Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
Mostrando postagens com marcador capital X trabalho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador capital X trabalho. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de novembro de 2024

O choque de realidade nos convida a agir

Sábado, 16 de novembro de 2024

O choque de realidade nos convida a agir

Roberto Amaral*

“Os filósofos até agora apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; cabe agora transformá-lo.” (Karl Marx, 1845, Teses sobre Feuerbach)
 
Não basta contemplar a realidade, como as estrelas de Bilac. É preciso estudá-la, conhecê-la, avançando sobre as aparências que escondem sua essência. Só assim surge o mundo real, produto histórico, rico em suas fontes sociais e econômicas. Mesmo o conhecimento daí decorrente não pode ser visto como obra acabada: sua vida decorre de seu papel como instrumento de intervenção do homem na realidade: só assim é possível transformar o mundo, e este é o destino do ser humano, sujeito histórico. Contemplando os tempos de hoje parece pertinente lembrar aos nossos filósofos que a afirmação — laureada pela unanimidade de sua aceitação — segundo a qual o mundo, e nele o Brasil, foi engolfado por uma onda de conservadorismo político, se é verdadeira, não encerra toda a verdade. Falta-nos a explicação desse conceito de conservadorismo urbe et orbe, falta-nos investigar suas causas, posto que não é obra nem de Deus nem do diabo, mas fenômeno político-social.

A crítica — seja jornalística, seja filosófica — dá um passo atrás quando se depara com o crucial, e se recusa a enfrentar o que fazer diante do mundo que fotografa: a ascensão da direita e do protofascismo em termos quase planetários, e, entre nós, a triste admissão de que a direita, em seu vasto espectro, é a força política e eleitoral hegemônica. E, se é assim, por que é assim? De novo: como explicar esses movimentos político-sociais profundos, largos e tão rápidos? De novo, a pergunta essencial: o que fazer, para além de simplesmente registrar a realidade? 

Este terreno, pobre, tanto do ponto de vista teórico e especulativo, foi recentemente irrigado pelas intervenções de dois políticos atentos no engenho de dar explicações para fenômenos políticos que nos incomodam. Ambos, de uma forma e de outra, se referem ao fracasso da democracia liberal com pretensões sociais no enfrentamento dos desafios impostos pelo que chamamos de capitalismo financeiro monopolista, a força governante, regente imperial, independentemente das nações, dos países e dos Estados.

Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile por dois mandatos, explica a ascensão do autoritarismo e da direita a partir do fracasso da experiência democrática, um quase determinismo quando nossos governos não entregam os resultados prometidos ou não atendem às expectativas de suas populações. Bachelet não se refere ao papel desestabilizador do capitalismo, fenômeno que não está adstrito aos países pobres, como mostra a crônica contemporânea, mas lembra que o fracasso de governos democráticos abre caminho para a geração de conflitos, de episódios de violência e instabilidade política, que, como sabemos, se resolvem nas soluções autoritárias, golpes militares e mesmos intervenções das grandes potências. Cabe lembrar a lufada de revoltas, então ditas democráticas, que caracterizaram nos anos 2010 e 2012 a “primavera árabe”. O saldo, hoje, afora revoluções civis inconclusas, são os golpes de Estado no Egito e na Tunísia.

Algo pode nos lembrar os idos brasileiros de junho de 2013 e seus desdobramentos em nossa vida política, como o golpe de 2016 e a ascensão do bolsonarismo, contido em 2022. Antes tivéramos o fracasso do monetarismo do ministro Joaquim Levy e a crise econômica que implicou queda do PIB (1,9 %), inflação em 2012 e inflação e recessão em 2015.

Segue-se uma história consabida, que começa com o golpe de 2016 e a eleição de Bolsonaro em 2018, e que insiste sua permanência entre nós, tornando contemporâneos o ontem e o hoje. Mas a crise das democracias liberais também se instala quando governos de esquerda ou centro-esquerda (ou os socialdemocratas europeus) são dominados pelo neoliberalismo, que, num arcaísmo, é a pedra de toque das formações ocidentais, passando por cima de suas origens e compromissos político-populares. Em nenhuma sociedade as consequências se fizeram esperar. Desde 2022 a primeira-ministra da Itália é a fascista Giorgia Meloni, do Fratelli d’Italia, e na Alemanha, governada por um partido socialdemocrata que abraçou o liberalismo econômico e o belicismo da OTAN, soçobra o gabinete de Olaf Scholz, enquanto avançam os partidos de direita e de extrema-direita, de extração neonazista, como o AfD (Alternativa para a Alemanha).

Nem a ascensão do bolsonarismo, nem o referendum que acaba de consagrar Donald Trump, podem significar a surpresa de um raio em céu azul. Trump é tão americano quanto a torta de maçã, e seus eleitores não são extraterrestres. Esse retorno que só a nós surpreendeu guarda relação direta com o fracasso de Biden, e anuncia com pompa e circunstância os últimos vagidos da democracia liberal. Nos próximos anos teremos um império ainda mais próximo do Big Stick, mas certamente menos cínico, embora mais mentiroso.

Por muito tempo as principais lideranças das esquerdas brasileiras, oriundas ou não do partidão, confundiram determinismo histórico, que não é uma lei nem um dogma, como um destino traçado por Zeus: o comunismo passou a ser tido como uma fatalidade,  seu advento independeria da ação humana. Podíamos ficar quietos e tranquilos. O pretenso cientificismo revolucionário descambava, e descamba ainda, para o pensamento mágico, às vezes messiânico, e nos afasta da realidade concreta. Principalmente nos afasta da militância, da organização das massas e da batalha ideológica. A que a classe dominante jamais renunciou.

A experiência da luta social, notadamente em seus aspectos mais trágicos, mostra que as mudanças históricas são processos sociais levados a cabo pelas grandes massas organizadas, a partir de um projeto revolucionário compreensível e que corresponde aos seus interesses. Abandonamos a militância e a organização e a elevação do nível político das massas. Jamais nos perguntamos se nossa visão de mundo correspondia ao Brasil real, e jamais nos perguntamos se nossas utopias correspondiam aos sonhos de nossa gente: proletariado transformado em precariado, camponeses sem terra e sem trabalho, trabalhadores desterrados das linhas de produção, multidões expulsas do campo e da cidade onde habitam seus socavões, e “ganham a vida” nos termos do “Deus dará”.