Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)
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sábado, 22 de junho de 2019

Submetem-se docilmente à nova forma de escravidão dos dias atuais aqueles que desconhecem a própria força

Sábado, 22 de junho de 2019
Do
Blogue Náufrago da Utopia

SOBRE A SERVIDÃO  VOLUNTÁRIA



Por Dalton Rosado

Todos nós temos o hábito de nos acomodarmos aos hábitos e, desafortunadamente, aos maus hábitos. Esta é uma das causas da servidão voluntária continuada, que acarreta a abdicação ao direito à liberdade e o esquecimento das benesses e gozos desta, por desconhecimento. Afinal, não se sente falta de uma boa iguaria quando não se a conhece.

No filme Um sonho de Liberdade (de 1994, dirigido por Frank Darabont e estrelado por Morgan Freeman) temos uma exemplar demonstração de como o ser humano dominado pela privação continuada da liberdade, ao ver-se finalmente livre, não se adapta às novas circunstâncias e comete suicídio. Causas mortis: as condições adversas que encontra fora das grades, provocadas pela velhice e alheamento social, após décadas da rotina prisional a que já se habituara (*).

Existem relatos no Brasil de que negros escravizados por senhores feudais —os quais, apesar do regime escravista, conservavam algum resquício de humanidade—, continuaram servindo-os voluntariamente após a decretação da Lei Áurea.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Extradição de pais de crianças brasileiras: esta infâmia se repetirá? É ingenuidade supormos que os tribunais superiores resistirão às imposições dos poderosos

Sábado, 15 de dezembro de 2018
Do Blog Náufrago da Utopia
Por
Dalton Rosado

Extradição de pais de crianças brasileiras: esta infâmia se repetirá?
Há 82 anos, o Supremo Tribunal Federal autorizou o ditador Getúlio Vargas a extraditar para a Alemanha Olga Benário, grávida de uma filha do líder comunista brasileiro Luiz Carlos Prestes, sob a alegação de que ela era militante do Komintern (a Terceira Internacional).
A patética acusação de crime ideológico sob um regime de exceção que no ano seguinte viria a promulgar a famigerada Constituição de 1937 (aquela que instituiu o Estado Novo absolutista) deu a Vargas a possibilidade de, coerentemente com as óbvias simpatias que demonstrava pelo nazifascismo, entregar Olga a seus piores inimigos. Ela morreria aos 34 anos, no campo de concentração nazista de Ravensbruck, nas cercanias de Berlim.

domingo, 25 de novembro de 2018

O grande desafio: um debate entre o emancipacionista Dalton Rosado e o neoliberal Paulo Guedes — 4

Domingo, 25 de novembro de 2018
Do Blog Náufrago da Utopia

Charge bem fiel à visão de neoliberais como Paulo Guedes

Quer dizer que os dogmas da esquerda, de estatização e assistência social, não podem conviver de forma harmoniosa com o desenvolvimento econômico sustentado? 
E que só nos resta aceitar sem restrições a racionália do liberalismo capitalista? 
.
Paulo Guedes: o socialismo fracassou no mundo inteiro. Ainda assim muitos continuam a cultuá-lo, como ocorre na nossa vizinha Venezuela, com seu bolivarismo decadente.

Os governos estatizantes, que sempre perpetuam no poder uma casta dirigente, já demonstraram a sua ineficácia. Após um período de desenvolvimento concentrado, sempre vem a estagnação, como consequência do absolutismo (que tudo e todos corrompe) e do controle estatal da produção (que termina por provocar a baixa produtividade social). 

O pensamento político que foi experimentado no Brasil desde os governos mistos de neoliberais e social-democratas de Fernando Henrique Cardoso, passando pelos social-democratas e trabalhistas de Lula e Dilma (todos com cunho assistencialista) até que socorreu parte da faixa mais sofrida da sociedade brasileira, terminando, contudo, por penalizar a maior parte da população. 


Isto se deu graças às práticas populistas que falsearam a verdade, e contra as quais são necessárias medidas de competitividade mercantil sem as quais nós vamos ficar ainda mais para trás.

O mundo já não admite cortesias assistencialistas com nosso dinheiro suado, nem a quebra da responsabilidade fiscal que costuma ocorrer nos períodos pré-eleitorais. O combate a tais procedimentos é fator preponderante para que passamos sair do atoleiro em que tais governos nos colocaram. 

Com a nossa estabilidade política e o aperfeiçoamento das instituições que têm demonstrado sua funcionalidade (vide os êxitos alcançados pela Operação Lava-Jato), mais a implementação das medidas que defendo, o mercado mundial vai nos olhar com respeito e aí poderemos alavancar o desenvolvimento econômico, sem o qual não iremos a lugar nenhum. 

