são igualmente capazes de escolher o diretor, o reitor ou o presidente da instituição.

"Antes eu reunia o conselho de cada classe, para ter uma certa democracia entre os professores, e pedia que me indicassem o nome. Achei que era pouca democracia. Então, pedi à reitora e aos três vices para haver uma escolha entre todos os alunos, que eu aceitaria o resultado e mandaria para a aprovação de Roma.

"E Roma aprovou imediatamente. Então, foi a primeira eleição dentro de uma universidade pontifícia católica e, também, foi a primeira vez que se escolheu um reitor entre todos os funcionários, alunos e professores."


CONTRATAÇÃO DE PROFESSORES PERSEGUIDOS

Florestan Fernandes
 
"O ministro da Justiça ordenou a expulsão de vários professores da Universidade de São Paulo. Então a reitora da PUC me telefonou perguntando se podia admiti-los entre nós. Eu disse: 'Não só pode como deve, porque são excelentes professores e patriotas'.

"O Florestan Fernandes até escreveu um artigo me agradecendo. Ele ficou satisfeito porque pôde dirigir os estudantes da pós-graduação na PUC da maneira mais livre possível.

Paulo Freire

"Quanto ao Paulo Freire, eu fui a Genebra para convencê-lo a voltar ao Brasil, depois de 10 anos de exílio. Garanti que eu iria cuidar da chegada dele aqui. 

"E mandei toda a nossa Comissão de Justiça e Paz, que eram mais de 40 pessoas, junto com amigos, para recebê-lo em Campinas.

"De fato a polícia o prendeu, mas, depois de duas horas de interrogatório, eles viram que todos estavam contra eles e soltaram o Paulo Freire, que ficou conosco, com uma grande amizade comigo, até o momento da sua partida."


CONVICÇÕES E ESPERANÇAS 

Sobre o Governo Lula, antes mesmo da crise do mensalão, D. Paulo já mostrava uma ponta de apreensão, ao se dizer esperançoso de que "o Brasil não perca esta ocasião e não afunde o barco em vez de conduzi-lo a uma margem da terra onde haja outra terra e outro céu, como diria a Sagrada Escritura; onde haja outra possibilidade de sonhar e outra possibilidade de viver com dignidade, mas para todas as pessoas e não só para uma parte".


E, inquirido sobre o menor engajamento atual da Igreja às causas sociais, ele finalizou com uma mensagem de esperança: 

"A Igreja é o povo. Se o povo se mobiliza bem, a Igreja também se mobiliza. Então, é preciso unir esses dois conceitos, o povo de Deus e o povo, simplesmente. Nós precisamos caminhar para a fraternidade, para uma possibilidade de todos serem respeitados como filhos de Deus e irmãos uns dos outros".


EPÍLOGO 

Não há como retratarmos a grandeza de um D. Paulo Evaristo Arns numa única entrevista. Faltou dizer, p. ex., que ele criou a Comissão de Justiça e Paz de São Paulo e foi o grande artífice do projeto Brasil: Nunca Mais (livro sobre as violações de direitos humanos durante o regime militar), integrando também o movimento Tortura Nunca Mais, dele decorrente.

O principal, no entanto, é que suas gestões junto às autoridades salvaram a vida e evitaram a tortura de resistentes, no pior momento da ditadura.

Fiel ao espírito da igreja das catacumbas, foi o pastor que tudo fez para que seu rebanho sobrevivesse a um tempo de lobos. Um imprescindível, enfim. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

O QUE FAZER COM TODOS OS PROCESSOS DA LAVA JATO CONTAMINADOS POR ABUSOS DE PODER?

Quinta, 3 de outubro de 2019
O QUE FAZER COM TODOS OS PROCESSOS DA LAVA JATO CONTAMINADOS POR ABUSOS DE PODER? SE NÃO PRESTAM, JOGUE-SE FORA!


