É com muita alegria que o Museu da Educação do Distrito Federal (MUDE) convida seus seguidores e apoiadores a assistir a live "120 anos do educador Anísio Teixeira", no dia 15 de julho de 2020, às 19 horas.
Participarão os professores doutores Eva Waisros Pereira, João Augusto de Lima Rocha e Remi Castioni, todos estudiosos da obra de Anísio Teixeira. A live será mediada pela professora doutora Ariane Abrunhosa.
A live será exibida simultaneamente pela página do MUDE no Facebook e pelo canal do MUDE no YouTube
Sayonara Moreno - Correspondente da Agência Brasil
Esquerda para a direita: Joviniano Neto, João Rocha e Haroldo LimaSayonara Moreno / Agência Brasil
O
relatório que coloca em dúvida a versão inicial da morte do educador
baiano Anísio Teixeira foi apresentado hoje (11), em Salvador, 45 anos
depois que um laudo da polícia atestou que ele morreu em um acidente, no
Rio, cidade onde morava. O relatório indica que Anísio Teixeira pode
ter sido morto por torturadores.
Anísio Teixeira foi um
escritor e educador brasileiro. Ao lado de Darcy Ribeiro, fundou a
Universidade de Brasília (UnB), da qual foi reitor em 1963. No dia de
sua morte, ele saiu da Fundação Getúlio Vargas, onde trabalhava, e foi
andando até o prédio onde morava Aurélio Buarque de Hollanda, no
Edifício Duque de Caxias, no bairro de Botafogo. Lá, conversariam sobre a
candidatura de Teixeira para a Academia Brasileira de Letras.
Apesar
de não ter sido visto no edifício, o corpo dele apareceu no fosso do
elevador, dois dias depois do desaparecimento. As novas análises
sustentam a suspeita de que Teixeira teria sido morto pela repressão
militar, durante o governo do então presidente Emílio Médici. Anísio
Teixeira teria sido levado para depor na Aeronáutica, com a promessa de
que seria liberado depois.
Mas o escritor e professor da Escola
Politécnica da Universidade Federal da Bahia João Augusto de Lima Rocha
contesta a versão oficial. Ele obteve acesso ao laudo do Instituto
Médico-Legal e às fotos do corpo de Anísio Teixeira. A partir daí,
começou a estudar os documentos, as imagens e se baseou, também, em
depoimentos de pessoas próximas ao educador.
Segundo o professor,
a versão sustentada até agora era de que Anísio Teixeira morreu após
cair no fosso de um elevador, no prédio onde morava o dicionarista
Aurélio Buarque de Hollanda, em 1971.
Anísio Teixeira Imagem cedida pela Comissão Nacional da Verdade
“Ele
não chegou à casa do Aurélio e, quando a família o procurou, os
funcionários do condomínio disseram não ter visto Teixeira entrar no
prédio. Mas quando foi no dia 13 de março, o corpo dele apareceu no
fosso do elevador. Então, a suspeita começa daí, porque se ele não
chegou à casa do Aurélio e o corpo aparece lá, dois dias depois, há
suspeita”, diz o professor, que é também sobrinho-neto do educador.
João
Rocha conta que trabalhou em cima de outra contradição, porque, segundo
informações que chegaram a ele, Anísio Teixeira prestou depoimento em
um quartel da Aeronáutica, no Rio, no dia 12 de março, um dia depois do
desaparecimento dele.
“O que estou provando, agora, é que a
versão da queda é falsa. O resto – quem matou, como e por que matou –,
deixaremos para a comissão de mortos e desaparecidos, em um pedido
formal para que investiguem”, completa Rocha.
As análises foram
possíveis porque, segundo João Rocha, a Comissão Nacional da Verdade
(CNV) teve acesso ao laudo da perícia do cadáver de Anísio Teixeira, e
às fotos tiradas depois que o corpo apareceu no fosso do elevador.