Os dogmas esquerdistas, apesar de postularem o poder para a promoção da assistência social aos trabalhadores, caíram no descrédito por sua disfunção social: terminaram por desproteger justamente aqueles a quem pretendia proteger. 

Cuba, p. ex., extrai mais-valia em torno de 60% do valor devido aos médicos cubanos que trabalham no exterior, ou seja, faz a mesma coisa que os capitalistas liberais, com a diferença que estes últimos assumem dita extração de modo extensivo aos empreendedores privados.

O capitalismo, ao promover prosperidade econômica aos empreendedores, termina por proporcionar ao estado uma capacidade financeira de assistência social que, faltando dinheiro, não há como se viabilizar. O dinheiro não dá em árvore, somente com trabalho é que se consegue obtê-lo.  

Dalton Rosado: o socialismo fracassou porque era capitalismo de estado, uma forma de mediação social capitalista fechada e fadada ao insucesso no longo prazo por questões de limite da expansão de mercado e até por boicote da economia internacional.

Fazendo a revolução marxista tradicional, os países que então eram atrasados, como a Rússia czarista e a China dos mandarins, obtiveram um avanço cultural e produtivo vertiginoso (a ponto de a primeira derrotar os nazistas na 2ª guerra mundial, pois Hitler subestimou sua capacidade bélica e populacional) porque se fecharam nas suas fronteiras imensas e puderam sobreviver à concorrência internacional de mercado. 

Entretanto, passado o estágio inicial, tiveram de abrir suas fronteiras para o capitalismo de mercado mundial sob pena de estagnação da produção de mercadorias; e acabaram adotando um misto de capitalismo de estado na política e capitalismo liberal na economia.   

Paulo Guedes, ao defender a economia liberal capitalista, estabelece uma falsa dicotomia econômica de fundo com o modelo estatista, desconhecendo que ambos os modelos têm o mesmo DNA, ou seja, são ambos produtores de mercadorias. Mesmo que se auto-intitulem estatizantes keynesianos, ou social-democratas, ou marxistas, têm como base de mediação social a produção de mercadorias. 

Aliás, tal modo de produção praticada por marxistas tradicionais deve fazer Marx se revirar no túmulo, tal o mau uso que está sendo dado à sua doutrina emancipacionista que propõe a superação da forma-valor, começando pela forma-mercadoria (isso já está contido no primeiro capítulo d’O capital, a parte sempre considerada como meros devaneios filosóficos pelos marxistas tradicionais).
Paulo Guedes afirma que só com trabalho se produz dinheiro. É um conceito valido sob a mediação social pelo capital, mas que embute a escravização do trabalhador, pois o produto do seu trabalho, transformado em valor, torna-se alheio a ele. 

O próprio capitalismo, contudo, está negando o trabalho produtor de valor aos trabalhadores (única forma de garantirem seu sustento miserável), aqui e mundo afora, por força de suas contradições internas; são estas incongruências que colocam em xeque o discurso liberal do economista Paulo Guedes. 

A crítica da economia política (crítica da forma-valor), que faz a reinterpretação do Marx da maturidade, é doutrina completamente diferente dos dogmas da esquerda fisiológica, incrustada no poder burguês ou em ditaduras ditas proletárias. 

Vale lembrar que Marx mesmo propõe a superação da trabalho abstrato e da figura do trabalhador, mas, neste aspecto específico, suas teses têm sido consideradas heréticas tanto pela direita como pela esquerda. É como se não existissem!  
O Brasil, quando é liberal capitalista, incide num capitalismo burro, sem a esperteza nefasta do praticado nos países ricos; e quando é social-democrata, num modelo assistencialista, acendendo uma vela ao mercado e outra aos movimentos sociais aparelhados. Os resultados  das duas opções são desastrosos.   

Na essência todos esses modelos têm a mesma raiz, ou seja, todos pertencem ao sistema produtor de mercadorias, que é exatamente o que deve ser superado.

O economista Paulo Guedes oferece um discurso antigo, do mercantilismo liberal, que é anterior mesmo à revolução burguesa republicana francesa do final do século 18, como se fosse algo novo e eficaz; e tem como ponto de apoio os erros históricos da esquerda estatizante dos meios de produção, adepta de um assistencialismo sem superação da forma segregacionista da mediação social feita a partir da forma-mercadoria. 