Do Blogue Náufrago da Utopia
Por Celso Lungaretti
Um clássico do tempo em que ainda havia vida inteligente no cinema voltado para o grande público (esse que hoje lota salas para assistir às besteirinhas da Marvel Comics...) foi Agonia e êxtase, de 1965, dirigido por Carol Reed. 

O tema: a conturbada parceria entre dois homens de personalidade muito forte, o papa guerreiro Júlio II e o pintor Michelangelo Buonarroti, da qual resultou a maior obra-prima de arte religiosa em todos os tempos, a série de pinturas que decorou o enorme teto da Capela Sistina, com destaque para A criação de Adão. 

Principalmente escultor, Michelangelo de início não ficou empolgado com a tarefa e foi preenchendo os espaços com pinturas sacras convencionais, suficientes para satisfazer as expectativas do contratante. Até que, na taverna onde fazia suas refeições, o dono destruiu os barris de vinho que azedara, virando vinagre. E justificou: "Se não presta, joga-se fora".

Consciente de que seu trabalho não vinha sendo o melhor que poderia fazer, Michelangelo também destruiu tudo que havia feito e recomeçou do zero, passando a criar imagens realmente inspiradas, mesmo que a empreitada lhe custasse muito mais esforço e consumisse quatro anos de sua existência.


É o dilema do Supremo Tribunal Federal neste instante. A Operação Lava-Jato está totalmente desmoralizada, agora que sua máscara foi arrancada pelo Intercept Brasil e ficamos sabendo que muitas das condenações obtidas resultaram de uma tabelinha ilegal entre sua força-tarefa e o juiz dos casos, Sergio Moro. 

Então, ao invés de um julgador neutro, quem sentenciava era, na prática, o comandante secreto da força-tarefa: Moro orientava Deltan Dallagnol sobre como ele e sua equipe deveriam preparar o pacote para que a condenação fizesse algum sentido em termos jurídicos.

Mais: a força-tarefa mentia descaradamente para os ministros do STF, o que Teori Zavascki até procurou evitar, mas seu sucessor, Edson Fachin, engolia as lorotas como um patinho.

Mais: o ex-procurador geral da República Rodrigo Janot relata no seu livro de memórias a pressão que sofreu de Dallagnol e integrantes da força-tarefa, no sentido de antecipar a apresentação de uma denúncia contra Lula que era condição necessário para, noutro processo, poderem acusá-lo de crime grave e com pena rigorosa. 


Janot garante ter resistido à pressão descabida e mantido seu cronograma; fica claro, contudo, que a força-tarefa estava disposta a tudo,  não só para obter condenações, mas também para maximizar o tempo de prisão.

Mais: acabamos de saber que auditores da Receita Federal incumbidos de investigar os envolvidos com os escândalos no RJ montaram um lucrativo negócio de extorsão de delatores premiados.

Tudo isso e muito mais que veio à tona no presente ano deixa aos ministros do Supremo Tribunal Federal um único caminho para honrar suas togas: se não presta, joga-se fora!

Estão discutindo o que anular em processos nos quais os acusados de verdade tiveram de apresentar suas alegações finais na mesma data dos delatores premiados, os quais, na verdade, embora estes últimos, na prática, tivessem deixado de ser acusados e se tornado paus mandados dos acusadores.

É ridículo tentarem encontrar uma fórmula mágica para anular algumas sentenças e preservarem outras. Cogitam casuísmos do tipo restringir o direito à anulação a quem entrou com pedido no sentido de conhecer exatamente do que o acusavam antes de apresentar sua defesa final; restringi-lo às condenações nas quais se constata influência evidente das delações premiadas no veredito, etc.

Mas, obviamente, as delações premiadas criaram indisposição contra todos os processados e ajudaram a dar credibilidade à farsa judicial na qual tais processos se constituíram.


Então, se não prestam, que se joguem fora todos os trâmites desses processos e se recomece do zero!

