“ Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Banco Central: “Autonomia” ou Privatização?

Quarta, 20 de maio de 2026

Banco Central: “Autonomia” ou Privatização?

Avança, no Senado, proposta “modernizadora” apoiada por bancos, mídia e direita. Efeitos: atar o BC aos rentistas. Isolá-lo, por orçamento nababesco, dos dramas do país. Tirar de funcionários a força necessária para enfrentar a oligarquia financeira

OUTRASPALAVRAS                       Mercado x Democracia
Publicado 20/05/2026

Crédito: Reprodução/The Economist

Título original:
PEC 65 ou: como capturar o Banco Central chamando de modernização

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado adiou, em 20/5, o exame do substitutivo do Senador Plínio Valério à PEC 65/2023. A proposta, contudo, continua a tramitar – e persistem, portanto, as ameaças nela implícitas. O texto pretende conferir ao Banco Central autonomia orçamentária e financeira, permitindo que a autarquia financie suas despesas com “receitas próprias”, fora do orçamento aprovado pelo Congresso. Depois de dezoito meses de tramitação, 21 emendas e oito versões de parecer, a redação atual abandona a expressão “empresa pública” — que constava do texto original assinado por quarenta e dois senadores em novembro de 2023, com Vanderlan Cardoso, Ciro Nogueira, Davi Alcolumbre, Rogério Marinho, Sergio Moro, Hamilton Mourão e Flávio Bolsonaro entre os primeiros signatários. O texto final passa a definir o BCB como “entidade pública de natureza especial”. Apresentada como concessão substantiva às críticas acumuladas desde 2024, a mudança é cosmética, como demonstra a Nota Técnica 22 do Transforma/Fundação Friedrich Ebert (FES Brasil), publicada esta semana, da qual este artigo retoma os achados centrais.

O primeiro problema é que as “receitas próprias” que financiariam o BCB resultam de apropriação indébita de recursos da União: os ditos lucros de senhoriagem. A senhoriagem resulta do monopólio estatal de emitir moeda que não paga juros. Comecemos pela aritmética. Sob a Lei n.º 13.820/2019, os resultados positivos do BCB são transferidos ao Tesouro para abater dívida pública federal. No período 2017-2025, a senhoriagem — medida pela taxa de juros nominal sobre a base monetária — somou R$ 210,2 bilhões em valores constantes de dezembro de 2025. No mesmo período, a despesa administrativa do BCB no Orçamento Geral da União — folha de pessoal, custeio, investimento — somou R$ 43 bilhões. A diferença, R$ 167,2 bilhões, é o que a PEC pretende usar para financiar o BCB. O valor é equivalente, em valores acumulados, a aproximadamente 1,5% do PIB anual médio do período — ou, em termos de impacto anual médio, cerca de 0,17% do PIB ao ano. É essa magnitude que está em jogo quando se discute “autonomia financeira”.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Novo artigo da ACD: Projeto que limita dívida pública livra Bolsa-Banqueiro e turbina o Arcabouço Fiscal

Quarta, 22 de outubro de 2025

Novo artigo da ACD.jpg

Em seu mais novo artigo ao Extraclasse, Maria Lucia Fattorelli denuncia que o Senado Federal está analisando um Projeto de Resolução (PRS 8/2025) que, além de fixar limites globais para o montante da dívida consolidada da União, deixa fora do estoque da dívida pública (a ser considerado nesse limite, conforme último parecer, de 30/9/2025) o volume de títulos públicos doados pelo Tesouro Nacional ao Banco Central, ou seja, esconde exatamente a parcela mais escandalosa do estoque da dívida pública federal, que tem sido usada para manter a nociva Bolsa-Banqueiro.
Leia na íntegra no Portal Extraclasse ou faça o download do arquivo aqui.


