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(Millôr Fernandes)
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quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Quem tem medo da reconstrução industrial

Quarta, 24 de janeiro de 2024

Programa de Lula e Alckmin propõe-se a interromper quatro décadas de regressão econômica. Elite rentista o rejeita, porque acumula riquezas sem produzir. E aposta que contará com os aliados no ministério e as contradições internas do governo

OUTRASPALAVRAS

 
Imagem: Sentretvector/ Freepik 

“Subdesenvolvimento não se improvisa — é obra de séculos”, escreveu certa vez Nelson Rodrigues. Entre 1930 e 1980, o crescimento contínuo e acelerado da indústria brasileira tornou-a a mais diversa e avançada entre os países do Sul Global. Fazia inveja aos chineses, que vieram conhecê-la de perto. Mas este breve lapso, em meio à maldição colonial do país, foi desde então meticulosamente sepultado.

O Brasil sofreu “a desindustrialização prematura mais brutal do capitalismo”, nas palavras do economista Paulo Morceiro, especialista no tema. Entre 1984 e 2022, a participação da indústria no PIB despencou de 27,3% para 12,9% — abaixo do que fora em 1947. E a produção industrial brasileira reduziu-se a apenas 1,32% da mundial – atrás de países como Índia, México, Rússia e Indonésia. Ainda assim, na última terça-feira (22/1), quando o governo federal apresentou, depois de muito tempo, uma nova proposta de política industrial, a elite econômica do país reagiu com frieza. O real e a Bolsa caíram. Nos jornais e TVs, afirmou-se que os recursos necessários para recuperar a indústria “geram uma incerteza muito grande no curto prazo”. O ministro da Fazenda faltou ao ato de lançamento da nova política.

O plano — denominado Nova Indústria Brasil e disponível na íntegra aqui — tem virtudes, limites e sobretudo incertezas. Elas serão resolvidas pela força política que cada setor social souber exercer, nos próximos meses. O economista Marco Antonio Rocha, professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Núcleo de Economia Industrial e Tecnologia da mesma universidade, construiu uma síntese que talvez possa ser apresentada em quatro pontos:

1. Ideia central supera antigos problemas…:

A proposta tem concepção avançada. Está em sintonia com mudanças na concepção de política industrial que estavam latentes desde a crise financeira de 2008 e se consolidaram no pós-pandemia. Já não se trata de lançar programas pontuais, como o apoio a setores industriais específicos (ou, no Brasil, a aposta nos “campeões nacionais”). Aposta-se numa visão sistêmica segundo a qual a emergência de uma indústria forte depende de um feixe de ações: desenvolvimento de Ciência e Tecnologia, apoio de bancos públicos, formação e infraestrutura, entre outras. Já não se acredita numa globalização sem barreiras. Busca-se a construção de cadeias produtivas resilientes, capazes de persistir mesmo diante de choques externos relevantes.

Na formulação da nova política, participou a economista Mariana Mazzucato (leia seu artigo a respeito). Conhecida por suas opiniões contra-hegemônicas, ela destaca com insistência o papel central dos Estado na indução e no direcionamento das políticas econômicas. Zomba dos que creem na “mão invisível dos mercados”. Construiu um projeto baseado em sua conhecida opção por “missões” – ou seja, objetivos que as sociedades devem dar a si mesmas, e nos quais a indústria tem papel relevante. No caso brasileiro, são seis: a) cadeias agroindustriais sustentáveis; b) Complexo Econômico e Industrial da Saúde; c) Infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade sustentáveis; d) transformação digital da indústria; e) bioeconomia, descarbonização e transição e segurança energéticas; e f) soberania e defesa nacionais.

Mazzucato trabalhou em bases férteis, ressalva Marco Antonio. O pensamento econômico brasileiro – em especial em universidades como a Unicamp e a UFRJ – é profundo, profícuo e atualizado, em relação ao debate e formulação de políticas industriais.