Pois, se for apenas para dar credibilidade aos abusos de poder dos agentes do Estado, assuma-se de uma vez que no Brasil vige a lei do mais forte e desmonte-se o oneroso sistema de Justiça que estaria apenas salvar aparências e enganar trouxas. (por Celso Lungaretti)

sábado, 28 de setembro de 2019

Qualquer semelhança entre o Plínio Salgado e o Jair Messias Bolsonaro jamais será mera coincidência 1

Sábado, 28 de setembro de 2019
Do Blog Náufrago da Utopia
Por Dalton Rosado

DEFINITIVAMENTE, BOÇALNARO, O IGNARO É NEOINTEGRALISTA!!!




Os ditadores (ou aspirantes a sê-lo) têm algo em comum: a distorção dos conceitos virtuosos ou positivação de conceitos equivocados como justificativas de práticas igualmente distorcidas que justifiquem o cometimento do arbítrio e a negação dos ganhos civilizatórios alcançados a duras penas ao longo de séculos de servidão escravista imposta ou induzida.  

Representam, invariavelmente, o retrocesso.

Mas a prática, que também invariavelmente é o critério da verdade, contraria sempre as falácias com as quais eles buscam acobertar os seus intentos ditatoriais. Adolf Hitler dizia, como se fossem conceitos virtuosos, absurdos do tipo “que sorte para os ditadores que os homens não pensem!”.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

. . . e a música do dia é dedicada à Têmis, uma verdadeira Deusa, com os nossos votos de que ela perdoe o Sérgio Moro!

Quinta-feira, 25 de julho de 2019
Do Blogue Náufrago da Utopia
Por Celso Lungaretti



Como o ouvinte Sergio Moro admitiu que andava enganando a Têmis (veja o artigo mais abaixo*), sirva esta música como sugestão de que ele encerre a relação de forma elegante, a exemplo do que fez o Tim Maia:

"Venho lhe dizer, se algo andou errado / Eu fui o culpado, rogo o seu perdão /
Venho lhe seguir, lhe pedir desculpas / Foi por minha culpa a separação"

==========

*O DIA EM QUE SERGIO MORO ADMITIU TER BURLADO A JUSTIÇA


"Em 9 de abril passado, no programa Conversa com Bial, na Rede Globo, (...) Moro explicou porque não se arrepende de ter vazado a conversa da presidente Dilma Rousseff com seu antecessor, Lula, na véspera de sua fracassada nomeação para a Casa Civil. 

No minuto 35’38’’ da gravação, disponível no YouTube, Moro conta ao entrevistador Pedro Bial: O problema ali não era a captação do diálogo e a divulgação do diálogo… O problema era o diálogo em si, o conteúdo do diálogo. Ali era uma ação visando burlar a Justiça. Esse era o ponto.

Data vênia, é um raciocínio perfeito, que Greenwald poderia devolver com as mesmas palavras na testa de Moro, o feiticeiro que agora reclama do mesmo feitiço: O problema ali no Telegram não era a captação do diálogo e a divulgação do diálogo, ministro… O problema era o diálogo em si, o conteúdo do diálogo. Ali era uma ação [do juiz com os procuradores] visando burlar a Justiça. Esse era o ponto, ministro."

(trecho do obrigatório artigo do veterano jornalista Luiz Cláudio Cunha, Sergio Moro e os antagonistas do jornalismo sério e relevante, que coloca um ponto final na discussão sobre o direito que Gleen Greenwald tinha ou não de usar as gravações que usou para desmascarar as tramoias ilegais entre o juiz Sergio Moro e os procuradores da força-tarefa da Lava-Jato. O longo artigo está disponível no site do Observatório da Imprensa, pode ser acessado aqui e vale cada uma de suas muitas e muitas linhas) 

INCONTINÊNCIA VERBAL: nenhum boquirroto continuaria ministro da Justiça num país sério após confessar ter burlado a própria Justiça, como Moro fez aqui!!! 

sábado, 6 de julho de 2019

Esbulho dos direitos previdenciários é fórmula para salvar-se o capitalismo sacrificando os seres humanos — 1

Sábado, 6 de julho de 2019
Do Blogue Náufrago da Utopia




Dalton Rosado

A RACIONALIDADE APARENTE E A IRRACIONALIDADE INTRÍNSECA DA REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Quando um bandido coloca uma arma na cabeça de sua vítima e faz a pergunta clássica dos assaltantes (a bolsa ou a vida?), o racional é entregar o objeto do assalto, pois a vida é bem mais importante do que qualquer conteúdo econômico existente na bolsa. 