Atenciosamente,

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

“Dominância fiscal”, o novo espantalho

Quarta, 18 de dezembro de 2024

Usando jargão economês, blefe mais recente da Faria Lima é culpar os gastos do governo pela alta dos preços. Assim dobra-se a pressão sobre o governo por arrocho na área social, bloqueio de investimentos e juros cada vez mais elevados…

OutrasPalavras
por Paulo Kliass

Mercado x Democracia

Publicado em OUTRASPALAVRAS em 17/12/2024

Imagem: Fórum21/Reprodução


As forças ocultas do financismo passaram a adotar um conceito bastante polêmico da macroeconomia conservadora para justificar a continuidade do desastre perpetrado pela política econômica do governo. Fernando Haddad cede em tudo o que elas exigem, mas a voracidade dos chacais nunca é saciada plenamente. Eles sempre querem mais carne e mais sangue. A intenção é manter de forma permanente um clima de antevéspera do apocalipse, ameaçando com a presença do bicho do terror logo ali na esquina. Com isso vem a pressão para que a sociedade aceite o combo de juros nas estrelas e arrocho fiscal cortando na carne dos mais desfavorecidos. Quantas vezes já não ouvimos os berros de alerta de que o Brasil iria quebrar caso uma ou outra medida fora do escopo neoliberal fossem adotadas?

A chantagem das elites do financismo era de que o Brasil iria quebrar caso Lula fosse eleito presidente da República em 2002. Naquele período houve uma escalada especulativa do dólar, que chegou a atingir a cotação recorde de R$ 4,00/US$. Pois Lula venceu, tomou posse e os indicadores da economia só fizeram melhorar a partir de 2003. Por outro lado, tínhamos a proposta do senador Paim (PT-RS) de fixar o salário mínimo em 100 dólares, apresentada em 2003. Se ela fosse aprovada, os representantes do financismo diziam que o Brasil não suportaria. Pois o valor mínimo da remuneração do trabalhador chegou a ser bem mais, próximo a 300 dólares em 2008, e a economia brasileira continuou evoluindo muito bem, obrigado.

Pois o tema do momento é a questão da austeridade fiscal. Para o povo da Faria Lima seria fundamental a aprovação de medidas mais “duras” para reduzir as despesas orçamentárias primárias. Para esse pessoal, se o Brasil não eliminar do texto constitucional as garantias de pisos de despesas com saúde e educação, além de desindexar os benefícios previdenciários em relação ao salário mínimo, o país quebra. Simples assim: chantagem pura! Como não conseguiram emplacar essa pauta maximalista neste momento, agora eles fazem pressão para a aprovação do pacote de maldades encaminhado pelo governo ao Congresso Nacional, a partir de propostas elaboradas por Fernando Haddad. Ao escapar malandramente do debate a respeito do impacto das despesas financeiras no equilíbrio fiscal, escudam-se no argumento de que o foco deve se manter na abordagem “primária”. Ou seja, os R$ 870 bilhões de pagamento de juros da dívida pública ao longo dos últimos 12 meses ficam de fora de qualquer esforço de corte, contingenciamento ou limite.

Financismo: chantagem para assegurar ganhos

Pois agora, a bola da vez é a tal da “dominância fiscal”. Trata-se de um conceito utilizado para descrever situações em que a política monetária se torna ineficiente para conter o processo inflacionário. De acordo com esse raciocínio dos manuais do conservadorismo neoclássico, a autoridade monetária eleva a taxa referencial de juros, mas os preços continuam a subir. A razão para tal fenômeno seria a continuidade de geração de desequilíbrio nas contas púbicas – daí o termo dominância fiscal. Como se pode perceber, a sacada deste argumento da manga da camisa neste momento opera de forma a justificar a Selic nas alturas e a luta para arrochar ainda mais as despesas orçamentárias na área social e nos investimentos.

Ocorre que a elevação da taxa pelo Copom e a manutenção de taxas na ponta para os clientes em níveis ainda mais absurdos, por conta dos spreads inimagináveis em qualquer outro país do mundo, não tem resolvido o problema da inflação há um bom tempo. E a razão para tanto não tem nada a ver com o argumento da dominância fiscal. Na verdade, a equipe econômica tem utilizado um remédio inadequado para o problema do paciente. Ao longo dos últimos tempos, o Brasil não vive uma inflação por excesso de demanda. O índice de inflação tem crescido por conta dos preços de bens e serviços do lado da oferta. É o caso, por exemplo, dos alimentos, dos combustíveis, das tarifas de energia elétrica, dos aluguéis, dos planos de saúde, dos remédios e tantos outros que não respondem a aumentos nos juros.