Ou seja, parte dos erros históricos da esquerda para fazer uso oportunista do populismo político barato de um falso outsider bravateiro e fundamentalista (um presidente primário que transitou do modelo nacionalista-estatizante militar para um liberalismo de ocasião) para tornar crível, aos olho ingênuos das massas populares insatisfeitas, as suas teses do capitalismo liberal puro, ou seja, do capitalismo no pior estilo segregacionista.

E tais teses serão aplicadas justamente num momento no qual a recessão mundial e o desemprego estrutural proporcionado pelas novas tecnologias de produção, por ele negados, salta aos olhos como verdade incontestável. 
Acaso a França do político de centro-direita Emmanuel Macron, que ainda hoje está mobilizada por movimento de protestos contra o aumento dos impostos destinados o cobrir déficit público, não vive sob o capitalismo? 

Acaso a outrora próspera Argentina do político de centro-direita Maurício Macri, com inflação anual de 40% e decomposição de sua moeda, ajoelhando-se aos severos ditames do FMI (ao qual o Brasil vai aderir espontaneamente) não é capitalismo?

Os dois exemplos acima citados, que são idênticos a muitos outros governos de direita e de esquerda, ditatoriais ou eleitos democraticamente pela insatisfação popular, estão às voltas com problemas de déficit orçamentário/previdenciário, desemprego estrutural e dívida pública impagável, sendo todos capitalistas na essência.

O Brasil, sob os auspício da orientação econômica liberal, capitaneado por um presidente obtuso e que acredita em soluções simplistas para questões complexas (tudo dentro do receituário tradicional de mercado!) e que come na mão dos economistas da escola da ortodoxia de Chicago, breve estará se defrontando com problemas da maior gravidade.

A esperança é que tal debacle nacional possa fazer acordar as massas carentes de soluções e quebrar o eterno pêndulo da ineficácia da alternância entre trabalhistas, social-democratas, ditadores militares, capitalistas liberais e outros matizes ideológicos, tendo como pano de fundo o mesmo modo de mediação social (dinheiro e mercadoria).  
E que possamos, a partir daí, encaminharmo-nos para uma visão emancipacionista, que pense fora da caixa e nos proporcione uma sociedade onde haja prosperidade sustentável tanto do ponto de vista material como ecológico.

Tal sociedade somente pode existir a partir de um modo de produção social fora da lógica da produção de mercadorias e com a adoção de um critério de produção voltado para a satisfação das necessidades sociais materiais, ecológicas e humanas no seu sentido mais evoluído. 

O economista liberal Milton Friedman, um dos líderes da Escola de Chicago, foi quem popularizou a antiga frase segundo a qual, sob o capitalismo, não existe almoço grátis.

Mas, na sociedade emancipada, produtora de simples objetos e serviços destinados ao consumo social, todos os almoços serão fornecidos comodamente com um mínimo de esforço coletivo e equânime (este é o seu custo social). E que, por não serem dimensionados em valor, parecerão grátis.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Um ingrediente da geleia geral brasileira: Partidos infiéis e seus nomes e traidores de seus programas. O efeito liquidificador e os partidos políticos no Brasil

Sexta, 5 de janeiro de 2018
Do Blogue Náufrago da Utopia

Por
Dalton Rosado
Em qualquer país do mundo no qual a política dê acesso ao poder estatal, os partidos políticos supostamente representam as correntes de pensamento e posturas político-administrativas que norteiam as ações administrativas (ainda que se admitam candidatos avulsos, sem partidos, em alguns países).

Um vez alçados aos altos postos do Executivo, as diferenças ideológicas são confrontadas com a ditadura da ordem econômica e desaparecem, uma vez que todos as nações têm, hoje, as suas mediações sociais feitas a partir da forma-valor (dinheiro e mercadorias). De Nova York a Palmas do Tocantim, as pessoas acordam igualmente para trabalhar, ganhar dinheiro e, com isto, garantir o sustento material. 

Todos estão submetidos ao fetichismo da mercadoria, de cuja complexidade e negatividade poucos cidadãos se apercebem, daí a positivação de um modo de produção irracional, destrutivo e autodestrutivo, comum a todas as ideologias que emanam das trevas de uma lógica mercantil negativa.

Entretanto, apesar de os governantes não governarem (uma vez que são governados por uma lógica de produção de valor que lhes dá ordens e pauta os seus comportamentos administrativos no sentido da preservação e desenvolvimento dessa mesma lógica), certamente há diferenciações de ações administrativas de cunho ideológico entre este e aquele na eleições de prioridades administrativas, bem como diferenciações no que diz respeito à orientação de comportamentos sociais e conceitos sobre vários assuntos.