Da mesma forma, nenhum dos parlamentares ou membros do Poder Executivo (ou ainda, todo o universo dos detentores do capital) ousa afirmar que a reforma da previdência não seja necessária. 

Tal reforma consiste, essencialmente, na imposição do esbulho de direitos previdenciários, a serem sacrificados no altar da manutenção da lógica capitalista neste momento de implosão interna por força de suas contradições funcionais, que atingiram o estágio de disfunção social plena. 

Antes tal debacle era mascarada pela possibilidade de manutenção da escravidão indireta do trabalho abstrato. Agora, no entanto, já não é mais possível a humanidade conviver com um contrato social que se tornou anacrônico e escancara a a sua irracionalidade e espírito segregacionista. Como diz o sábio adágio popular, o mal por si destrói.


O esbulho se dará com o aumento do tempo exigido de contribuições previdenciárias e descontos salariais, bem como com a redução das aposentadorias a patamares irrisórios. 

Trata-se de enfiar goela dos brasileiros adentro os sacrifícios necessários para a manutenção de uma lógica de produção social cujo prazo de validade expirou.

Ora, quando se raciocina com uma arma apontada para a cabeça, o racional é ceder às exigências de quem detém a arma.  No caso da exigência e consequente aceitação do esbulho, a arma apontada para a nossa cabeça é a lógica funcional do capital em fim de feira, desesperado, mas ainda detentor do poderio bélico militar e da institucionalidade opressora. 

Na atualidade mundial, o desemprego estrutural causado pelo uso da tecnologia de ponta na produção mercantil tornou evidente a irracionalidade da produção social de valor a partir do trabalho abstrato (assalariado). 

Sacrifícios inauditos são o preço que os seres humanos pagam para a manutenção de uma relação social irracional. Já do ponto de vista dos defensores da sobrevida do capital, o irracional é racional. 

A vida social da humanidade poderia ser substancialmente facilitada graças ao estágio atingido:

— pela capacidade de produção industrial e pelos serviços proporcionados pela disseminação dos recursos tecnológicos da microeletrônica, que viabilizou a comunicação via satélite; 
— pela computação, que racionaliza procedimentos e faz cálculos infinitesimais em segundos, além de proporcionar a memória armazenada de trilhões de informações; e 
— por outros tantos elementos antes inimagináveis, aliados à apreensão do saber sobre tantas áreas do conhecimento (agricultura, medicina, engenharia genética, etc.).

Mas, sob a égide do capital, tais benefícios se tornaram um entrave à existência da relação social sob o capital e, assim, ao invés de trazerem felicidade, todos os avanços tecnológicos se constituíram como malefícios sociais relativos (em alguns casos) e absolutos (noutros casos).

Ao invés de reduzirmos o tempo de atividade laboral de todos mediante um esforço coletivo de produção social, o que se observa na reforma da Previdência é justamente o contrário: exige-se de cada um que dedique mais tempo do seu cotidiano à dura labuta, e isto no exato momento em que temos 13 milhões de desempregados buscando o que fazer. 

Poderíamos usar o esforço proporcional de todos na produção social dos bens indispensáveis ao consumo, e no sentido de que sobrasse mais tempo para se dedicarem às atividades afetivas, de lazer, esportivas, da arte em todos os seus múltiplos segmentos, do cuidado com a saúde, etc., que seriam tornadas possíveis a partir de uma subsistência mais cômoda sob outros critérios de produção. 