Selic acima da estratosfera

Mas o pessoal do sistema financeiro não quer abrir mão de seus ganhos fáceis. Assim, seguem pressionando, por meio de seus escribas de aluguel nos meios de comunicação, para justificar aumentos ainda maiores na Selic. A sanha é de tal ordem que eles conseguiram aprovar a elevação absurda de 1% na reunião mais recente do Copom e já apontam para mais 2% nos próximos dois encontros. É isso o que se lê no Boletim Focus do Banco Central (BC) – Selic a 14% no curto prazo. E também é o que está escrito com todas as letras na Nota divulgada pelo BC logo depois do encerramento da reunião do colegiado:

(…) “Diante de um cenário mais adverso para a convergência da inflação, o Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, ajustes de mesma magnitude nas próximas duas reuniões.” (…) [GN]

Ora, como é público e notório que a elevação dos juros não está provocando quase nenhum efeito sobre a inflação, agora a bola da vez é a tal da dominância fiscal. Uma lógica e uma narrativa de se tirar o chapéu, em especial quando veiculada para o grande público leigo nos debates internos das correntes do pensamento econômico. Afinal, em uma primeira abordagem faz sentido, assim como parece razoável também a ideia enganadora de que não se poderia gastar mais do que se recebe. Só que não! A economia de um país – em especial um com soberania monetária, como o nosso – não pode ser analisada sob a ótica simplista e reducionista das finanças pessoais ou familiares. A totalidade das nações chamadas desenvolvidas mantêm déficit fiscal de forma sistemática há décadas e nem por isso estão à beira da falência. Ou seja, todos estariam “gastando mais do que recebem” nessa abordagem de economia de boteco.

No caso da aplicação da abordagem da dominância fiscal para o caso brasileiro atualmente, tampouco o argumento resiste a alguma análise mais detalhada. O problema da ineficácia da política monetária para conter preços não tem nada a ver com a questão fiscal. Como já observado, o problema é o diagnóstico equivocado das causas do crescimento dos preços. Já o suposto “problema fiscal estrutural” só existe na cabeça de quem pretende reduzir o Estado à sua dimensão mínima e pretende se aproveitar de um processo de privatização dos serviços públicos. Os índices de endividamento público do Brasil são bem menores do que os apresentados por países como Estados Unidos, Canadá, membros da União Europeia, Japão e outros. Mas a insistência da Faria Lima em criar esta espécie de antessala do fim do mundo faz com que a realidade se confunda com os desejos do povo do financismo. São artigos e colunas nos jornais. São entrevistas com especialistas e economistas, todos eles provenientes de bancos e instituições financeiras. Todos eles alertando para a tal da “gravidade da crise fiscal” e que, se nada for feito, o Brasil vai quebrar.

Lula precisa assumir o comando da economia

O fato concreto é que o Brasil já ocupa a segunda posição no ranking internacional de países no quesito taxa real de juros (Selic descontada a inflação). Estamos atrás apenas da Turquia, que passa por um aperto monetário ainda mais grave do que o nosso. A insistência de Fernando Haddad em vestir a fantasia do bom mocismo e buscar atender a todas as reivindicações da Faria Lima tem provocado grandes prejuízos ao país e ao governo Lula. A insistência em não flexibilizar a meta irrealista de inflação oferece na bandeja o argumento do financismo para seguir elevando a Selic – afinal, o crescimento dos preços estaria “descontrolado” (sic). Por outro lado, a inexplicável obsessão do ministro em cumprir a meta de zerar o déficit primário também joga água no moinho da estratégia draconiana de cortar e cortar e cortar as despesas a qualquer custo.

Enfim, o apelo ao conceito de “dominância fiscal” é apenas um revestimento supostamente sofisticado para perpetuar a política de mais do mesmo na economia – mais aperto monetário e mais austeridade fiscal primária. Com a profundidade explicativa de um pires, busca trazer um arcabouço teórico ultrapassado e que não se aplica em nada para qualquer tipo de diagnóstico razoável da situação econômica que o Brasil atravessa no momento.

É fundamental que o presidente Lula, logo depois que autorizado pela equipe médica, assuma para si o comando da agenda econômica. Caso Haddad continue articulando em nome do presidente, o risco que se apresenta é justamente o de reforçar o discurso da dominância fiscal. Afinal, ele foi um dos primeiros a vocalizar os riscos representados pela suposta crise fiscal. Foi ele o responsável pelo formato austericida do atual Novo Arcabouço Fiscal. Foi ele quem indicou a Lula o nome de Gabriel Galípolo para presidir o BC, a partir de janeiro próximo, e está chancelando a mesma política de juros de Roberto Campos Neto. Ou seja, o ministro da Fazenda personifica os dois elementos centrais da teoria da dominância fiscal: juros elevados e austeridade fiscal extrema.

