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(Millôr Fernandes)
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segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

A Foreign Affairs e o retorno da (nunca abandonada) questão nacional

Segunda, 9 de dezembro de 2019
Do Portal Bonifácio*


08/12/2019
Os meios acadêmicos norte-americanos despertam para a atualidade e a importância da questão nacional.

Há menos de 30 anos, os centros liberais celebravam triunfalmente a vitória, tida como definitiva, do cosmopolitismo globalizado sobre o nacionalismo e decretavam a “questão nacional” como algo superado de uma vez por todas no caldeirão (ou, de maneira “cosmopolita”, melting pot)da globalização. Ideólogos liberais canônicos no período, como Francis Fukuyama e Kenichi Ohmae, vislumbravam a tendência irreversível de substituição das nações pelo “mercado mundial” e do nacionalismo pelo individualismo competitivo característico das principais metrópoles capitalistas. Finalmente o mundo seria uma “aldeia global”, com os países deixando de lado suas diferentes e históricas construções políticas, linguísticas, religiosas e culturais, passando a ser todos “nova-iorquinos”, nascidos ou não em Nova Iorque, bem-vindos ou não em Nova Iorque.

Contudo, em 2019, o cenário assume contornos muito diferentes. O globalismo é contestado não apenas por grande parte das sociedades, seja dos próprios países centrais ou fora deles, mas também, cada vez mais, pela própria elite política e intelectual desses países.

Napoleão Bonaparte: projetou o poder militar e os valores da França burguesa para a Europa e para o mundo.

O consenso anti-nacional, apresentado como condição inescapável do presente e do futuro, tornou-se passado, e os debates sobre a importância da Nação são reacendidos. Manifestação disso é a edição de Março/Abril de 2019 da renomada revista estadunidense Foreign Affairs, tradicional porta-voz dos setores oficiais dos EUA. O tema não deixa margem para dúvidas: O Novo Nacionalismo. Os punhos cerrados e anônimos na capa deixam claro o principal agente nacionalista: o povo, reduzido à condição de massa indiferenciada, bem ao gosto do pensamento que fundou e governa os EUA. Não admira que o termo “populista”, com forte carga depreciativa no establishment acadêmico estadunidense, frequentemente utilizado para rotular os líderes e os grupos políticos que mobilizam o sentimento nacionalista de grande parte das sociedades.

Depois do Brexit, da eleição de Donald Trump, do soerguimento de países francamente nacionalistas como Rússia, China e Índia e da sobrevivência de regimes de fato nacionais como os de Cuba, Venezuela, Irã e Coreia do Norte, torna-se impossível a qualquer observador manter as ilusões “pós-nacionais” que se sucederam à queda do Muro de Berlim. Setores consideráveis da “elite do poder” dos EUA e do bloco econômico-militar norte-atlântico como um todo descobrem que, apesar das suas veleidades universalistas, os sentimentos morais das sociedades continuam inclinando-se para as suas respectivas nações. Se o andar de cima dos centros capitalistas define a si próprio como o filósofo escocês David Hume (1711-1776) definia os acionistas das grandes empresas – “homens, sem ligação com o Estado, que podem usufruir de sua renda em qualquer parte do globo onde decidam residir, que naturalmente ocultar-se-ão na capital ou em grandes cidades”[2] – o povo, necessariamente, insere-se material e afetivamente em comunidades nacionais específicas. Enquanto o corpo editorial da Foreign Affairs enxerga o retorno do nacionalismo como uma “vingança” e procura destrinchar esse fenômeno inesperado (ao menos para a elite do poder dos EUA), as sociedades, seja no centro ou na periferia do mundo, tendem a compreender o nacionalismo como um âmbito de pertencimento comum maior e mais sólido que os caprichos liberais, quer sejam econômicos ou culturais.