Exige-se, entretanto, que trabalhemos por mais anos e que contribuamos com mais dinheiro para o gozo da aposentadoria, ao mesmo tempo que diminuirá o intervalo entre a concessão do benefício e a morte. 

A longevidade humana proporcionada pelos avanços da medicina, antes de se tornar um bem para a humanidade, torna-se um estorvo para as contas previdenciárias. Tudo sob o capital é negativamente contraditório.  

É a vitória do irracional sobre o racional como se tudo fosse muito racional e inquestionavelmente certo; é a irracionalidade racional. (por Dalton Rosado)

"Quem esquece a própria vontade, quem aceita não ter seu desejo, é tido por todos um sábio. É isso que eu sempre vejo. É a isso que eu digo NÃO!" (Arena conta Zumbi)
(continua)

sábado, 22 de junho de 2019

Submetem-se docilmente à nova forma de escravidão dos dias atuais aqueles que desconhecem a própria força

Sábado, 22 de junho de 2019
Do
Blogue Náufrago da Utopia

SOBRE A SERVIDÃO  VOLUNTÁRIA



Por Dalton Rosado

Todos nós temos o hábito de nos acomodarmos aos hábitos e, desafortunadamente, aos maus hábitos. Esta é uma das causas da servidão voluntária continuada, que acarreta a abdicação ao direito à liberdade e o esquecimento das benesses e gozos desta, por desconhecimento. Afinal, não se sente falta de uma boa iguaria quando não se a conhece.

No filme Um sonho de Liberdade (de 1994, dirigido por Frank Darabont e estrelado por Morgan Freeman) temos uma exemplar demonstração de como o ser humano dominado pela privação continuada da liberdade, ao ver-se finalmente livre, não se adapta às novas circunstâncias e comete suicídio. Causas mortis: as condições adversas que encontra fora das grades, provocadas pela velhice e alheamento social, após décadas da rotina prisional a que já se habituara (*).

Existem relatos no Brasil de que negros escravizados por senhores feudais —os quais, apesar do regime escravista, conservavam algum resquício de humanidade—, continuaram servindo-os voluntariamente após a decretação da Lei Áurea.

domingo, 2 de junho de 2019

Ernesto Araújo é pego repetindo uma velha e deslavada mentira dos negacionistas climáticos

Domingo, 2 de junho de 2019

Do Blogue Náufrago da Utopia

Por Reinaldo José Lopes
CHANCELER REQUENTA MITO DE MUDANÇA CLIMÁTICA REFUTADO EM 2011


Para quem se gaba de ter chegado ao poder usando os métodos mais modernos de comunicação direta com o eleitor via redes sociais, os integrantes do atual governo federal andam meio atrasados no quesito meme e conspiração internética. 

O pessoal está precisando se atualizar. Afinal, que outra explicação teríamos para o fato de que o chanceler Ernesto Araújo encheu a boca para repetir, em pleno Congresso, uma bobagem refutada há quase uma década?

Ocorre que nosso ministro das Relações Exteriores quis lançar dúvidas sobre as estimativas de aumento da temperatura média da Terra —usando um argumento aparentemente sofisticado.

“Nos Estados Unidos, foi feito um estudo sobre estações meteorológicas, e diz que muitas estações que, nos anos 1930 e 1940, ficavam no meio do mato, hoje ficam no asfalto, na beira do estacionamento. É óbvio que aquela estação vai registrar um aumento extraordinário da temperatura. E isso entra na média global”, pontificou ele.

“Puxa”, dirá um desavisado, “esses climatologistas são todos umas toupeiras, né? Como é que não passou pela cabeça deles tentar levar em conta algo tão óbvio?”. 


Só para manter o clima de WhatsApp, insira aqui aquele meme com o Pica-Pau dizendo “Fui tapeado!” e dando um murro na própria mão.