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quarta-feira, 3 de julho de 2024

Para encarar a blitz da Faria Lima

Quarta, 3 de julho de 2024
Setores que tutelam Lula 3 desde o início apertaram o cerco. Ataque contra o gasto público é ladainha diária nos jornais — com apoio da Fazenda e Planejamento. Resposta pode estar em movimentos pela Saúde e Educação. Mas é preciso rapidez

OUTRASPALAVRAS                              CRISE BRASILEIRA


Na atual conjuntura política, o terceiro governo Lula passa por um momento crítico, de pressões e ataques sistemáticos por parte do capital financeiro (vulgo a “Faria Lima”) e de seus prepostos e representantes no Parlamento e na mídia corporativa. A ladainha é a mesma de sempre: para eles o ajuste fiscal permanente resolverá todos os problemas do país; particularmente é “a” precondição incontornável para que se possa ter maiores taxas de crescimento de forma sustentável.

No entanto, agora, a campanha agressiva da direita neoliberal para que o governo corte gastos escalou, de forma ousada, alguns degraus, algo que já foi tentado, sem sucesso, em vários momentos e governos anteriores. Exige-se que os benefícios da Previdência (aposentadorias) e Assistência Social (Benefício de Prestação Continuada — BPC) sejam desvinculados do salário-mínimo. Cobra-se o fim dos pisos mínimos criados pela Constituição de 1988 para proteger os gastos públicos em Saúde (15% da receita líquda da União) e Educação (18% da receita de impostos). Ameaça-se, assim, o financiamento de ambas.

Está-se diante de uma verdadeira blitz do capital financeiro e de seus representantes e prepostos contra os interesses da maioria da população. Embora não seja surpresa, esse comportamento das frações hegemônicas do grande capital e da burguesia brasileira, desconectado do mundo real das classes trabalhadoras e populares, impressiona pela rudeza e estupidez no trato da questão social.

A pandemia da Covid, que colocou de joelhos todos os países do mundo, teve o seu auge há pouco, em 2020. No Brasil, apesar do comportamento genocida de Bolsonaro e de seu governo (que implicou em mais de 700 mil mortes), o SUS (Sistema Único de Saúde) teve um papel fundamental no combate ao vírus, elogiado por todos (exceto os bolsonaristas-neofascistas), inclusive pelos que agora querem cortar os recursos destinados à Saúde. Um sistema que, apesar de ser subfinanciado, é reconhecido internacionalmente como uma política pública universal de excelência. O mesmo valeu para o papel das Universidades Públicas Federais no enfrentamento ao vírus, em especial através de sua capacidade de pesquisa, ainda que também subfinanciada, e de produção de equipamentos.

Não é segredo para ninguém de que o terceiro governo Lula, mais do que os anteriores, está sendo, desde o início, tutelado pelas forças políticas do capital financeiro. Elas impedem que o programa econômico-social aprovado nas urnas em 2022 seja posto em prática. E os dois instrumentos que possibilitam que isso aconteça são o Banco Central independente (não em relação ao capital financeiro) e o denominado Novo Arcabouço Fiscal (NAF).

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Quem tem medo da reconstrução industrial

Quarta, 24 de janeiro de 2024

Programa de Lula e Alckmin propõe-se a interromper quatro décadas de regressão econômica. Elite rentista o rejeita, porque acumula riquezas sem produzir. E aposta que contará com os aliados no ministério e as contradições internas do governo

OUTRASPALAVRAS

 
Imagem: Sentretvector/ Freepik 

“Subdesenvolvimento não se improvisa — é obra de séculos”, escreveu certa vez Nelson Rodrigues. Entre 1930 e 1980, o crescimento contínuo e acelerado da indústria brasileira tornou-a a mais diversa e avançada entre os países do Sul Global. Fazia inveja aos chineses, que vieram conhecê-la de perto. Mas este breve lapso, em meio à maldição colonial do país, foi desde então meticulosamente sepultado.

O Brasil sofreu “a desindustrialização prematura mais brutal do capitalismo”, nas palavras do economista Paulo Morceiro, especialista no tema. Entre 1984 e 2022, a participação da indústria no PIB despencou de 27,3% para 12,9% — abaixo do que fora em 1947. E a produção industrial brasileira reduziu-se a apenas 1,32% da mundial – atrás de países como Índia, México, Rússia e Indonésia. Ainda assim, na última terça-feira (22/1), quando o governo federal apresentou, depois de muito tempo, uma nova proposta de política industrial, a elite econômica do país reagiu com frieza. O real e a Bolsa caíram. Nos jornais e TVs, afirmou-se que os recursos necessários para recuperar a indústria “geram uma incerteza muito grande no curto prazo”. O ministro da Fazenda faltou ao ato de lançamento da nova política.