Barack Obama discrepa de Donald Trump em questões de interesse internacional (como a negação do acordo sobre o clima de Paris), nacional (o tratamento aos imigrantes) e até quanto à repressão ou convívio com os opositores (que sempre existem, felizmente). 

Tais distinções no exercício do poder político-estatal, ainda que tenham graves repercussões na vida social, são apenas cosméticas, uma vez que a questão de fundo permanece inalterada: o modo de produção social. 

É devido ao modo de produção social capitalista (sistema de produção de mercadorias, de valor a partir do trabalho abstrato) que ocorre o processo de homogeneização dos comportamentos político-administrativos, aí também incluídos os estados ditos marxistas-leninistas. Uma vez no poder nada é mais keynesiano do que um liberal nos momentos de crise do sistema produtor de mercadorias, e nada mais liberal do que um keynesiano nos momentos de ascensão capitalista.

Os partidos políticos correspondem a uma necessidade de legitimação do acesso ao poder verticalizado expresso na acumulação crescente e inevitável da riqueza abstrata, aquela adquirida pela extração da mais-valia (privada ou estatal); e coincidem na aceitação da necessidade de um Estado para fazer o controle monetário e desempenhar as demais funções de manutenção da coerção tácita do sistema produtor de mercadorias e do mercado. 

Dentro deste desiderato, os partidos políticos costumam ser assenhoreados pelos tipos mais mesquinhos de controladores burocráticos serviçais do poder econômico, ou por bandidos cujo único objetivo é o enriquecimento ilícito facultado pelo exercício do poder político do Estado. 

Bipardidarismo copiado dos EUA 

No Brasil a questão da formação político partidária, jungida sob a égide da ditadura de 1964/85 e, posteriormente, a partir da chamada abertura (meramente conciliatória), promoveu distorções de conteúdo programático que se refletem, hoje, na completa falta de identidade ideológica entre os nomes dos partidos; os seus programas; aquilo que ditos nomes deveriam representar; e o que efetivamente são.

Tudo começa com a criação da Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido criado pela ditadura militar que abrigou os assumidos conservadores fisiologistas puxa-sacos dos fardados. 

De renovadores os arenosos nada tinham, uma vez que sempre pertenceram à histórica e poderosa elite política brasileira, que instituiu a república com o apoio da caserna (o Brasil é o único país do mundo que derrubou a monarquia pela direita, a ponto de D. Pedro II ter sido mais liberal do que os militares republicanos brasileiros a serviço da elite política).

Como disfarce político da ditadura resolveu-se produzir uma cópia tosca do bipartidarismo estadunidense. Assim nasceu o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), para dar uma aparência de disputa e coexistência política democrática civil, embora qualquer veleidade de ele atuar como uma verdadeira oposição terminasse em fechamento do Congresso e cassação de mandatos.


A partir daí o MDB passou a cumprir a sua função de força auxiliar do poder vigente (ainda que tenha posteriormente abrigado facções ideológicas as mais distintas), função que preenche até hoje, num mimetismo político oportunista que o faz sempre adaptável ao interesse do capital, qualquer que seja o governante. 

A abertura política ao pluripartidarismo obedeceu ao critério do controle da grande conciliação que anistiou torturadores e assassinos, terminando por impor ao povo brasileiro, como novo presidente da República, um estranho no ninho da redemocratização. 

Ninguém menos do que quem presidira até pouco tempo antes o partido da ditadura (o Partido Democrático Social, PDS, que substituiu a Arena) e, abandonando o barco que afundava, filiou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro, sucessor do MDB: o coronel dos sertões nordestinos em trajes civis e acadêmico imortal interminável José Sarney, peça importante da futura sustentação política do PT e sua famigerada política de conciliação de classe.

FEIOS, SUJOS E MALVADOS

Isto posto, veio o pluripartidarismo negociado na grande conciliação por cima, com as seguintes agremiações:

— o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), legitimado pelo general Golbery do Couto e Silva, que terminou por colocá-lo nas mãos de Ivete Vargas, uma politiqueira conservadora que em nada honraria o trabalhismo getulista e janguista. Assim, o PTB de hoje é conservador e usa as bandeiras do antigo trabalhismo como se fosse sua, num evidente trabalhismo made in Paraguay (que me perdoem os verdadeiros e honestos paraguaios).

Brizola perdeu a sigla PTB para a politiqueira Ivete Vargas

Está nas mãos de Roberto Jefferson, antigo chefe da tropa de choque de Fernando Collor de Mello, com quem o PT foi posteriormente se conluiar para receber (bem feito!) uma punhalada nas costas: a denúncia do mensalão, com ele praticado. 