Bom, tapeado só foi quem acreditou no ministro. Essa crítica acerca da qualidade das medições da temperatura mundo afora é um velhíssimo golpe de negacionistas climáticos, pessoal que acha que a humanidade não tem nada a ver com o aquecimento do planeta deste século (e que, em geral, ou recebe uma graninha da indústria dos combustíveis fósseis ou usa toucas de papel-alumínio).

Só que é lógico que isso já foi levado em conta. Em outubro de 2011 (sim, 2011, essa era longínqua na qual o governo Dilma gozava de excelentes índices de aprovação) foram divulgadas as conclusões do monumental estudo Temperatura da Superfície da Terra de Berkeley —como o nome indica, foi coordenado por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley. Sua intenção era justamente colocar à prova a hipótese de que havia problemas nas estações meteorológicas.

Acontece que essa hipótese levou uma sova da realidade.

A base de dados do estudo de Berkeley levava em conta informações de quase 37 mil locais diferentes. Desses, quase 16 mil foram confirmados, por satélite, como sendo rurais. Distantes do asfalto tão querido do nosso ministro.

E, adivinhe só, a tendência de aquecimento é a mesma em todos os conjuntos de dados —a totalidade dos locais, os locais urbanos e os locais rurais. Sim, em algumas estações há até tendência de resfriamento, o que é esperado dada a variabilidade regional do clima, mas em dois terços dos postos de medição o mundo está esquentando (cerca de um 1°C ao longo do último século).  

De quebra, medições de temperatura também são feitas por satélite (numa escala temporal mais curta, é claro). Sem surpresa alguma, tais medições confirmam o aquecimento, e é óbvio que elas não são influenciadas pela proximidade com o asfalto.

Talvez o ministro não tenha dito o que disse para engambelar os congressistas de caso pensado. Talvez esteja apenas enxergando pelo em ovo por razões ideológicas (ele é contra o globalismo dos aquecimentistas). Seja como for, isso não se faz, Ernesto. (por Reinaldo José Lopes)


sexta-feira, 31 de maio de 2019

Enquete do Blog Náufrago da Utopia: O Weintraub é mais grotesco ao imitar o Gene Kelly ou ao se fingir de ministro da Educação?

Sexta, 31 de maio de 2019
Do Blog Náufrago da Utopia
Renato Terra


renato terra
WEINTRAUB BLOQUEIA SOL NO FINAL
DE SEMANA: "VAI CHOVER GRANITO"

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, anunciou que contingenciará o sol no final de semana. "A frente fria chegou ao MEC. No que depender de mim, haverão chuvas de granito", explicou, enquanto abria novamente o guarda-chuva.

Weintraub negou que esteja se protegendo de uma chuva de críticas pelos cortes na educação e pelos recorrentes erros de português. "Não quero insitar os estudantes que não sabem a fórmula da chuva, mas não podemos prever o que vai acontecer. Aliás, não há indícios concretos para acreditarmos em meteorologia".

No final da apresentação, técnicos do governo fizeram um alerta: "Todo mundo sabe que abrir guarda-chuva em local fechado traz má sorte".

O vídeo do topo mostra uma das melhores coreografias já apresentadas no cinema; o outro vídeo é um atentado à verdade (vide aqui) e ao bom gosto.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Maconha, ateísmo e sexo na USP

Quinta-feira, 23 de maio de 2019
Do
Blog Náufrago da Utopia

É difícil apontar o que há de mais demente, de mais estúpido ou de sinistramente cômico no mundo bolsonarista. Mas eu queria comentar um pouco o modo com que esse bando de saltimbancos se manifesta a respeito da universidade pública.
Quanto ao chefe, o caso seria quase de compaixão. Bolsonaro afirmou que grande parte da pesquisa no Brasil é feita pelas faculdades da iniciativa privada. A estatística desmente a batatada [o blog recomenda este artigo que aprofunda bem o assunto]. O presidente simplesmente não sabe o que diz.

Claro que as intenções —que não vêm deste governo— são perversas. A grande campanha contra o ensino público, tanto na perseguição ideológica quanto no sufocamento financeiro, está a serviço da indústria das universidades particulares.