O plano — denominado Nova Indústria Brasil e disponível na íntegra aqui — tem virtudes, limites e sobretudo incertezas. Elas serão resolvidas pela força política que cada setor social souber exercer, nos próximos meses. O economista Marco Antonio Rocha, professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Núcleo de Economia Industrial e Tecnologia da mesma universidade, construiu uma síntese que talvez possa ser apresentada em quatro pontos:

1. Ideia central supera antigos problemas…:

A proposta tem concepção avançada. Está em sintonia com mudanças na concepção de política industrial que estavam latentes desde a crise financeira de 2008 e se consolidaram no pós-pandemia. Já não se trata de lançar programas pontuais, como o apoio a setores industriais específicos (ou, no Brasil, a aposta nos “campeões nacionais”). Aposta-se numa visão sistêmica segundo a qual a emergência de uma indústria forte depende de um feixe de ações: desenvolvimento de Ciência e Tecnologia, apoio de bancos públicos, formação e infraestrutura, entre outras. Já não se acredita numa globalização sem barreiras. Busca-se a construção de cadeias produtivas resilientes, capazes de persistir mesmo diante de choques externos relevantes.

Na formulação da nova política, participou a economista Mariana Mazzucato (leia seu artigo a respeito). Conhecida por suas opiniões contra-hegemônicas, ela destaca com insistência o papel central dos Estado na indução e no direcionamento das políticas econômicas. Zomba dos que creem na “mão invisível dos mercados”. Construiu um projeto baseado em sua conhecida opção por “missões” – ou seja, objetivos que as sociedades devem dar a si mesmas, e nos quais a indústria tem papel relevante. No caso brasileiro, são seis: a) cadeias agroindustriais sustentáveis; b) Complexo Econômico e Industrial da Saúde; c) Infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade sustentáveis; d) transformação digital da indústria; e) bioeconomia, descarbonização e transição e segurança energéticas; e f) soberania e defesa nacionais.

Mazzucato trabalhou em bases férteis, ressalva Marco Antonio. O pensamento econômico brasileiro – em especial em universidades como a Unicamp e a UFRJ – é profundo, profícuo e atualizado, em relação ao debate e formulação de políticas industriais.

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Organizações sindicais de servidores públicos divulgam carta com críticas ao Arcabouço Fiscal

Segunda, 19 de junho de 2023

Pauta será análisada agora pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado - Roque de Sá/Agência Senado

"O Estado brasileiro irá manter o povo pobre sem a devida assistência neste momento decisivo", diz documento

Nara Lacerda
Brasil de Fato | São Paulo (SP) | 19 de Junho de 2023

Diversos sindicatos reunidos no Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos Federais (Fonasefe) apresentaram, nesta segunda-feira (19), uma carta aberta contra o Arcabouço Fiscal, aprovado pela Câmara dos Deputados. O documento é direcionado ao conjunto de parlamentares do Congresso Nacional e à sociedade em geral. No texto, as entidades expressam preocupações e críticas em relação às normas que fixam regras para a arrecadação e para as despesas da União.

Segundo a carta, o novo arcabouço fiscal ameaça à construção de políticas sociais. Além disso, os representantes dos servidores e servidoras afirmam que a proposta impede a reestruturação das carreiras públicas e apresenta margem de crescimento do orçamento incompatível com a necessidade de reajustes para recuperar os salários congelados ao longo dos últimos anos.


"A lei do Teto de Gastos foi muito bem definida por Lula no seu discurso de posse como uma 'lei horrorosa'. Porém, para nossa triste surpresa, o governo encaminhou para o Congresso Nacional o 'Novo Arcabouço Fiscal', uma nova lei para a mesma política horrorosa, mantendo o teto de gastos e definindo uma margem de crescimento tão insignificante que coloca em risco todos os projetos sociais do governo que foram promessas de campanha. Acreditamos que o governo deveria potencializar esse momento com uma política de fim do teto de gastos, não com a criação de uma versão nova da mesma coisa", diz a carta.