“A
CNV me passou esses documentos, e pelas imagens fica claro que ele não
caiu [do elevador]. A minha hipótese básica é de que ele morreu por
tortura, e depois deram alguns golpes no cadáver, para simular a queda”,
afirma o sobrinho-neto de Anísio.
Haroldo Lima, também sobrinho
do intelectual nascido em Caetité, Bahia, disse que os próximos passos
para as investigações serão muito importantes para os intelectuais do
Brasil.
“Anísio foi um estadista da educação e fez muito pela
ideia da educação pública, universal e gratuita. Era tido como comunista
e dono de ideias perigosas. No final dos estudos, João demonstra que
naquele elevador, Anísio não morreu. Gostaríamos que o Estado brasileiro
se debruçasse sobre esse fato para apurar as verdadeiras causas da
morte de Anísio Teixeira”, declara Lima.
Laudo médico
Laudo sobre a morte de Anísio Teixeira Imagem cedida pela Comissão Nacional da Verdade
Segundo
o laudo médico da perícia feita em 1971 e assinado pelo legista João
Guilherme Figueiredo, foi possível afirmar que a versão sustentada pelo
governo da época não é verdade, de acordo com os estudiosos.
As
análises mostram que a posição do corpo, os ferimentos na cabeça e a
disposição dos objetos pessoais de Anísio Teixeira não correspondem ao
que seria uma queda. As imagens mostram que os óculos, por exemplo, têm
uma das hastes dobradas e estão aparentemente intactos mesmo depois da
suposta queda de quatro metros de altura. A hipótese é de que o corpo e
os objetos teriam sido depositados no local, para simular um acidente.
“Hoje,
comprova-se, documentalmente e fotograficamente, com laudos periciais,
que não é verdade que Anísio Teixeira tenha caído no poço daquele
elevador. Vamos pedir à Comissão de Mortos e Desaparecidos que inclua o
nome de Anísio Teixeira na lista de mortos da ditadura militar e
prossiga com as investigações”, disse o coordenador da Comissão Estadual
da Verdade, na Bahia, Joviniano Neto.
Darcy Ribeiro definia Anísio Teixeira como “aquele, entre os muito
inteligentes que conheci, que é o mais inteligente e o mais cintilante
de todos”.
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Gilberto Costa Repórter da Agência Brasil
Brasília – A Comissão de Memória e Verdade da Universidade de
Brasília (UnB) vai investigar a suspeita que o ex-reitor da Universidade
de Brasília (UnB), Anísio Teixeira, foi assassinado em março de 1971,
por agentes do Estado, após ser sequestrado e levado para uma unidade da
Aeronáutica, quando se dirigia à casa do filólogo Aurélio Buarque de
Holanda Ferreira, no Flamengo, no Rio de Janeiro. Segundo a nova versão,
Anísio sofreu tortura e foi encontrado com vários ossos quebrados e
traumatismo na cabeça e no ombro, devido a pancadas com objeto de forma
cilíndrica, possivelmente feito de madeira.
Essa versão é admitida pela família do ex-reitor e veio a público na
semana passada em Brasília no momento de instalação da comissão.
Durante a cerimônia, João Augusto de Lima Rocha, professor da
Universidade Federal da Bahia (UFBA) e biógrafo de Anísio Teixeira,
anunciou que tinha o conhecimento do assassinato conforme confidenciado a
ele em relatos diferentes pelo ex-governador da Bahia Luís Viana Filho
(1967-1971) e pelo professor e crítico literário Afrânio Coutinho.
“Essa suspeita perdura até hoje entre os familiares. Nunca se soube
uma situação que objetivamente que negasse isso. Muito pelo contrário,
ficaram sempre situações não esclarecidas. Então, não nos surpreendeu [a
revelação do professor João Augusto] porque, vez por outra, já tinham
sido levantadas que se processaria alguma coisa no sentido de investigar
isso”, confirmou à Agência Brasil, o médico psiquiatra Carlos Antônio Teixeira, terceiro filho de Anísio Teixeira.