Já lhes convinha muito o programa petista de financiar as mensalidades dos alunos pobres. Muitos jovens se beneficiaram de diplomas que muitas vezes servem apenas para que se atinja um status social mais satisfatório.

Você pode marcar no currículo que tem nível superior, graças a um curso de administração, relações públicas ou turismo nas Faculdades Pindorama; pouco vale, mas traz felicidade e conhecimentos residuais ao diplomado.

Que digo? Nos dias que correm, um atestado desses é o suficiente para você virar ministro, líder de partido, especialista em acordos internacionais ou luminar opinativo nos círculos do governo.

Tenho saudade dos tempos em que se reclamava do analfabetismo de Lula... Hoje, um especialista em finanças, a quem se atribuiu o cargo de ministro da Educação, confunde 3 com 30 por cento quando vai explicar o contingenciamento de verbas. Nervosismo e pressa, sem dúvida. Mas Lula acho que sabia a diferença entre Kafka e um espeto de carne.

Tudo isso é tão primário, tão deprimente, que termina sendo uma vantagem para os adeptos da nova ordem. Não há sequer o que discutir. A imbecilidade prossegue por si mesma, imune à denúncia ou ao ridículo.

Um pouco mais complexa é a atitude dos que, ecoando Bolsonaro ainda uma vez mais, constroem uma espécie de fantasia própria a respeito das universidades públicas —e da USP em particular. Lá só tem maconheiro!

Foi boa a resposta da página de Ciro Gomes no Facebook: “Diz que nas universidades públicas só tem maconheiro... quer dizer que você disputou com um viciado e ainda perdeu a vaga?”

A provocação desvenda a mentalidade por trás dessa campanha. O mecanismo é conhecido; trata-se do puro ressentimento.

Conceito complicado, esse, que a psicanalista Maria Rita Kehl (e minha ex-mulher, mas isso felizmente não vem ao caso) analisou com profundidade em livro publicado pela Casa do Psicólogo em 2004.

Uso o termo, aqui, no sentido coloquial. Tome-se o outro ponto preferido das críticas à USP —lá as pessoas ficam peladas, o sexo corre solto, aquilo é uma orgia de marxistas, de ateus ou coisa pior.

Pior que um marxista ateu? Ah, sim: bissexual.

A raiva contra a USP nasce de uma criação imaginária. 

O bolsonarista se sente atraído pela nudez de belas estudantes ou pela devassidão de gays no Carnaval; em vez de desviar os olhos e rezar um padre-nosso, divulga o que pode nas redes sociais.

Acrescenta um sinal de menos: “Como! O que é isso! Veja só o que estão fazendo!”

Ele gostaria de entrar na USP —admito que para estudar, não para fumar maconha. Como não entrou, precisa diminuir sua frustração. As uvas estão verdes...

Seria o caso de dizer, como fez Bolsonaro, que afinal lá não existe pesquisa científica ou que o ensino não é tão bom assim.

Mas o bolsonarista vai além, e aí ele se trai. Para negar seu desejo pela USP, resolve substituí-lo por um objeto de desejo ainda mais forte, o sexo. Imagina um harém de prazeres —e, nesse caso, seu histórico de repressão pessoal ajuda. Isso ele sabe negar, sabe condenar.

Reprovado numa escola de artes, Hitler passou a considerar-se árbitro da estética alemã. Vingou-se, eliminando os responsáveis imaginários por sua eliminação.


Ninguém usa de verbalização mais pornográfica do que Olavo de Carvalho, ao condenar a educação sexual na escola básica.

A violência desses coitados se explica: sem ironia, é o grito dos excluídos, um pedido de liberdade, engasgado na garganta daqueles que só entendem a repressão. Pena que eles próprios sejam imbecis demais para perceber isso. (por Marcelo Coelho, jornalista, escritor e mestre em sociologia pela USP)