Eis que, agora, o PTB volta ao poder, com a filha de Jefferson se tornando ministra do Trabalho. Pode? No Brasil pode;

— o Partido dos Trabalhadores (PT), que usa a estrela do socialismo e nasceu sob a égide do movimento operário, enchendo de esperanças ingênuas muitos combatentes da luta contra a exploração capitalista (eu, entre eles). 

A partir da assunção ao poder estatal burguês, o PT, contudo, se metamorfoseou no mais legítimo representante da social democracia conciliadora com o alto empresariado, envergonhando todos os que não aceitam compactuar com o poder econômico, a vilania e a roubalheira generalizada, na mais conspícua tradição utilitarista ("os fins justificam os meios");  

— o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), neoliberal. Abriga nas suas hostes tudo que há de mais conservador, que vai desde a Opus Dei, passando pelo grande empresariado nacional e desembocando em intelectuais e ex-militantes socialistas arrependidos;

— o Democratas (DEM), ex-Partido da Frente Liberal (PFL), no qual encontramos o que há de mais conservador na elite política brasileira. Seus membros, se fossem políticos estadunidenses, representariam a ala mais conservadora e reacionária do Partido Republicano;

— o Partido Comunista do Brasil (PC do B), que se diz centenário mas não passa de uma costela dissidente do antigo e quase secular Partido Comunista Brasileiro (PCB, o velho partidão). Ferrenho defensor do desenvolvimento econômico, ou seja, do capitalismo, está sempre pronto para apoiar partidos de esquerda que tenham o mesmo propósito, ou seja, dar sobrevida às categorias capitalistas trabalho, trabalhador, mercadoria, mercado, estado, política, etc., o que faria o Marx esotérico tremer na cova;

— o Partido Verde (PV),  que supostamente teria como foco a defesa ambiental, mas nunca questiona o modo de produção capitalista (que é predatório da natureza por excelência) e tem nos seus quadros políticos proeminentes eleitoralmente mas sem nenhuma tradição na defesa da ecologia, que ali estão por mera conveniência e oportunismo eleitoral. 

Os militantes realmente focados na questão ambiental sempre terminam por se desiludir com as práticas partidárias do PV, que estão longe de se coadunarem com o que programaticamente o PV se propõe a defender, e vão embora frustrados;

— O Partido Democrático Trabalhista (PDT), criado por Leonel Brizola depois de perder injustamente a sigla PTB para Ivete Vargas. Os laços que porventura ainda o ligavam ao trabalhismo brasileiro pré-1964 se romperam de vez quando Brizola morreu, em 2004. Hoje possui, nos seus quadros políticos, mais empresários do que trabalhadores; e tem prefeitos, governadores e parlamentares sem a mais remota identidade histórica com o trabalhismo.

Seria interminável a lista de partidos desprovidos de qualquer identidade programática e ideológica com seus nomes e estatutos, e que mais se parecem com bandos prontos para assaltar o erário público em tenebrosas transações, nunca recusando as ofertas para ajudarem a aprovar proposições legislativas anti-povo (ou seja, não passam de legendas de aluguel).

Os novos partidos de esquerda (Partido Socialismo e Liberdade, o Psol, e a Rede Sustentabilidade, ou simplesmente Rede) repetem a velha cantilena oposicionista sem compreender a gravidade da debacle capitalista e do seu Estado constitucional no momento de desequilíbrio entre a produção de novos nichos de trabalho (a menor) e a dispensa de grandes contingentes de trabalhadores (a maior), que causa o desemprego estrutural irresolúvel sob sua lógica, arrastando para a miséria grandes contingentes populacionais em meio ao fausto da riqueza abstrata cada vez concentrada. 

Sem o quererem, ou mesmo perceberem, os sempre minoritários partidos de esquerda apenas legitimam o status quo vigente.

Na política as diferenças ideológicas sucumbem na simbiose do efeito liquidificador da homogeneidade patrocinada pelo fetichismo da mercadoria. 

Até quando vamos iludir a nós mesmos? (por Dalton Rosado) 

sábado, 22 de julho de 2017

O papa Francisco está certo: o dinheiro é o excremento do Diabo

Sábado, 22 de julho de 2017
Do Blogue Náufrago da Utopia
Por Dalton Rosado


  dalton rosado SOBRE O TEMPO DE TRABALHO E O CARÁTER ONÍVORO NEGATIVO DO DINHEIRO

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Nesses últimos dias, como acontece com todos os trabalhadores (sou um deles, é a advocacia que me garante o sustento), fiquei assoberbado de trabalho alienado (arre!), que tanto critico e que me impossibilitou de escrever para o blogue com a assiduidade a que me proponho. 



