Sábado, 22 de dezembro de 2018
Por
(Da equipe do blog) - Em Lisboa,
19 horas.
Nuvens negras se acumulam para os
lados da Praça Luis de Camões e relâmpagos brilham, sinuosos, sobre o Castelo
de São Jorge.
Um conhecido, capixaba, que
vem descendo a pé o passeio,
testemunha inesperadamente o encontro de
dois cidadãos portugueses, perto da Tasca
Maitai, na rua da Rosa.
-Tu por aqui, pá? E sozinho?
Como está frio, cerca de 10 graus, com chuva e uma umidade de
81%, o primeiro parece estar tentando convencer o segundo a tomar uma taça de
vinho, ou quem sabe algo mais forte, em um bar próximo, para esquentar o peito,
e completa, incisivo, aumentando o tom de voz, com um apelo que lhe parece
incontornável:
- Vamos, vamos, que quero comentar
contigo a última do brasileiro!
Frase que, dita com tal ênfase,
chama, naturalmente, aos brios, a curiosidade de nosso compatriota, que, não
tendo nada melhor para fazer no momento,
resolve seguir os gajos para dentro de um lugar pitoresco, ali por perto, lotado de gente
apinhada em frente a um balcão cheio de espelhos, onde os dois prováveis
lisboetas conseguem uma mesa em um cantinho e o Joaquim - à falta de outros
usamos aqui os prenomes que sempre utilizamos no Brasil para identificar clássicos personagens portugueses - já
matreiro, tirando a capa molhada com um sorrisinho na boca, volta a fazer
alusão à última “do brasileiro”.
- Mas qual delas, pá, qual delas?
- pergunta nosso suposto Manoel - diz-me logo que já são tantas, mais de uma
por dia, ultimamente !
- Ora, a dos aviões, pá, a dos
aviões. Não viste que o Temer, no apagar das luzes, acaba de abrir as asas, ou
melhor, as pernas, do mercado brasileiro de aviação de passageiros aos
estrangeiros?
- Ora meu caro, isso já era de se
esperar. Os brasileiros estão como umas cavalgaduras na sofreguidão por
entregar o seu ao alheio. Não percebem que a aviação civil é um excelente
negócio, desde que esteja estrategicamente ligado, até por uma questão de
segurança, também ao Estado, atendendo aos interesses nacionais, ou, em alguns
casos, até mesmo continentais, como por aqui é o caso.
- É verdade. Não foi por acaso que
o nosso governo comprou mais ações da TAP no ano passado, completando agora os
50% - disse Joaquim, levando pela primeira vez a taça aos lábios, com nosso
providencial capixaba encostado ao
balcão, meio de lado, com as orelhas em riste, acompanhando o colóquio lusitano.