Segundo a versão oficial, o ex-reitor morreu após cair
acidentalmente no poço do elevador de serviço do prédio onde morava
Aurélio Buarque. Conforme Carlos Antônio, a família sempre desconfiou da
versão, mas temia buscar investigação aprofundada. “Nós, na verdade,
não víamos clima e nem maior mobilização para isso. Por isso, nos
mantivemos distantes. Na época, tentamos clarear os fatos, mas as coisas
tomaram o caminho de querer culpar o mordomo, aí desistimos de
prosseguir”, disse, ao salientar que a família “sempre se dispôs” à
qualquer iniciativa de investigação apesar de nunca ter tomado a frente.
“A família tinha medo de sofrer retaliações”, complementa o professor
João Augusto.
A suspeita sobre as circunstâncias da morte de Anísio Teixeira será
investigada pela Comissão de Memória e Verdade da UnB, que por
coincidência tem o nome do ex-reitor, em uma homenagem a ele. A
informação é do historiador da UnB José Otávio Nogueira Guimarães,
coordenador de investigação da comissão. “Anísio Teixeira era alguém que
incomodava. Ele foi cassado [depois do golpe militar de 1964], mas não
tinha posições de esquerda explícita. Tinha, porém, projetos e uma forma
de pensar que certamente não agradava o regime”, avalia o historiador.
Conforme o professor João Augusto, quem primeiro confidenciou a
versão de assassinato foi Luís Viana Filho, que a época (dezembro de
1988) escrevia o livro Anísio Teixeira: a Polêmica da Educação
(Editora Unesp). Viana, que apoiou o golpe e era próximo do marechal
Castello Branco (primeiro presidente militar), “teve informação de que
Anísio não tinha morrido, estava detido em instalações da Aeronáutica no
Rio.”
O segundo depoimento foi de Afrânio Coutinho (março de 1989) na casa
e na presença de James Amado (irmão de Jorge Amado) e da sua esposa
Luiza Ramos (filha de Graciliano Ramos). “Ele me disse que presenciou a
necrópsia de Anísio Teixeira. Pelos ossos que estavam quebrados de
Anísio, ele não admitia que tenha sido queda. Quase todos os ossos
estavam quebrados. A versão era de que ele foi sequestrado no caminho [à
casa de Aurélio Buarque] e submetido à tortura”. Conforme o relato de
Afrânio, “Anísio também disse a ele que estava recebendo telefonemas com
ameaças.”
Carlos Antônio Teixeira acrescenta que no momento do suposto
sequestro, Anísio tinha em sua pasta um texto do Partido Comunista
Brasileiro, o Partidão (que estava na clandestinidade, mas era contra a
guerrilha). O texto, que desapareceu, foi dado ao ex-reitor pelo próprio
filho – ele, sim, militante do PCB. “Era um documento crítico. Falava
da ditadura, não falava das pessoas, mas das perspectivas próximas e
imediatas”, descreveu Carlos Antônio à Agência Brasil.
De acordo com ele, o pai “achou o texto lúcido e por causa da
clandestinidade do Partidão não se afastava fisicamente do documento.” A
pasta e outros documentos de Anísio Teixeira foram devolvidos à
família.
Além de Afrânio Coutinho, a necropsia de Anísio Teixeira foi
testemunhada pelos médicos e amigos do ex-reitor: Diolindo Couto
(neurologista), Domingos de Paola (professor titular de anatomia
patológica) e Francisco Duarte Guimarães (anatomopatologista do do
Hospital dos Servidores). Todos os três médicos, assim como Afrânio
Coutinho e Luís Viana Filho, já estão mortos.
A Comissão de Memória e Verdade da UnB deverá fazer a primeira
reunião de trabalho na próxima semana e terá acesso ao acervo do Arquivo
Nacional, entre outros, além de ser apoiada pela Comissão da Verdade do
governo federal, a quem deverá encaminhar o relatório final.
Procurado pela Agência Brasil, o Ministério da
Defesa informou que não irá se manifestar sobre o assunto e que o caso
deve ser tratado no âmbito da Comissão da Verdade.