É que meus escritos de crítica da economia política –e outros temas mais amenos que o Celso Lungaretti tem a paciência e a abertura de publicar no seu (nosso) blogue, como adepto da dialética do conhecimento que é–, servem para mim como um bálsamo contra aquilo que todos nós, para subsistirmos, somos obrigados a buscar com a nossa força de trabalho: o famigerado (mas de modo inadvertidamente adorado) dinheiro.

sábado, 27 de maio de 2017

A CONEXÃO DA CRACOLÂNDIA COM O REINO DA CORRUPÇÃO

Sábado, 27 de maio de 2017
Há um aumento redobrado dos antigos problemas sociais, que agora explodem de forma conjunta e sob os mais variados aspectos: cracolândia, redução de direitos trabalhistas e previdenciários, desemprego estrutural, predação ecológica, aumento da violência urbana, corrupção com o dinheiro dito público, falência dos serviços públicos de educação e saúde, crise no topo das instituições do Estado, falência das contas públicas, favelização crescente, etc.

Do Blogue Náufrago da Utopia
Por Dalton Rosado


"Nada é permanente nesse mundo cruel. Nem
mesmo os nossos problemas" (Charlie Chaplin)
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Há 22 anos moro no mesmo lugar, sempre fazendo o mesmo percurso de casa até o escritório. Assim, tendo de passar sempre pelo mesmo semáforo, pude acompanhar a evolução (ou involução) daquele menino de 14 anos, saudável, que lavava pára-brisas para ganhar alguns trocados. 

Papeávamos. Éramos antagonistas futebolísticos, então ele sempre zoava comigo quando o Ceará (meu time) perdia, recebendo o troco nas derrotas do Fortaleza. perdia. Tínhamos uma relação cordial.

Com tempo ele foi decaindo: os dentes, antes sadios, ficaram cheios de cáries; a roupa, cada vez mais suja e rota; a barba crescendo de modo descuidado; e o seu ar já não era alegre, mas sombrio. O crack fez dele um zumbi ambulante, desinteressado pelo que acontecia ao redor, esquecido do futebol.

sábado, 22 de abril de 2017

Os que foram perseguidos no PT fazem um apelo aos antigos companheiros

Sábado, 22 de abril de 2017
Do Blogue Náufrago da Utopia
Por Dalton Rosado



Confesso que experimento um sentimento de constrangimento, até de vergonha, diante da comprovação da dimensão da corrupção praticada pelo núcleo duro do poder petista. Não se trata de um regozijo revanchista para com ex-companheiros da direção partidária ora em desgraça e que nos perseguiram dentro do PT. É também um voto de esperança, torcendo para que tudo sirva de lição e aprendizado.

Não se pactua com satanás sem que se saia queimado pelo calor do seu tridente.

sábado, 28 de janeiro de 2017

O que a esquerda deveria dizer as suas ovelhas negras, segundo Dalto Rosado: 'Fora tudo, fora todos!'

Sábado, 28 de janeiro de 2017
Do Blogue Náufrago da Utopia
Por Dalton Rosado

O facciosismo como critério negativo da crítica 

"Às pessoas facciosas, depois de admoestá-las severamente, evita-as, pois, senão, também serás corrompido" (Bíblia, Livro de Tito)

Nestes dias nos quais se escancaram as provas da promiscuidade do todo o segmento político (só estão de fora os que ainda não tiveram força de acesso ao poder ou de interferência nele, mas logo, logo caminharão para tal comportamento, à medida que dele se aproximarem) com o empresariado, expressos pela grande mídia na cobertura da decretação da prisão do bilionário Eike Batista, nós podemos aferir quão facciosas e inconsequentes são as defesas dos corruptos de um lado e de outro.

A Globonews se apressa em demonstrar enfaticamente que os jatinhos do empresário Eike Batista serviram aos governantes petistas e seus aliados, omitindo o fato de que dito empresário, como sói acontecer, também servia aos políticos mais conservadores. Nisto não há nenhuma novidade.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Quem se submete passivamente à escalada de abusos acaba assistindo impotente à própria destruição

Segunda, 9 de janeiro de 2017
Do Blogue Náufrago da Utopia

Por Dalton Rosado
Na fábula da rã do escritor suíço Olivier Clerc, o batráquio, ao cair num caldeirão de água fria e limpa, instantaneamente fica feliz com seu destino.

Logo mais alguém acende o fogo para aquecer o caldeirão e a água começa a atingir temperatura mais agradável para a rã. Melhor ainda!

