Sábado, 16 de maio de 2026
Rio, maravilha e miséria dos cartões-postais
Em nome de um turismo “contemporâneo”, cidade restaura relações que marcaram seu passado colonial: expulsa, segrega e devasta. Em vez de caravelas, o conquistador vem nas plataformas do capital imobiliário internacional
Praias de Ipanema e Leblon. Obra que integra o acervo do Instituto Moreira Salles
Este ensaio analisa a ordem sociopolítica vigente na cidade do Rio de Janeiro à luz do conceito de colonialidade do poder, proposto pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano para explicar o fato de que, mesmo séculos após sua independência, as colônias europeias continuem a reproduzir indefinidamente os padrões de comportamento dos colonizadores. Procuro demonstrar, com este exemplo, que os traços de racismo, patriarcalismo, eurocentrismo e hierarquização étnica e de gênero, através dos quais o autor caracteriza as sociedades colonizadas, podem adquirir manifestações locais específicas conforme a geografia e a história do território invadido.
O argumento é de que a facilidade de navegação na Baía de Guanabara, a beleza e a riqueza de recursos do entorno, a abundância de mão de obra escravizada e a ineficiência e violência da governança portuguesa criaram um paradoxo vivido pelo Rio até hoje: ainda que declarado patrimônio da humanidade e decantado em prosa e em verso, não conseguiu se manter na lista dos 100 destinos
ii mais visitados do mundo. É que a perda da capitalidade, em 1960, aprofundou a herança colonial, impedindo inovações potenciais.
Em resumo, não há hoje um lastro cosmopolita que permita ao Rio exercer plenamente a sua vocação turística. Faltam-lhe segurança, mão de obra qualificada, estrutura de serviços adequada e, sobretudo, lideranças capazes de conceber e implementar políticas públicas que resgatem a convivialidade da antiga capital.
Em 1° de março último, a cidade festejou 461 anos. São, portanto, quase cinco séculos de replicação de um padrão de espoliação de terras e gentes introduzido pelos portugueses.