Gradativamente a água fica mais quente e ela vai tentando se acomodar à nova temperatura até que, atingido o ponto de ebulição, morre cozida.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O 'Presidente Temerário' diz a que veio (e de paraquedas)

Quarta, 30 de novembro de 2016
Do Blogue Náufrago da Utopia
Por Dalton Rosado

"Quando o jornal exibia que o PMDB desembarcou 
do governo e pessoas erguiam as mãos, eu disse: 
meu Deus do Céu! Essa é a alternativa de poder." 
(Luís Roberto Barroso, ministro do STF)



A frase “diga-me com quem andas e te direi quem és”, atribuída à Bíblia por analogia com passagens bíblicas de idêntico teor e adotada pelo vulgo como provérbio que encerra inquestionável verdade, tem lá os seus méritos como análise comportamental. 

Quem são os antigos amigos de Michel Temer? De quem ele foi assessor? De qual casa legislativa ele foi sempre um membro destacado e da qual foi presidente por vários mandatos? Qual a natureza ideológica da maioria dos membros do parlamento?

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Dalto Rosado analisa o conteúdo de três notícias do "Jornal Nacional"

Terça, 22 de novembro de 2016
Do Blogue Náufrago da Utopia

"A ideologia da austeridade propõe a penalização dos mais fracos. Os políticos e tecnocratas gostam de se enxergar como pessoas sérias que tomam decisões difíceis, como cortar programas populares e elevar taxas de juros, sem perceber que isso só vai piorar as coisas." (Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia)

1) AFIRMAÇÃO DE TEMER DE QUE A CRISE DERIVA DA TENTATIVA DE DILMA DE ENCOBRIR A REALIDADE

Na primeira reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Presidente Temerário afirmou que “a gigantesca crise enfrentada pelo País é resultado da tentativa de disfarçar a realidade”. 

Podemos extrair desta frase algumas conclusões que denunciam a falta de consistência da análise presidencial, bem como a tentativa de escamotear a verdadeira realidade. 

Em primeiro lugar, a crise não deriva da tentativa de disfarçar a realidade, mas sim de problemas muito mais graves do que este.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Na batalha do impeachment, os dois lados mostraram idêntico respeito pelo capitalismo e suas instituições

Quarta, 31 de agosto de 2016
Os parlamentares não negam o capitalismo; uns o elogiam, outros querem humanizá-lo, estando ambos equivocados.
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Do Blogue Náufrago da Utopia
por Dalton Rosado
"A vida é uma história contada 
por um idiota, cheia de som e 
fúria, significando nada" 
(Shakespeare, em MacBeth)
Nos exaustivos e repetitivos debates entre defensores e adversários do impeachment da presidente Dilma Rousseff, nenhuma das partes ousou abordar a natureza da crise do capitalismo. Fiquei atento a esta questão nas poucas vezes que tive paciência de assistir à ópera bufa encenada no Senado, mesmo sabendo que os parlamentares dos dois lados dela fogem como o Drácula dos raios solares na ficção do irlandês Bram Stoker.

A hipocrisia, a superficialidade e as meias verdades campeiam neste processo de impeachment, no qual todos brigam e ninguém tem razão. 

Muitos membros da oposição parlamentar pró-impeachment afirmam que a crise brasileira tem origem no desgoverno de Dilma, relativizando a crise capitalista mundial; os parlamentares a favor da afastada, por sua vez, afirmam que a crise internacional terminou por se abater sobre o Brasil, causando os estragos que todos conhecemos e que foram repetidamente elencados ao longo dos fastidiosos discursos (como se a grande mídia já não tivesse abordado ad nauseam e o povo sentido na carne os seus reflexos!). 

Os dois lados que se digladiam nas tempestades de som e fúria significando nada do parlamento brasileiro tudo fazem para parecerem diferentes, mas são idênticos na essência. Daí ter-se tornado consensual a análise de que a culpa não é da crise estrutural do capitalismo, mas sim de fatores circunstanciais (seja o mau gerenciamento, seja um excesso momentâneo de manipulação e ganância). 

Assim, para os impichadores, a crise advém do mau gerenciamento do governo Dilma (que existe); e para os impichados, da manipulação insensata do capital internacional, nacional e dos seus políticos (que existe). No segundo caso, propõem, como solução, o controle estatal (daí frases do tipo “mais estado e menos mercado”, do líder do PT na Câmara Federal). 

O viés estatizante é encontrado também em destacados membros da esquerda, que ao invés de aprofundarem a análise sobre as causas profundas da crise mundial do capitalismo (que explodiu a partir da crise de liquidez do sistema financeiro mundial em 2008/9, e que somente pôde sobrevier à custa do dinheiro sem valor emitido pelos Bancos Centrais dos países integrantes do G7), prefere circunscrever as suas críticas ao gerenciamento político da crise, como se fosse esta a sua causa.  

A turbulência no sistema financeiro e o descontrole do endividamento público e da inflação foram contornadas por meio da emissão de moeda sem lastro e de títulos públicos insolváveis, ou seja, por medidas evidentemente paliativas, procrastinatórias da crise. Pois esta não foi e nem pode ser resolvida na sua origem, vez que reside na paralisia inerente à chamada economia real, que a todos e a tudo financia (Estado e sistema financeiro), provocada pelo desenvolvimento tecnológico das forças produtivas (meios de produção via trabalho morto, das máquinas). 

A crise econômica mundial resulta do fato de que, pela primeira vez na história do capitalismo, não existe compensação entre o desemprego em setores tecnologicamente desenvolvidos da produção e novos empregos que possam produzir e compensar a extração de mais-valia suprimida. 
 
 
O barateamento das mercadorias reduz a massa global de mais-valia e de valor produzido, e ainda que crie a possibilidade de um maior poder de aquisição para quem está incluído no sistema produtivo, não tem mais o condão de equilibrar tal déficit e proporcionar o indispensável aumento contínuo desta mesma massa global de valor, agora reduzida. 

Estabelece-se, atualmente, o absurdo confronto entre incluídos no sistema produtivo (mas em vias de serem desempregados) e os não incluídos; uma guerra fratricida, estimulada pelo Estado, que, juntamente com o mercado, trata estes últimos como párias sociais improdutivos de valor.    

O desequilíbrio desta conta vem ocorrendo desde a revolução industrial tecnológica (cibernética, microeletrônica, sistema de comunicação via satélite e, agora, com o auxílio da nanotecnologia), sem que disso se deem conta os privilegiados defensores do capital, sejam eles explícitos (a direita) ou implícitos (a esquerda). Desconhecem ou querem desconhecer que, no longo prazo, o capitalismo é uma irresolúvel equação matemática aplicada às relações sociais.

Vários parlamentares estabeleceram um paralelo do Brasil com o caos da Venezuela, cuja população mais pobre tenta se refugiar nos países limítrofes de suas fronteiras (Colômbia e Brasil), por absoluta falta de oferta de bens indispensáveis à vida, como alimentos e produtos de higiene pessoal; veem em tais ocorrências um exemplo das virtudes do capitalismo. 

Esquecem-se tais analistas facciosos que a Venezuela é um arremedo de capitalismo de Estado que se manteve sustentado pelo petróleo, num comércio internacional no qual seu maior comprador eram justamente os Estados Unidos. Ora, relações de comércio internacionais são mecanismos capitalistas, e bastou a queda do preço internacional do petróleo e os boicotes do capitalismo liberal burguês para que se inviabilizasse a tal revolução bolivariana. A falta de profundidade das análises de uns e de outros é de estarrecer. 

Os parlamentares não negam o capitalismo; uns o elogiam, outros querem humaniza-lo, estando ambos equivocados. 

Outra questão que me chamou a atenção foi o elogio uníssono ao parlamento burguês, como se este fosse ganho intocável da civilização ocidental e altar da democracia. Já disse no meu primeiro artigo neste blogue que a democracia é antidemocrática, no sentido de que se trata de um artifício que se incorporou semanticamente como sinonímia enganosa do justo e do bom. Agora digo que o parlamento é mais uma expressão explícita do engodo chamado democracia.    

Obviamente, um parlamentar que jura obediência à Constituição ao tomar posse, torna-se, implicitamente, submetido aos cânones da casa parlamentar, que foi criada e concebida pelo regime republicano burguês. Aliás, o elogio à República é referência sacrossanta, assim entendida por todos os parlamentares que se pronunciaram no processo de impeachment. 

É por isto que afirmo que alguém que se considere anticapitalista não deve pertencer e participar do parlamento, pois não pode negá-lo, sob pena de falta de decoro parlamentar. Desculpem-me se o trocadilho é infame, mas a atividade parlamentar dá para lamentar...


A mim me parece que as intermináveis discussões havidas no teatro jurídico-institucional do Congresso Nacional sobre o impeachment equivalem, numa analogia metafórica, a uma enorme junta médica que discute hipocritamente, sob os auspícios midiáticos, como curar a infecção de uma unha encravada num paciente que está tomado por uma metástase cancerígena. (por Dalton Rosado)